quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A morada dos imensos anseios

     Duas mil e quinhentas silenciosas e intermináveis explosões distantes não valem a beleza do brilho que, refletindo a mais tênue linha de luz fraca de uma lâmpada velha de um poste torto à noite, corisca singelo no fundo das pupilas dos olhos preguiçosos de Juliana; pois é ali, precisamente ali, nos portões negros da fortaleza rubra inabalável, que tudo renasce escarlate e furioso e maldito ou encontra dura morte sob o fragor de infinitos brados por liberdade.

domingo, 22 de dezembro de 2013

     Os pontos de ônibus novos foram colocados por toda a cidade de São Paulo, pois antes não havia lugar para as propagandas, nos pontos antigos; só havia lugar para as pessoas, ainda que pouco. Algo estava errado.

     Estes novos pontos são feitos de blocos inteiros de capitalismo.

domingo, 27 de outubro de 2013

Arquivamento

     Percebo agora que, ao escrever aquelas palavras em linhas tortas e mal planejadas, eu estava vivendo numa analogia aquela troca de olhares de quase dez anos atrás. Se naquele dia distante no parque olhei, desta vez escrevi; se daquela vez me comprometi, desta vez me libertei de compromissos; se daquela vez me agrilhoei num desejo possessivo e obcecado, desta vez passei a amar sereno. Portanto imagino que tudo aquilo chegou verdadeiramente ao fim, toda aquela sensação de decepção e de derrota percebo-os agora como mentiras em que me obriguei a acreditar. Não repudio a essência dos sentimentos que nasceram e cresceram, mas sim a maneira destrutiva com que tudo se deu.
     O marco de agora é isento de obrigações. Ao tecer cada letra eu destecia o manto de dores e orgulho ferido que eu insistia em carregar. O tecido desfiado caiu ao chão e eu o pisei sem pensar, as máculas destes anos eu deixei de lado sem muitas ponderações. Ao deixá-lo para trás, afinal, contemplei um futuro sem nomes brilhando, nos quais eu antes grudava ainda mais brilhos, um futuro sem obrigações estabelecidas pela tradição, e nenhuma obrigação de fato, um futuro sem fetiches nem tabus.

sábado, 7 de setembro de 2013

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agrafia agrafia desespero
deixa eu jogar umas palavras no meio pra parecer que elaborei este texto pensando nessas minúcias que eu nunca entendi na arte
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agrafia agrafia agrafia agrafia agrafia sentimento de falência intelectual agrafia agrafia agrafia agrafia
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incompreensão

Um episódio - parte 2

Parece-me restar apenas a espera pela morte certa.
Já estou há dois dias encurralado contra o muro e a caçamba de lixo. O problema maior agora é a febre por causa da perna ferida.
O primeiro dia passou sem problemas. Mal deram atenção a este beco, que continuaria a passar despercebido se eu não precisasse ter matado hoje cedo um curioso que chegou perto demais. Ele havia vindo à viela para mijar, mas ficou cismado com o movimento que viu, perto da caçamba. Fui eu: deixei cair o cantil ao acordar sobressaltado com o barulho do sujeito. Como ele viesse devagar para ver o que estava atrás da caçamba, se um bicho ou outra coisa, ainda tive tempo de escolher a pistola que talvez fizesse menos barulho dentre as três. Não foi suficientemente silencioso o tiro, entretanto, ainda que certeiro. Logo vieram mais três soldados correndo para acudir o amigo ferido; eu os abati prontamente.
Não sei se só esses quatro foram designados a ocupar a casa ou se os restantes estão receosos de aparecer. Talvez estejam tramando alguma forma de me vencer.
Em meio à expectativa, pus-me a me lembrar dos tantos que comigo e com outros membros do grupo decidiram enfrentar o exército internacional, e como cada um deles foi morto. Os problemas maiores começaram há duas semanas, quando fomos atacados por um destacamento inimigo logo ao tentar evadir a base velha. A ideia era, obviamente, não sermos vistos, e alcançar a kombi para escaparmos em direção ao endereço onde outros grupos estavam se reunindo - informação que recebêramos criptografada pela frequência de rádio pela qual nos comunicávamos com os demais grupos - mas não contávamos com a presença daqueles soldados. Nosso grupo sofreu, então, uma grande dispersão. Patrícia foi a primeira a ser atingida; eu jamais poderia me esquecer de como seus cabelos tão enroladinhos emolduraram seu rosto quando ela caiu já morta com um tiro que deve ter-lhe explodido o coração. Metade do grupo, a minha, continuou correndo em direção à kombi; já a outra foi encurralada próxima ao corpo de Patrícia, ao qual logo se juntaram o de Emerson e de Alexandre. Emerson certa vez me disse que se havia apaixonado por mim. Já Alexandre eu mal conhecia. Raphael conseguiu desarmar um soldado e usou seu corpo como escudo; enquanto ele se defendia, Lúcia mergulhou, apanhou a arma de Patrícia e conseguiu matar um dos soldados, sendo morta logo em seguida pelo seu próximo alvo. Foi com Lúcia que, pela primeira vez sem grandes receios, fumei um cigarro, ainda adolescente, e ela fumou comigo só para eu me sentir mais seguro, embora havia uns anos ela não mais tocasse num cigarro - contou-me isso depois. Luís tentou correr mas também foi atingido, pelas costas, e fico imaginando o quanto Antônio teria sentido sua perda se soubesse. Eu e mais cinco pessoas havíamos então chegado à kombi. Raphael estrangulou o soldado que lhe servia de escudo; seus braços ficaram soltos como os de um boneco. Por alguma necessidade viril, os homens que se dispuseram a enfrentar Raphael depuseram suas armas e, encurralando-o, partiram para atacá-lo com as próprias mãos. Quem o conheceu sabia que esse ataque seria uma tolice da qual alguns não sobreviveriam para se arrepender. De fato, Raphael, ao se ver livre do perigo das armas, largou o cadáver que arrastava e, na violenta briga que se passou, provou o valor de seus quase dois metros de altura e de força bruta. Três soldados já estavam estirados quando um outro, mostrando bom senso, rastejou até uma pistola e deu tantos tiros em Raphael quantos foram necessários para que enfim ele sucumbisse. Atropelamos o atirador com a kombi logo após o último disparo; cinco segundos antes, poderíamos ter salvado Raphael. Antes que mais soldados viessem, resgatamos Rafaela, que morreu ainda na kombi de hemorragia por conta de um tiro na barriga.

Lembro-me ainda bem deles, mas o cansaço agora é forte demais; nenhum outro movimento na viela até agora, e talvez já tenha passado de meia-noite. A febre provavelmente vai piorar durante a madrugada, e não tenho comida suficiente para muitos dias, muito menos água. Tentarei ficar acordado o máximo que puder, embora ceder ao cansaço seja inevitável daqui a pouco. Só espero que eu tenha a sorte de não ser morto durante o sono. Depois de tantas coisas, gostaria pelo menos de conhecer a morte enquanto estivesse consciente.

Um episódio - parte 1

Há pouco, a última de meus companheiros foi morta: ela atirava, da sacada da casa onde havíamos resistido sozinhos por dois dias, contra os soldados; mas alguém conseguiu subir por algum ponto cego da casa e cortou-lhe o pescoço. Quando vi, corri contra o desgraçado, lutamos e, após levar eu mesmo uma facada na perna, derrubei-o igualmente esfaqueado para o chão a três andares de altura. Com gosto vi que não mais se mexeu após a queda.
Voltei-me imediatamente a ela, entretanto não pude apreciar a luz de seus olhos se esvaindo, pois eu demorara na luta contra o invasor; já era sem vida, o corte fora demasiado profundo. A pele de seu rosto estava absurdamente suja, assim como a minha. Havia tempo não podíamos nos limpar, porque mal dormir era-nos possível. Agora, bem mais do que antes, o cheiro de sangue pairava conosco, enquanto eu a envolvia nos braços; mas desta vez não era o cheiro do sangue dos soldados que matáramos, mas sim do seu, que, escorrido, começava a se espalhar em sua camiseta encardida.
Mesmo sob aquelas circunstâncias horríveis, havia uma beleza indescritível em suas feições. Minha perna machucada, eu a esqueci naquele momento; pois amava Aline e odiava o Novo Regime, que acabava de matá-la, e que já matara todos os outros que me eram caros no mundo. Eu a amava, contudo, mais do que já amei qualquer um; pois pode até ser possível não amar a última pessoa amiga na iminência da morte, mas não alguém como ela. Havia nascido para ser amada mesmo nas condições em que o amor mais evita surgir. Era bela no vigor belicoso e na destreza com que manejava o rifle, e em como acostumou-se logo à rotina de assassinatos em que passamos a viver; era bela em todas essas coisas, e em outras, e sua beleza perdurará no chão por ela metralhado em seu esforço para nos defender, esforço que levou à morte diversos soldados que tentaram se aproximar da casa até então.
Nossa despedida deveria ser curta. Olhei mais uma vez seus estreitos olhos orientais, agora opacos, que tanto me sorriram nos tempos de paz; toquei seu rosto e seu cabelo. Então, novamente retornando à realidade imediata, cortei parte de sua camiseta para enrolar e amarrar em minha perna, a fim de parar de perder tanto sangue. Ao tirar-lhe o coldre da cintura, fazendo seu corpo se mexer, pungiu-me outra vez o coração o fato de que seus movimentos autônomos cessaram para sempre. Não conseguindo mais permanecer ali, tanto pelo perigo quanto pela dor da perda imensa, com um grito furioso preso na garganta rastejei para fora da casa, pelos fundos.
Rodrigo estava ali perto, já apodrecendo; levara um tiro na cabeça quando tentava alcançar uma mochila de um soldado morto. Rodrigo arriscava demais. Eu gostava muito dele. Passando por seu corpo, tomei para mim mais alguma munição. Agora eu já possuía três pistolas e uma caixa cheia de cartuchos e balas que eu não fazia ideia se serviriam; não havia tempo para me deter averiguando a compatibilidade da munição, era preciso me esgueirar o mais rápido possível para longe da casa, pois já a invadiam, agora que Aline não mais os afastava com os tiros do rifle.

Era noite e ninguém me viu me arrastando em direção ao fundo da viela em que a porta de trás da casa dava.

domingo, 25 de agosto de 2013

Ganondorf e a luta de classes

Gerudo Valley: terra dos ladrões, árida, em que mulheres negras enfrentam uma luta diária por sobrevivência, furtivamente, por meio de roubos e de uma organização social quase independente do sistema monárquico de Hyrule, sistema este por elas desprezado e contra o qual têm constantes conflitos. A concentração de renda, evidente no alto padrão do castelo de Hyrule e nos demais centros aristocráticos ao seu redor, inevitavelmente é o fator que está no princípio das desigualdades e que culmina na necessidade de milhares de indivíduos de viverem à margem das leis impostas pela minoria rica; daí nascem as ladras do vale Gerudo. Então, no âmago dessa classe oprimida e isolada pelos reis que vivem na soberba, nasce Ganondorf Dragmire, destinado a ser o rei dos ladrões e a libertar seu povo.
Obviamente, não é na pele de Ganondorf que o jogador de Zelda se encontra, e sim na pele do herói dos aristocratas de Hyrule, Link, o Herói do Tempo - cuja sina, intrinsecamente relacionada à de Ganondorf, transcende as gerações desde a primeira até a última das eras numa eterna batalha em que a falsa dicotomia entre o Mal e o Bem é, de maneira bem conveniente aos poderosos, representada por Ganondorf e Link - destinado desde seu nascimento a combater o "mal" que Ganondorf e, consequentemente, todo o seu povo, representa aos olhos das classes favorecidas pelo regime em questão.
Parece amargo o destino de Hyrule quando, enfim, Ganondorf obtém parte das relíquias divinas, conhecidas pelo nome Triforce, e destrói boa parte das capitais e do sistema que antes vigorava. Mas isso não passa de milênios de opressão finalmente vingados, de maneira impetuosa, como não poderia deixar de ser. A destruição do sistema inevitavelmente acarretaria na destruição das instituições estabelecidas pela aristocracia de Hyrule, e só por meio dessa destruição o sistema poderia ser subjugado e erradicado.
Infelizmente, quando Ganondorf é derrotado no fim do jogo, o jogador e a princesa Zelda voltam no tempo, 7 anos antes da batalha final (dessa época em questão, do jogo Ocarina of Time), bem próximos do ponto em que Ganondorf se apossaria de parte da Triforce; entretanto, por causa de alguma magia, inerente ao universo do jogo, Ganondorf também não está mais nesse passado, pois teria sido morto no futuro por Link. Não foi, porém, uma simples morte; o espírito de Ganondorf ficou aprisionado numa espécie de dimensão paralela, e toda sua existência foi apagada daquela época.
Mas o "Mal", predicado de Ganondorf e de alguns outros "vilões" (curioso como esse termo refere-se, primordialmente, ao sujeito que vive numa vila, ao plebeu, ao pobre que trabalha pesado para sustentar os ricos) durante toda a série, sempre se liberta e retorna.
Tomando como pressuposto o mito das reencarnações das personagens durante a série, é possível afirmar que a essência da luta de Ganondorf é a mesma em todas as suas reencarnações. Sendo assim, ainda que no Ocarina of Time tudo isso que eu escrevi não tenha ficado claro por conta, talvez, de limitações técnicas ou de estilo narrativo, lembro-me de quando, no Wind Waker (se não estou enganado quanto ao jogo certo da série) - cuja história é posterior à do Ocarina of Time - Ganondorf, mais uma vez líder de um povo e de criaturas desajustadas e enjeitadas, conta a Link, num diálogo marcante, sobre toda a opressão de seu povo durante centenas e centenas de anos, desde eras passadas, e sobre como seu objetivo não é lutar pelo propósito simples de destruir o mundo, mas sim por libertar os povos oprimidos.
Decerto toda esta análise tem muitas diferenças com o mundo real e atual para fazer uma analogia completa. Mesmo assim, os pontos em comum são bem claros. Para não ficar aqui só engrandecendo Ganondorf, devo dizer que ele destruiu, também, lugares e povos que eram igualmente oprimidos pela aristocracia; mas como exigir absoluta racionalidade de um sujeito que carrega na essência de seu ser o ódio e o desejo de sangue numa retaliação por gerações infinitas de seres (seu povo de ladrões, principalmente) desgraçados pelo sistema? Ganondorf não é puramente o libertador e o salvador dos povos, que traria igualdade a todos e instituiria um novo sistema sem classes, sem ricos ou pobres; ele é, primordialmente, o desespero e o ímpeto belicoso que surge quando as tensões sociais são tão aflitivas que não mais se pode conter o braço que se levanta em luta.
E pensar, hoje, que sempre nutri mais simpatia pelo "vilão" da série Zelda e que a música tema de Gerudo Valley sempre foi a minha favorita... eu só não tinha noção dos significados por trás da "maldade" de Ganondorf.