sexta-feira, 1 de junho de 2018

Um ano sem falar de vocês

Minto. Faltam 5 ou 6 dias pra completar um ano. Descobri recentemente que sinto falta disso. Esse sempre foi meu principal exercício artístico. É curioso como, sem perceber, fui adequando cada tipo de necessidade a um veículo diferente: os cadernos sempre favoreceram as ficções; os blogs, abstrações cotidianas, desabafos, relatos; e agora o instagram veio ser um exercício criativo espontâneo que muito tem me ajudado a voltar a pensar artisticamente. Depois que comecei a me envolver politicamente com o mundo, minha principal barreira ao ato de escrever foi minha forma elitizada, academicista, consolidada há anos na forja das minhas presunções, da minha militância juvenil ateísta arrogante, do meu orgulho gramatical normativo, do meu prestigismo literário etc. E vejam só, mesmo lutando muito contra isso, ainda escrevo com um pezinho no que eu sempre fui. Não sei mais se estou mesmo sendo ainda muito elitista ou se este é o mínimo necessário de brisa poética dificultosa pra essa minha necessidade de falar de vocês sem revelar nada além de talvezes duvidosos.

Ah, sim. Eu comecei esse texto com intenção de falar sobre vocês.

Na verdade a maior parte de vocês acho que veio depois da última postagem, de quase um ano atrás. Mas uma parte, claro, vem de antes. Bom, como falar? Se eu ainda lembrasse como falar em grego, talvez fosse melhor, já que a principal ideia do meu jeito de escrever aqui é revelar sem revelar. Posso dizer que vi olhinhos antigos como eu não havia visto antes; também que outros olhinhos novos vi com gosto e desgosto alternados; outros olhinhos que achei que nem veria mais voltaram; e teve uns olhinhos puxados que quase me matam de tristeza de tanto mistério e afastamento - aliás, são dois pares de olhinhos puxados, mas um deles eu não posso dizer que revi mesmo.

Que horrível, não? Ou eu não sei mais não-dizer igual antes ou tenho bem mais receio. Nada que não melhore com algum treino, acho...

Olhinhos, eu gosto muito de todos vocês. Eu só sou péssimo pra dizer isso. Olha quantas voltas. Quem sabe daqui uns dias eu não melhoro. Afinal faz quase um ano. E eu nem sei mais o que tô falando. Tô com muito sono.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Quem tem por hábito escrever, desenhar, se expressar artisticamente, enfraquece o demônio que aperta o coração nas horas solitárias, durante a fragilidade da depressão. Como eu não tenho esse hábito, hoje chorei engasgado, tive calafrios, não consegui dormir, e agora estou com medo e assustado.

sábado, 25 de março de 2017

Tudo volta ao ponto em que a vida e a memória se anulam

Sentado outra vez atrás da mesa de negociações, José não vê mais a hora antes do almoço de minuto em minuto; não tem mais importância. Nem muito mais o que o cliente lhe diz, ou quem o empurra quando está parado no meio de tanta gente passando. Ele lembra de coisas vagas, de memórias de dias atrás que já parecem cenas de filmes antigos em VHS, chuviscadas, o som distante. Estava entrando numa cozinha de teto baixo numa casa pequena, alguém lavando louça enquanto ele varria o chão. Agora ele estava chegando numa construção antiga, para esperar algumas horas antes do fim do expediente daqueles funcionários, com quem fez alguma amizade por conta de uma das pessoas que trabalhava lá. Agora já era madrugada e eles passeavam com certa apreensão entre prédios do campus, parando com alguma frequência para olhar as árvores. Agora eles estavam subindo numa árvore. Agora tudo brilhava na cidade litorânea à noite, do ponto mais alto da roda-gigante. E o mar aquela noite estava tão calmo quanto seus corações e seus olhares, como na vez em que viram as nuvens passarem detrás do relógio imenso, como quando se encontravam de manhã, sonolentos, antes das aulas...

José não existe mais.

Por que eu gastaria meu tempo explicando?

