sábado, 12 de abril de 2014

Do eu ao nós

Hoje acabam as dúvidas e, principalmente, os receios.
Apesar de toda a racionalidade e capacidade de ponderar a que tento me apegar a cada momento da vida, hoje o que impulsionou minha decisão foi um chute do meu lado emocional, lado que achei ter domado. Fez bem em me chutar; a opressão do capital se infiltra em cada esfera da vida, e eu havia domado meu coração há tempos sob o açoite da pura razão.
Não são de hoje as considerações que permeiam minha mente e que gradualmente cresceram e se fortaleceram. Mas elas estiveram se desenvolvendo em um eu que, há algum tempo, contudo, não era mais capaz de comportá-las; era necessário transformar-me para conseguir abraçá-las plenamente, agora que lutavam com toda a força para se libertarem.
Eis que estou finalmente revolucionado. O caminho agora é através de um desenvolvimento do qual meu eu anterior era incapaz por conta de todas as contradições em que me afundava.
Agora tenho uma visão mais clara das coisas que já rondavam meus pensamentos desde antes, assuntos que já havia estudado e digerido, mas que enfim têm vida, enfim não são mais vagas pretenções para algum futuro desconhecido, intangível.
Posso, então, abraçar plenamente a construção da revolução exterior. Sei bem seu nome, agora. Sei milhares de outros nomes seus, desconheço infinitos outros. Conheço suas feições. Finalmente eu te encontrei, tocando-me ao mesmo tempo por dentro e por fora.
A partir de hoje, eu deixei de ser somente eu mesmo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sobre o destino das memórias de todas as vidas

Tenho vontade de transformar cada objeto em relíquia de nosso amor, e mesmo esta correntinha, que você sempre me corrige dizendo "cordãozinho!", já penso em guardar para não perder na rua algum dia; com seu shortinho quero envolver um saquinho de sabonete de lembrancinha de casamento e deixar sempre no armário; penso em roubar seu brinco sem par feito de continhas em dois cordões e colocar na cabeceira da cama e vê-lo antes de ir e depois de vir dos sonhos; as páginas de sua agenda em que você escreveu amores por mim em cada linha, emoldurá-las; pendurar voador o tsuru feito com folha de rascunho de escritório no teto; ah, tantas preciosidades...
E mais, e que é maior: cada instante que vivi com você, e especialmente aqueles em que estivemos a sós, sendo nossas próprias e únicas testemunhas, recortes de tempo desconhecidos por todos e tudo; queria tê-los ali, todos esses momentos ao alcance de um toque no controle de vídeo, numa memória externa inescapável, menos corruptível que minha própria memória, tão humana e falha que já não lembro alguns detalhes incríveis destes últimos meses.
Então eu queria outra vida: esta para viver loucamente com você, outra para relembrar todas as coisas, parando e voltando e vendo alguns momentos mais devagar; então agora queria outras vidas sem conta para viver loucamente tudo de novo, e relembrar, e viver, e lembrar, e reviver, até minha consciência, tão expandida em lembranças e sentimentos de vidas mil, se romper, explodir e se abrir na plenitude da luz de todas as estrelas.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A morada dos imensos anseios

     Duas mil e quinhentas silenciosas e intermináveis explosões distantes não valem a beleza do brilho que, refletindo a mais tênue linha de luz fraca de uma lâmpada velha de um poste torto à noite, corisca singelo no fundo das pupilas dos olhos preguiçosos de Juliana; pois é ali, precisamente ali, nos portões negros da fortaleza rubra inabalável, que tudo renasce escarlate e furioso e maldito ou encontra dura morte sob o fragor de infinitos brados por liberdade.

domingo, 22 de dezembro de 2013

     Os pontos de ônibus novos foram colocados por toda a cidade de São Paulo, pois antes não havia lugar para as propagandas, nos pontos antigos; só havia lugar para as pessoas, ainda que pouco. Algo estava errado.

     Estes novos pontos são feitos de blocos inteiros de capitalismo.

domingo, 27 de outubro de 2013

Arquivamento

     Percebo agora que, ao escrever aquelas palavras em linhas tortas e mal planejadas, eu estava vivendo numa analogia aquela troca de olhares de quase dez anos atrás. Se naquele dia distante no parque olhei, desta vez escrevi; se daquela vez me comprometi, desta vez me libertei de compromissos; se daquela vez me agrilhoei num desejo possessivo e obcecado, desta vez passei a amar sereno. Portanto imagino que tudo aquilo chegou verdadeiramente ao fim, toda aquela sensação de decepção e de derrota percebo-os agora como mentiras em que me obriguei a acreditar. Não repudio a essência dos sentimentos que nasceram e cresceram, mas sim a maneira destrutiva com que tudo se deu.
     O marco de agora é isento de obrigações. Ao tecer cada letra eu destecia o manto de dores e orgulho ferido que eu insistia em carregar. O tecido desfiado caiu ao chão e eu o pisei sem pensar, as máculas destes anos eu deixei de lado sem muitas ponderações. Ao deixá-lo para trás, afinal, contemplei um futuro sem nomes brilhando, nos quais eu antes grudava ainda mais brilhos, um futuro sem obrigações estabelecidas pela tradição, e nenhuma obrigação de fato, um futuro sem fetiches nem tabus.

