Era o décimo segundo andar. A refeição não fora das melhores, mas havia batata em bolinhas verdadeira e inesperadamente esféricas, e um bife acebolado um pouco menos duro que o normal. Sentei-me e ouvi Melissa's Garden, e ia começar a ouvir Generator – esta música vem me trazendo boas lembranças (de uma época em que não a conhecia, entretanto) – quando fui convidado a tomar lugar a uma mesa próxima, com alguns colegas. Instantes antes, de soslaio, vi quem viria me convidar se aproximando e, como seu trajeto parecia ter não outro destino que não a mim, parei a música um momento antes do cutucar em meu ombro.
Aceitei o convite, embora, além de não apenas querer ouvir a música, também pretendia sair sorrateiramente e procurar o canto menos movimentado de todo aquele prédio para ler assim que terminasse a refeição.
O que, se eu fosse supersticioso, seria árdua tarefa. Todos os seis andares de loja – a parte acessível para clientes – eram inadequados; sempre haveria alguém para passar pelo canto mais isolado, pelo sofá mais esfarrapado que eu escolhesse para ou perguntar onde ficava o banheiro de clientes, ou onde estava o gerente, ou se sentar para conversar. Havia a sala de almoxarifado do meu setor, mas era tão movimentada quanto a loja, e ainda pior: qualquer um que entrasse certamente diria alguma coisa, por mais que eu me esforçasse em parecer absorto enquanto leio e ouço música sentado a um canto, de forma a deixar visíveis os fios dos fones de ouvido e meu olhar concentrado e indesviável. Pior ainda era a sala de "leitura" do décimo primeiro, na qual conversavam aos brados os que lá dentro se sentavam para repousar. Enfim, sobravam-me os seguintes: o Shopping Light – mas encontrar um banco agradável levava tanto tempo que consumia quase todo o restante do horário de almoço –; as escadas de incêndio do lado dos elevadores – mas, a menos que ficasse circunvagando pelos degraus, as luzes automáticas se apagariam rapidamente, e não havia janelas –; as escadas de incêndio do outro lado – mas, embora houvesse janelas por lá para iluminar, era um lugar de grande movimento, com funcionários subindo e descendo andares correndo –; havia as escadas de incêndio paralelas a essas, acessíveis por portas laterais em cada andar – e, embora eu costumasse andar por ali com tranquilidade, por mais que digam que são assombradas, possuem o mesmo problema das escadas do outro lado da loja: não têm janelas. Por fim, há uma sucessão de escadas deste último lado que vão até o décimo quarto andar; e até lá, sim, ninguém vai. Pois o décimo terceiro encerra um estoque de produtos fora de linha e defeituosos, sendo visitado apenas em raras ocasiões. E o décimo quarto... bem, os elevadores só vão até o de baixo, portanto, nem se menciona a existência daquele.
Passei minutos a mais que o planejado, sem música ou leitura, em confabulações conspirativas à mesa com meus colegas. Por fim os deixei, pois terminara antes minha refeição. Decidido a dedicar os dez últimos minutos de meu intervalo a Stephen King, pedi licença e me esgueirei para fora do refeitório e em direção ao décimo quarto andar. Cansando um pouco os joelhos por sempre subir num ímpeto pulante, alcancei o final daquelas escadas, onde poucos haviam pisado. Lá, encontrei um deleite: um acesso ao terraço. Só que minha felicidade não era completa, pois ainda que avistasse o horizonte cheio de picos das torres da cidade através de um portão enferrujado de barras de ferro, este se encontrava trancado – e, embora o cadeado se encontrasse em péssimo estado, embora fosse fácil o quebrar e sair dali para o terraço e estar acima de toda aquela cidade, eu não o faria. Não, ainda não; por mais um triz, talvez. Contentei-me, agora esquecido do livro que carregava, em olhar por através da grade do portão o céu de nuvens curtas e frágeis que se apresentava sobre grandes hotéis e edifícios comerciais; e toda aquela cena, de onde eu a via, naquele silêncio – só quebrado pelo ruído turbulento, mas distante, quase obliterado, da casa de máquinas dos elevadores, que operava nas proximidades –, fazia-me sentir como se fosse o último dos homens dali, último sobrevivente de uma cidade devastada e sem vida, à exceção de pássaros que sobrevoavam ao acaso e chilreavam nos ermos.
O tempo que passei contemplando aquela paisagem não se podia contar por quaisquer meios ou símbolos; e como que sonhei, pego numa quimera, que estivesse mesmo no auge da exaustão de toda uma outra vida; e senti todo o seu peso, todo o tédio pós-apocalíptico de ser o eterno observador solitário de uma paisagem esplendorosa e, ao mesmo tempo, sombria. Não soube, e talvez queira mesmo ainda não saber, qual vida preferir. Não sei se me prefiro imaginando mundos paralelos de tragédias mil ou se seria melhor narrando o ocaso da civilização em primeira mão.
Com pesar, forcei-me para fora daquele transe sublime. A hora de passar o crachá urgia. Com um leve espanto, constatei que, se estivesse mesmo na vida que imaginara há pouco, assim que me voltasse da vista através da grade para as escadas, percebendo quão sombrio era aquele lugar, teria descido alguns lances aos pulos – fugindo de fantasmas nos quais talvez tivesse passado a acreditar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário