A quantidade de postagens explicitamente politizadas ultimamente está muito maior que a média para um blog devaneador, onírico, subjetivo etc. Será necessária uma cisão, caso continue assim.
domingo, 28 de outubro de 2012
Meu receio de encontrá-la é o receio de que se aproxime minimamente da idealização, bem distante da realidade, que consolidei em meus pensamentos. Se se aproximar, corro o risco de tornar a enveredar por estradas demasiado sombrias.
Eleições municipais 2012 - São Paulo - SP
Fiz uma leve pesquisa agora, meio por cima, sobre as
votações para prefeito em São Paulo desde 2000.
Votos nulos:
2000: 4,9%
2004: 3,8%
2008: 5%
2012: 7,3% (até agora)
Votos brancos:
2000: 3,4%
2004: 1,5%
2008: 2%
2012: 4,4% (até agora)
Abstenções:
2000: 15,2%
2004: 17,5%
2008: 17%
2012: 20% (até agora)
Eleitos:
2000: Marta (PT), com 58,5%
2004: Serra (PSDB), com 54,9%
2008: Kassab (DEM), com 60%
2012: Haddad (PT), com 55,9% (até agora)
Outro dia uma usuária parou para
conversar comigo na estação e disse que prefere não ir votar e pagar multa
depois. Como se poderia definir esse tipo de protesto? Aliás, como separar os
que de fato não puderam votar com os que não quiseram? As abstenções cresceram
5% desde 2000. 20% dos habitantes de São Paulo não puderam ou não quiseram
votar. Os votos nulos também aumentaram: 2,4%. Neste ano, 7,3% de eleitores se
opõem aos dois candidatos do segundo turno. Também 4,4% votaram em branco, o
que também vejo como oposição a ambos os candidatos (corrijam-me se eu estiver
errado). Juntando tudo, mais ou menos, inclusive estimando que uma parcela das
abstenções é protesto, uns 15% da população diretamente se mostra insatisfeita
com os resultados das eleições deste ano. Acho, ainda, que alguns votaram no
Haddad apenas para que Serra não entrasse na prefeitura, mas que, não fosse por
isso, igualmente se oporiam ao Haddad. Pode ter ocorrido o inverso, também.
Bem, estas foram minhas apurações...
refletirei sobre seus possíveis significados.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Brahma e seu otimismo
Olha só o que
tive de engolir junto com a janta de hoje. Brahma critica os
"pessimistas" que reclamam do previsível caos no transporte na Copa
de 2014. Dá uma ânsia tão grande assistir a esse comercial que fica difícil até
exteriorizar minha reação. Pessimista? Só uma mente irrefletida consegue ser
otimista e achar que a "festa" vindoura do futebol que a Brahma
enaltece é de alguma forma mágica e proveitosa. Dizer que o transporte será um
caos é mera constatação. Achar que será gostoso ficar no engarrafamento só
porque estaremos em meio aos "incríveis" jogos da Copa é infantil e é
um pensamento que só é capaz de surgir de mentes turvas como a dos grandes
empresários que andam de helicóptero.
Este comercial
é um tapa na cara disfarçado de carinho. A missão de idiotização preparativa
para a Copa caminha a largos passos... há também uma propaganda da Volkswagen,
de um Gol novo, que apela ao patriotismo futebolístico típico da maior parte da
população do Brasil. Também é uma grande afronta à inteligência.
Essas empresas
pintam a miséria de verde e amarelo e mostram os sorrisos efêmeros que a emoção
de uma partida de futebol promove, mas esquecem que tais sorrisos são arremedos
de uma felicidade da qual a imensa maioria do povo não frui de verdade.
Então, não
especificamente à Brahma ou à Volkswagen, mas a todos os capitalistas malditos
que se esforçam, herculeamente, diariamente, no corforto de suas mansões, em
revolver o ideal de felicidade das pessoas e em tentar fazer da pobreza conformada
uma meta: meus sinceros desejos de que estes comerciais imbecis gerem uma
resposta contrária à esperada. Ninguém aguenta mais esse crime mental que vocês
praticam. Vocês são homicidas de primeira linha e eu até evito me aproximar da
televisão para não passar mais nervoso. Dá para ver seus olhinhos brilhando com
a expectativa do lucro em cada palavra que sai do aparelho.
Deixem os
trens e os ônibus explodirem de gente, mas deem futebol para o povo, não é?
Coloquem o Ronaldo fazendo papel de Tio Sam, vai ser legal, não é mesmo? Dá
vontade de vomitar.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
O ausente
"...aqui foi no sábado. Eles trouxeram já as
fitas e logo o Alcides vai descer comigo para colocar. Felipe, espera aí,
queria ver com você uma coisa aqui... deixa eu entrar com minha senha. Quer
ver, tava na parte de demonstrativos."
Um minuto.
"Sua matrícula, mesmo? Ah, sim, está aqui.
Beleza, deixa comigo."
"E aí, Felipe? Nem tinha te visto, hoje. Vou te
falar, hoje tá complicado. Ah, uma senhora que estava lá na área
aberta..."
Dois minutos.
