domingo, 28 de setembro de 2014

Cansaço

Não consigo dormir.

São oito horas e meia de trabalho por dia, mais uma de viagem de ida e uma e pouco de viagem de volta, mais oito horas de sono ou tentativa de dormir todos os dias, e dessas últimas, só metade me servem ao descanso; a outra metade é de preoucupação e insônia com os problemas do trabalho e do sono, de ouvir a conversa dos vizinhos de cima por através do forro de parede-papelão, e de planejamento para tentar aproveitar as cinco ou quatro horas que sobram de cada dia para qualquer tipo de lazer, dos quais se deduzem pelo menos duas ou três para necessidades fisiológicas.

Uma hora para ler um livro ou para olhar para o teto.

A mente cansada prefere o teto.

Leio qualquer coisa durante o percurso casa-trabalho e vice-versa. Nenhum livro acaba, nenhuma história flui bem, esqueço detalhes da página anterior porque precisei descer na estação Ana Rosa para fazer a baldeação.

Já ouvi todas as músicas, e não dá nem para pegar uma nova na internet porque tenho preguiça e não sei mais como driblar os direitos autorais e o Windows tão eficaz em reiniciar meu computador quando quiser para fazer atualizações automáticas.

Antes eu não me importava com o tempo perdido e nas Casas Bahia trabalhava com o afinco que somente um auxiliar de escritório obstinado recebendo um salário mínimo e motivado pela ideia de que o trabalho enobrece o homem poderia ter. Já hoje eu trabalho de mal-humor e não me predisponho a nada, não passo meu crachá um só segundo antes do horário e nem um único segundo depois, quero ir embora correndo... sinto corpo e mente estuprados diariamente com um trabalho estúpido e repetitivo.

Tenho muito é ódio.

Tenho só 25 anos e não consigo acreditar que já tenho problemas nas articulações e na coluna, um torcicolo sem fim e a sensação de que as dores que sinto são resultado de falta de tempo para prestar atenção em minha própria saúde e para praticar qualquer atividade física que me tire do maldito sedentarismo que não é resultado de uma inata falta de motivação pessoal, mas de um esmigalhamento cerebral destruidor que só me permite sentir-me cansado. Queria sentir meu corpo forte e capaz, minha mente astuta e serena... não são todos que conseguem superar o cansaço psicológico da rotina de trabalho. Sou dos que não têm conseguido.

Ainda que eu tenha tentado despender algum esforço para voltar a escrever - sacrificando quatro horas das oito de sono - e assim pelo menos me salvar um pouquinho por dia do óbito a longo prazo, só de pensar no tempo que eu gostaria de ter para me dedicar a escrever, nos contos que comecei, mesmo nos contos mais simples que comecei aqui mesmo num blog, me desanimo... não terei tempo para tudo, somente um pouco mais, talvez, numa aposentadoria miserável quando meu corpo e mente não tiverem mais o mesmo vigor. Isso se a aposentadoria vier, isso se for possível me sustentar com ela e não tiver que trabalhar ainda mais, isso se alguma crise econômica não me confiscar a casa e a poupança e o coração. Até quando vou acumular tanto ódio? Talvez eu mate algum ricaço só pelo ódio guardado, porque afinal de contas sou só uma pessoa que sente e sofre e que quer alguma vingança barata e sanguinária por tanta dor, minha e tantas outras.

As folgas são para arrumar a casa e as férias são para resolver os problemas e o sono acumulados do ano.

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