domingo, 17 de outubro de 2010

O final de todas as histórias

     Naquele estado que beira a inconsciência, logo pela manhã, enquanto não se sabe se se quer dormir ou acordar, ou se se está de fato dormindo ou acordado, recordei-me de algumas grandes histórias que há algum tempo li e assisti. Histórias de destinos isolados, de uma só alma que vagou a esmo pelos labirintos tortuosos de sua sina; histórias de destinos entrelaçados, em que uma única decisão alterava os desfechos de inúmeras vidas.

     E vi como todas elas serão obliteradas pelo tempo - acabo de ler "A Máquina do Tempo", de Wells, e estou suscetível a este tipo de pensamento -, por mais que implorem por sua imortalidade. Todos os livros se tornarão ilegíveis, de tão corroídos. Todo o fulgor de belos dias, esquecidos como se nunca tivessem existido. Todo o amor que dediquei... não terá valia quando os dias se aproximarem de seu ocaso.

     Os grandes desafios da vida, os grandes amores, abraços, beijos, os idílios de romances nunca consagrados, as tragédias que tanto nos infligiram dores incomensuráveis, e ainda mais os pequeníssimos detalhes, os olhares e pestanejos, uma breve expressão de angústia, ou outra, de rejúbilo; tudo será esquecido daqui a alguns milhares, ou mesmo dezenas, de séculos. Ou ainda menos. Eu, por exemplo, desconheço a história da trajetória de vida de meu bisavô, de como ele conheceu minha bisavó, de como se firmou o desejo de construir nossa família em seus íntimos; uma história que surgiu e feneceu sem que ninguém tomasse notas. E de seu pai, então? A única coisa que restou é a certeza de que houve uma história, talvez bonita, talvez triste, em cada geração. Nada mais.

     A esperança que nos resta é a de que alguém, ou alguma coisa, esteja observando todos os eventos e nossas relações. E nunca se esquecendo. Só assim poderemos viver e morrer tranquilos, certos de que seremos lembrados, de que valeram alguma coisa os esforços que empreendemos, de que todas as alegrias que vivemos continuarão sendo alegres.

     Digo isso por mim, mas devo não ser o único.

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