sábado, 7 de setembro de 2013

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agrafia agrafia desespero
deixa eu jogar umas palavras no meio pra parecer que elaborei este texto pensando nessas minúcias que eu nunca entendi na arte
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incompreensão

Um episódio - parte 2

Parece-me restar apenas a espera pela morte certa.
Já estou há dois dias encurralado contra o muro e a caçamba de lixo. O problema maior agora é a febre por causa da perna ferida.
O primeiro dia passou sem problemas. Mal deram atenção a este beco, que continuaria a passar despercebido se eu não precisasse ter matado hoje cedo um curioso que chegou perto demais. Ele havia vindo à viela para mijar, mas ficou cismado com o movimento que viu, perto da caçamba. Fui eu: deixei cair o cantil ao acordar sobressaltado com o barulho do sujeito. Como ele viesse devagar para ver o que estava atrás da caçamba, se um bicho ou outra coisa, ainda tive tempo de escolher a pistola que talvez fizesse menos barulho dentre as três. Não foi suficientemente silencioso o tiro, entretanto, ainda que certeiro. Logo vieram mais três soldados correndo para acudir o amigo ferido; eu os abati prontamente.
Não sei se só esses quatro foram designados a ocupar a casa ou se os restantes estão receosos de aparecer. Talvez estejam tramando alguma forma de me vencer.
Em meio à expectativa, pus-me a me lembrar dos tantos que comigo e com outros membros do grupo decidiram enfrentar o exército internacional, e como cada um deles foi morto. Os problemas maiores começaram há duas semanas, quando fomos atacados por um destacamento inimigo logo ao tentar evadir a base velha. A ideia era, obviamente, não sermos vistos, e alcançar a kombi para escaparmos em direção ao endereço onde outros grupos estavam se reunindo - informação que recebêramos criptografada pela frequência de rádio pela qual nos comunicávamos com os demais grupos - mas não contávamos com a presença daqueles soldados. Nosso grupo sofreu, então, uma grande dispersão. Patrícia foi a primeira a ser atingida; eu jamais poderia me esquecer de como seus cabelos tão enroladinhos emolduraram seu rosto quando ela caiu já morta com um tiro que deve ter-lhe explodido o coração. Metade do grupo, a minha, continuou correndo em direção à kombi; já a outra foi encurralada próxima ao corpo de Patrícia, ao qual logo se juntaram o de Emerson e de Alexandre. Emerson certa vez me disse que se havia apaixonado por mim. Já Alexandre eu mal conhecia. Raphael conseguiu desarmar um soldado e usou seu corpo como escudo; enquanto ele se defendia, Lúcia mergulhou, apanhou a arma de Patrícia e conseguiu matar um dos soldados, sendo morta logo em seguida pelo seu próximo alvo. Foi com Lúcia que, pela primeira vez sem grandes receios, fumei um cigarro, ainda adolescente, e ela fumou comigo só para eu me sentir mais seguro, embora havia uns anos ela não mais tocasse num cigarro - contou-me isso depois. Luís tentou correr mas também foi atingido, pelas costas, e fico imaginando o quanto Antônio teria sentido sua perda se soubesse. Eu e mais cinco pessoas havíamos então chegado à kombi. Raphael estrangulou o soldado que lhe servia de escudo; seus braços ficaram soltos como os de um boneco. Por alguma necessidade viril, os homens que se dispuseram a enfrentar Raphael depuseram suas armas e, encurralando-o, partiram para atacá-lo com as próprias mãos. Quem o conheceu sabia que esse ataque seria uma tolice da qual alguns não sobreviveriam para se arrepender. De fato, Raphael, ao se ver livre do perigo das armas, largou o cadáver que arrastava e, na violenta briga que se passou, provou o valor de seus quase dois metros de altura e de força bruta. Três soldados já estavam estirados quando um outro, mostrando bom senso, rastejou até uma pistola e deu tantos tiros em Raphael quantos foram necessários para que enfim ele sucumbisse. Atropelamos o atirador com a kombi logo após o último disparo; cinco segundos antes, poderíamos ter salvado Raphael. Antes que mais soldados viessem, resgatamos Rafaela, que morreu ainda na kombi de hemorragia por conta de um tiro na barriga.

Lembro-me ainda bem deles, mas o cansaço agora é forte demais; nenhum outro movimento na viela até agora, e talvez já tenha passado de meia-noite. A febre provavelmente vai piorar durante a madrugada, e não tenho comida suficiente para muitos dias, muito menos água. Tentarei ficar acordado o máximo que puder, embora ceder ao cansaço seja inevitável daqui a pouco. Só espero que eu tenha a sorte de não ser morto durante o sono. Depois de tantas coisas, gostaria pelo menos de conhecer a morte enquanto estivesse consciente.