segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Silogismo aristotélico

     Segundo Aristóteles,

     Todo homem é mortal;
     Sócrates é homem;
     Portanto, Sócrates é mortal.

     Premissas verdadeiras, conclusão verdadeira. Agora, vê a diferença que um artigo definido faz:

     Todo o homem é mortal;
     Sócrates é homem;
     Portanto, Sócrates é mortal.

     Ainda estão corretas, as premissas?
     Pensa: cada homem é mortal. Que significa mortal?
     - Ora, aquilo que morrerá, um dia. Ou, aquilo que causa morte; mas esta acepção não convém ao caso.
     Sim. E o que morre em nós? Morrem as células, os tecidos, os sistemas. Morre o corpo, morrem os sentidos.

     Todo o homem é mortal;
     Sócrates é homem;
     Portanto, Sócrates é mortal.

     Sim, as premissas ainda parecem corretas. Mas eu não dissera sobre uma diferença – substancial, pela forma como anunciei – nascida da inclusão de um mero artigo?

     Todo o homem é mortal.

     O homem é mortal por completo?
     - É.
     Morre o corpo, morre a mente, morre tudo. Alma e espírito, morrem? Até onde sabemos, não há resposta. Nem uma perfeita definição científica desses termos. De qualquer forma, não temos mais contato com essências etéreas que deixam seus corpos, após sua morte – não um contato cientificamente comprovado, pelo menos.

     Sócrates é homem.

     Sócrates morreu. Sócrates foi, e não mais é, homem. Sócrates foi um filósofo de renome, e sua contribuição foi no mínimo imensa para a Filosofia e para a humanidade – ou não se demarcaria a história e o estudo daquela em, dentre as segregações uma das principais, "pré-socrática", que diz sobre os que vieram antes.

     Portanto, Sócrates é mortal.

     Não há sequer resquícios de sua carne, e os farelos de seus ossos já se integraram à terra, à água e ao ar, de modo que não há mais algo vivo, uno, a que possamos chamar Sócrates. Talvez pudéssemos dizer que há partículas de Sócrates por todo o globo, após milênios de sua morte, considerando o destino delas que se cogitou logo há três linhas. Entretanto, não é uma molécula de Sócrates em cada canto do mundo que faz daqui um lugar mais interessante.
     Mas se Sócrates morreu, porque ainda parece que nos diz suas ideias e teorias através dos séculos? Tudo que Sócrates teorizou foi repassado por gerações, chegando, embora não incólume, a nós hoje. Mas é apenas Sócrates quem tem o que dizer há milênios? Não; num só dia ouvimos dizer muito de vários que já deixaram o mundo. De vários mortais que já não existem. Ainda faz sentido dizer "todo o homem é mortal" quando a inteligência coletiva da civilização humana é fundamentada e modelada com sabedoria há tanto tempo nascida, misturada à sabedoria dos homens ilustres de hoje e dos que ainda virão, e assim para sempre? Sócrates está mesmo morto?

     Algo abstrato em cada homem é imortal;
     Sócrates é homem;
     Há algo abstrato, que todo homem tem, imortal em Sócrates;
     Se há algo abstrato imortal num todo, o todo não físico é imortal;
     Portanto, Sócrates é, em parte, imortal.

     O que se escreveu é óbvio. Mas não é possível ser simples para escrever isso com esse jogo de premissas. Talvez, de outra forma:

     O conhecimento de cada homem, se este o difunde, é imortal;
     Difundir o conhecimento torna homens imortais;
     Sócrates é homem;
     Sócrates difundiu conhecimento;
     Portanto, Sócrates é imortal.

     A lógica nos forçaria a sermos mais precisos, o que não é possível com poucas explicações. A penúltima remessa de premissas é mais precisa, mas mais confusa, que a última. Contudo, sabe-se bem que homens vivem por séculos. Inconscientemente, todos aspiram por esse tipo de imortalidade.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Gealt

     “Você”

     Horst sentiu as palavras mais do que ouviu. Pareciam estar entrando em sua cabeça sem passar pelos ouvidos. Era a voz de Gealt, mas Horst não conseguia identificar seu rosto para ver seus lábios moldando as palavras. Tudo o que via era um céu sem estrelas se erguer distorcido por cima do monstro que olhava para baixo, em sua direção. Era um vulto negro, uma sombra sólida flamejante, seus olhos ardiam em chamas que de tão intensas pareciam vir do próprio inferno.

     “É a sua vez de cair no abismo”








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Velhos projetos.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Perfeitas imperfeições

     "- O ser humano está sujeito a contradições e incoerências."

     - Enquanto quisermos continuar humanos, sim. Graças a Deus, ou seja lá qual for a força motriz deste mundo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

     Fritei batatas para o chefe.

