Fritei batatas para o chefe.
- Excelentes batatas, Felipe.
- Obrigado, Sr. Francisco.
- Assine aqui sua demissão, por favor. E saia de minha sala sem demora.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Mais um começou. Como ela reagirá, desta vez? É a mesma história de antes. Same old story, same old song and dance.
Pretendo ser mais frio e esquivo. Alguém não vai se dar bem com isto. Provavelmente serei eu. Que se há de fazer?
- é, agrada-me escrever sem aparente nexo. É uma porção de pensamento já na metade do caminho transcrito. Não vale muito. E ela provavelmente mal vai deduzir que trato dela nesta abordagem.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Queria encontrá-la uma vez mais. Sei que não me negaria a mão. Que, por mais que não goste, não negaria se molhar na chuva comigo. Eu voltaria para me despedir outra vez, ela estaria me aguardando, pois sabe que sempre volto. Não entrava antes de me esperar voltar três vezes para dizer um novo adeus.
Ela tinha bons lugares a ir, e se não tivesse, qualquer um seria bom apenas por estar com ela. Não é daquelas pessoas que infunde indecisão por ser timorata. Não, não; jamais fora de muitos "talvez".
Sinto falta de montar guarda em frente à sua casa para surpreendê-la no ponto de ônibus. De receber seu convite para sair e cancelar quaisquer compromissos com seja lá quem fosse. Eu repetiria esse ato e perderia mil amigos e possibilidades só para atender-lhe o desejo novamente.
Eu ouviria seu lamento outra vez. E iria prontamente ao seu encontro, e sem dúvida olharia em seus olhos o quanto pudesse - para sempre, se a fome e o cansaço não açoitasse, outrossim, o corpo dos que se perdem a vislumbrar o amor -, e tomaria sua compleição longilínea num largo e envolvente amplexo; não sobraria espaço que nos equilibrasse, e tombaríamos se nenhum dos dois ao menos tentasse, com os cotovelos ou ombros, se escorar em alguma parede para evitar a queda - sem que o outro percebesse esse cuidado, para que não desviasse a atenção do abraço para o fato de que caíam.
Eu aceitaria seus desvarios e excentricidades só para que me abraçasse cada vez mais forte.
Se eu pudesse brigar com ela mais uma vez, se eu pudesse correr atrás dela mais uma vez, se eu pudesse ser perseguido por ela mais uma vez, se eu pudesse tomar um sorvete com ela mais uma vez, se eu pudesse pisar a grama com ela mais uma vez, se eu pudesse estar ao lado dela mais uma vez, respirando o ar da mesma paisagem, aspirando pelo brilho do mesmo luar, expirando o suspiro pela mesma intenção, ah!, se eu pudesse, não perderia meu tempo escrevendo sobre coisas que não posso.
Sorria-me novamente, deixe-me trançar teus cabelos novamente, permita-me que te faça cócegas na barriga novamente, diga-me: "Que há? Não me darás o braço para caminharmos? Vem, há uma bela árvore pela sombra da qual poderemos sentar; durante esta época, caem-lhe as folhas, e se ficarmos um bom tempo sem nos mexermos sob seus galhos, ao final estaremos recobertos por um véu de outono. Vem! Espero que tenhamos a sorte de este ser um dia em que muitas folhas despenquem!".
Não sei mais.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Tchau, C
Vou andando e dando tchau à C, por vários lugares, despedindo-me, em verdade, tanto destes quanto dela. A propósito, obrigado, N, pelo recurso de discrição.
Tornou-se hábito. Hoje, estava eu lá na L e, reconhecendo uma banca de jornal comum à nossa atenção outrora, num ímpeto saltou de mim uma despedida. "Tchau, C". Não que fosse a última vez que eu veria tal banca; foi mais como despedir-me de um tempo antigo que ficara estagnado lá nos arredores.
A banca de jornal. Nem me lembrava dela. Tchau, C.
Há a agência de banco e a esfiharia. Tchau, C. O banco de pedra ao lado das escadarias. Tchau, C.