"...disse que não te via faz tempo. Te chamou de
loirinho, demorei pra entender. Sabe que ontem à noite teve uma zoeira aqui,
dos arruaceiros, e deu que..."
Três minutos. Sempre nesse ritmo.
Quatro minutos, e cinco, e mais, e a soma chega a
quinze. Eu os vejo passar no relógio da barra da tela do computador. Acerto com
baixa margem de erro o momento em que os números mudam. Entreouço o que me
dizem e ouço o barulho do trem passando nas galerias abaixo, próximas. Sei que
respondo uma ou outra coisa razoavelmente coerente, mas o domínio da conversa é
sempre do outro, então não faz muita diferença minhas respostas parecerem pouco
elaboradas. Hoje eu estou em qualquer lugar, menos próximo de mim. Penso
brevemente num sorriso alheio, e sinto-me melhor.
Vou para os bloqueios. O tempo passa; calculo que
ficarei muito tempo lá sozinho, pois alguns funcionários estavam indo embora.
Tudo bem. Não quero me prender a essa gana por minutos preciosos e avidamente
angariados que fatalmente escoarão, inúteis, junto ao fluxo de tédio nascido da
abstinência mental de corpos puídos amontoados em bancos duros de um vestiário
quente de um corredor infindável de salas monótonas e bicolores de uma estação
de metrô.
Uma hora. Duas. Três. Quantas forem. Não me importo.
Até gosto; é um tempo longo, e torna fácil pensar um pouco sobre ela.
A calça é da cor dos pilares, a camisa é da cor da
monotonia e da ausência. Pessoas passam para lá e para cá; sinto um enjoo de
marinheiro de primeira viagem com o movimento, pois estou balançando ao ritmo
do fluxo. Aproximo-me de um pilar e nele toco com a ponta de um dedo das mãos
cruzadas para trás, e não sei se está frio ou quente. Vou apoiando os outros
dedos, a palma de uma das mãos. Sinto que a temperatura do pilar é minha
própria. Isso me aproxima mais do concreto, como se este quisesse me abraçar. O
vento bate-me no rosto com delicadeza, mas de qualquer jeito, e vem e volta de
qualquer maneira. O barulho martelado dos tripés é caótico; mas parece haver um
constante murmurinho, levíssimo, ao fundo de todo o ambiente, soporífero,
convidativo...
Sinto-me parte da paisagem. Sou invisível para o
mundo, mas o pilar me abraça e me reconforta. Descubro que o pilar sou eu, o
murmurinho sou eu, o martelar sou eu, o vento sou eu, sou eu o mundo. Então o
celular vibra com uma mensagem e essa sensação de integração termina.
É de um número que começa com 4000. Abro e descubro
que, de tão importante que sou, um banco quer me conceder um cartão de crédito.
Sinto-me tão especial quanto uma batata.
Observo os bloqueios como se fosse provável que algo
surgisse das escadas para me salvar de minha própria implosão. Logo agora, um
barulho de conversas chamou-me a atenção e ao olhar distraidamente achei que
fosse ela; foi como um chacoalhão. Deixo tal impressão de lado sem esperar a
confirmação de que não a veria descer do último degrau.
São oito horas da noite. Meu colega chega e vou
embora, a passos arrastados. Sinto em mim um vazio como o da estação desabitada
na madrugada...
Este vazio é como se ela tivesse passado a viver fora
de mim. Ela, agora, habita o ambiente ao meu redor, não mais em mim. Portanto
eu mesmo estou algures, procurando seu toque em cada brisa, seu frescor em cada
chuvisco, sua voz em cada sussurro. Sinto-a em minhas respirações.
Mas o vazio lembra-me de minhas escolhas...
Não encontro ninguém no caminho até o vestiário, nem
quando vou embora. É melhor assim. Embarco no trem. Vou a um lugar especifico,
agora.
Amanhã volto a algures, como todos os dias.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Inventário
Primeiro foi J, num passado de memórias entrecortadas
e vagos sorrisos alvíssimos pulando nos cantos da mente. Depois, D., quando
comecei a me aventurar mais. C., que entrelaça todas as histórias. L. distante;
D'., ainda mais distante. N., enigma ainda hoje. B. passou tão rapidamente que
acho que nem deveria ter menção. Quase não me lembrava. Talvez não deva ter
menção, de fato. Então por que não excluí esta parte de B.? Parece óbvio.
Enfim, surgiu C'., nos momentos de euforia e iniciando minhas histórias de
encontros aleatórios. D''. fez-me espantar com tais encontros; eles começaram a
se repetir. Então S., sem nem esperar um pouquinho, promove mais uma vez um
encontro intrigante na minha vida estranha.
Misturam-se todos, sem parar; remetem-me sempre a C.,
em fracassadas sobreposições. Mas C. está quase ruindo. Acho, aliás, que já
houve a ruptura que sempre desejei.
Quero agora ser livre. Não quero mais abreviações.
Que será que são as abreviações? Acho que nunca as
desvelarei.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Se ontem eu tivesse morrido, pensei, o pior seria nunca a ter beijado.
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