     - Excelentes batatas, Felipe.
     - Obrigado, Sr. Francisco.
     - Assine aqui sua demissão, por favor. E saia de minha sala sem demora.
     Mais um começou. Como ela reagirá, desta vez? É a mesma história de antes. Same old story, same old song and dance.

     Pretendo ser mais frio e esquivo. Alguém não vai se dar bem com isto. Provavelmente serei eu. Que se há de fazer?


- é, agrada-me escrever sem aparente nexo. É uma porção de pensamento já na metade do caminho transcrito. Não vale muito. E ela provavelmente mal vai deduzir que trato dela nesta abordagem.

sábado, 15 de janeiro de 2011

     Queria encontrá-la uma vez mais. Sei que não me negaria a mão. Que, por mais que não goste, não negaria se molhar na chuva comigo. Eu voltaria para me despedir outra vez, ela estaria me aguardando, pois sabe que sempre volto. Não entrava antes de me esperar voltar três vezes para dizer um novo adeus.

     Ela tinha bons lugares a ir, e se não tivesse, qualquer um seria bom apenas por estar com ela. Não é daquelas pessoas que infunde indecisão por ser timorata. Não, não; jamais fora de muitos "talvez".

     Sinto falta de montar guarda em frente à sua casa para surpreendê-la no ponto de ônibus. De receber seu convite para sair e cancelar quaisquer compromissos com seja lá quem fosse. Eu repetiria esse ato e perderia mil amigos e possibilidades só para atender-lhe o desejo novamente.

     Eu ouviria seu lamento outra vez. E iria prontamente ao seu encontro, e sem dúvida olharia em seus olhos o quanto pudesse - para sempre, se a fome e o cansaço não açoitasse, outrossim, o corpo dos que se perdem a vislumbrar o amor -, e tomaria sua compleição longilínea num largo e envolvente amplexo; não sobraria espaço que nos equilibrasse, e tombaríamos se nenhum dos dois ao menos tentasse, com os cotovelos ou ombros, se escorar em alguma parede para evitar a queda - sem que o outro percebesse esse cuidado, para que não desviasse a atenção do abraço para o fato de que caíam.

     Eu aceitaria seus desvarios e excentricidades só para que me abraçasse cada vez mais forte.

     Se eu pudesse brigar com ela mais uma vez, se eu pudesse correr atrás dela mais uma vez, se eu pudesse ser perseguido por ela mais uma vez, se eu pudesse tomar um sorvete com ela mais uma vez, se eu pudesse pisar a grama com ela mais uma vez, se eu pudesse estar ao lado dela mais uma vez, respirando o ar da mesma paisagem, aspirando pelo brilho do mesmo luar, expirando o suspiro pela mesma intenção, ah!, se eu pudesse, não perderia meu tempo escrevendo sobre coisas que não posso.

     Sorria-me novamente, deixe-me trançar teus cabelos novamente, permita-me que te faça cócegas na barriga novamente, diga-me: "Que há? Não me darás o braço para caminharmos? Vem, há uma bela árvore pela sombra da qual poderemos sentar; durante esta época, caem-lhe as folhas, e se ficarmos um bom tempo sem nos mexermos sob seus galhos, ao final estaremos recobertos por um véu de outono. Vem! Espero que tenhamos a sorte de este ser um dia em que muitas folhas despenquem!".





     Não sei mais.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tchau, C

     Vou andando e dando tchau à C, por vários lugares, despedindo-me, em verdade, tanto destes quanto dela. A propósito, obrigado, N, pelo recurso de discrição.
     Tornou-se hábito. Hoje, estava eu lá na L e, reconhecendo uma banca de jornal comum à nossa atenção outrora, num ímpeto saltou de mim uma despedida. "Tchau, C". Não que fosse a última vez que eu veria tal banca; foi mais como despedir-me de um tempo antigo que ficara estagnado lá nos arredores.
     A banca de jornal. Nem me lembrava dela. Tchau, C.
     Há a agência de banco e a esfiharia. Tchau, C. O banco de pedra ao lado das escadarias. Tchau, C.
     E, mais aqui para perto, ontem divisei um outro banquinho de pedra - que, melhor dizendo, é apenas o abrigo do hidrômetro de uma pizzaria. Houve um evento melancólico envolvendo aquele recanto da calçada, ou algo similar. Lembro-me de alguma troça sobre os vários esperadores de ônibus que insolitamente se abarrotavam pelo ponto ali próximo. Tchau, C.
     Vou andando e dando tchau à C, aos lugares e ao tempo. Reminiscências por todos os lados.
     Tchau, C.