Sexta-feira
Dia em que todos vão estar ocupadíssimos
E você que ficou em casa fica sem nem saber se está sendo ignorado porque a pessoa nem quer saber de você ou se porque não existe nem tempo para olhar para o celular (onde estamos sempre olhando) para saber se você está vivo ou não
Até pouco tempo atrás era questão primária você chegar em casa às 23h15 da sexta-feira, pois você estava bêbado como há muito não ficava. Mas agora não é tão importante assim saber disso...
Você só está em casa sozinho enquanto todos estão em qualquer lugar extremamente satisfatório, onde cada um se sente bem, cada um encontra um lugarzinho que lhe dá algo de pouco ou de muito para sobreviver mais um dia, e na verdade todos vocês estão certos, é difícil, e sobreviver só mais um dia, só mais um pouquinho, é muitas vezes questão vital.

Mas quando você está na sua casa e não existe nada além desta página em branco para escrever, nenhum movimento em sua direção, nenhum dispêndio de energia a seu favor enquanto há um mundo de mini-alegrias ali fora, dentro da sexta-feira; enfim, neste exato momento, existe um gatilho de morte tão pequeno e tão infinito na sua mente que agora sim você entende como um buraco negro pode conter tanta matéria num ponto tão minúsculo. Agora sim você entende aquele momento tão breve em que as dores nascem já como uma árvore antiga e deformada, é apenas um segundo de vida e já algo tão horrível que se mostra... e as raízes já estão em todo lugar, não há mais o que fazer...

Nesta sexta-feira em que o mundo está tão ocupado, você perde um pouquinho mais disso que chamam de vida e ninguém vê, mas depois todos te perguntam "ué, Felipe, quando foi que você ficou assim tão triste?"

E eu queria responder "naquela sexta-feira em que eu tinha tanta dor e tanto a dizer mas todos tinham tanta alegria e tanta coisa a fazer que eram como dois universos, eu e os outros, e não há mesmo nada a explicar, as coisas pertencem a mundos diferentes. É como ter que explicar desde o princípio o que são coisas como o ar, a terra, o tato, a visão, coisas tão óbvias que não tem nem como saber por onde começar... Por que eu gastaria meu tempo explicando?"

quinta-feira, 23 de março de 2017

Quando ela me beijou pela primeira vez

Quando ela me beijou pela primeira vez, eu já sabia que ela amava mais de uma pessoa... eu já sabia que ela beijaria cem bocas... eu já sabia, mas a maré do mar da minha abstração interior ainda era baixa; eu não tinha nada, só o germe das dores que eu cultivei e espalhei, mas ela, ela já tinha um pé em outro mundo... e aquele brilho que eu achei que era do poste refletido nos olhos dela era, na verdade, o sol que só ela conhecia, brilhando no futuro... eu ainda não conhecia o café que eu iria lhe preparar em inúmeras manhãs, nem a musiquinha que ela cantava com voz tão linda no chuveiro, nem a palminha que ela bate quando está toda feliz e rodopios... eu não tinha nada, e ela tinha tanto... e eu ainda não sabia o gosto que as lágrimas dela teriam... e às vezes me dói tanto quando eu não sinto que na verdade ainda há tempo e tudo e tanto e vida e sorriso... e um abraço apertado apertado apertado, quente e forte, que carrega qualquer muro...

quarta-feira, 22 de março de 2017

Outra vez, mas você é meu alguém

Você indo, eu voltando... através da plataforma, te vejo no outro trem, um instante antes de sumir da vista no movimento que te leva embora. E eu não sei se você me viu ou não. Queria tanto que tivesse me visto...

O trem que me leva pra longe de você é cruel. Poderia descer na estação seguinte, mas sei que nunca vou te alcançar, e sempre chegarei tarde demais para saber em qual estação voce desceu.

De que me adianta olhar para todos os trens à sua procura, agora? Seria como te procurar olhando para a multidão que passa na frente do Teatro Municipal, ou na 25 de Março no dia das mães. Improvável te rever. E insano; pode ser que no momento em que eu descansar os olhos você passe e eu não veja. É melhor não fazer nada disso e contar com a sorte de novo...

Mesmo assim agora eu sempre observo as pessoas no trem oposto.

Solo

Descaracterizado, estou onde se veste de preto e se grita pra rasgar a garganta. Aqui se fala do abstrato, mas o que eu tenho são as botas do trabalho no pé e três vidas de dor no coração. A conversa daqui é igual a de acadêmicos: elitista, prestigista, velha e saudosista, presunçosa. Discurso conservador em roupa rebelde. Gente que poderia ser jovem no início do século retrasado, e nem lá direito.