E, mais aqui para perto, ontem divisei um outro banquinho de pedra - que, melhor dizendo, é apenas o abrigo do hidrômetro de uma pizzaria. Houve um evento melancólico envolvendo aquele recanto da calçada, ou algo similar. Lembro-me de alguma troça sobre os vários esperadores de ônibus que insolitamente se abarrotavam pelo ponto ali próximo. Tchau, C.
Vou andando e dando tchau à C, aos lugares e ao tempo. Reminiscências por todos os lados.
Tchau, C.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Lovecraft
O que mais atemoriza nas narrativas de Lovecraft não é o terror explícito. Claro que, com este, ele faz um excelente trabalho - de acelerar os batimentos cardíacos do mais valente dos homens -; mas, por detrás das sombras e da vilania dos seres repugnantes que descreve, há um terror muito mais profundo, sobre o qual ele nada diz, mas deixa suficientemente aparente para que os mais atentos o encontrem. De modo que não é somente o monstro do interior da pirâmide que me assombra, mas a ausência de um desfecho do ritual hediondo que o invocou. É o que não se narrou que infunde o verdadeiro terror misterioso de suas histórias. É a certeza de que algo ainda mais diabólico ronda os acontecimentos descritos e aguarda calmamente pela sua vez. E, além, algo ainda mais terrível.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Surge à lembrança
Eu a observava de longe, a caminhar. Era um andar cheio de música. Música muda, que só soa - em acordes que inexistem além de concepções inexatas de uma mente apaixonada - quando evoco à memória seus passos. Sinto saudades.
Sim, acompanhava-a com o olhar, às vezes. Ela soube, alguma vez? Não, sempre mantive silêncio sobre este hábito. Só agora o revelo.
E minha vontade, que sempre fora sair aos brados, clamando por seu amor, e alçá-la à brisa leve das alturas de um rodopio, abraçando-a pelas pernas, precipitando-nos ao perigo do meio-fio da movimentada avenida, e receber, ao entregá-la de volta ao contato do solo, um sorriso estupefato de felicidade e amor, seguido de um beijo apaixonado enquanto apoiados de qualquer forma aparentemente desconfortável no poste ao lado da banca de jornal, ah!, feneceu, cansou-se de quase se concretizar por pouco.
Mas, as memórias, as memórias! Cheias de música e cabelos ao vento. A chuva! A chuva fria na noite escura e deserta. E tudo por onde paramos e olhamos para algum lugar, pensando sobre o que falar, para onde ir.
À minha volta, um mundo cheio de marcas. Por onde fez-se horizonte a seus olhos. Pelos lugares que nossas sombras tocaram. Pelos muros que ouviram nossas risadas.
Um mundo cheio de marcas.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Avião
Que lindo! O céu da noite, estrelado, permeado por algumas nuvens algodoadas, brilhava, cheio de breves halos dos pontos de luz. A noite era fresca, e o alto vento soprava os flocos de nuvem para sudoeste. Alguns, deitados na relva e fitando o céu, poderiam se perder por horas em devaneios...
O globo girava... as nuvens passavam... a brisa toca... o pensamento flui.
De repente, fatiando a abóbada celeste de uma ponta a outra, surge, por entre um bloco de nuvens - e delas puxando um pequeno rastro - um avião.
- Que incrível é a imaginação. Posso fazer disso o que eu quiser. Se eu deixar a imaginação vagar, posso fazer de conta que esse avião se parece com... hm... com...
O avião não se parece com nada. A ideia era que ele se parecesse, naquela oportunidade, aos olhos do observador, com uma águia, falcão, andorinha, pomba, qualquer ave. Mas... uma droga de um avião só se parece com outros aviões e mais nada. Nenhum animal fica voando e emitindo luzes coloridas das pontas das asas, nem fazendo uma barulheira infernal, e nem mantendo tão rígido o corpo. A urbanização destrói todas as fantasias. Só de pensar que não é só por aqui, no meio da cidade, que passam os aviões, já me apavoro. Por mais que eu procure os campos, corro o risco de ter interrompidos os meus sonhos pela turbulência de um avião. Máquina do homem. Serve para todos os propósitos práticos maravilhosamente bem, mas macula a paisagem e, doravante, o pensamento de quem aprecia um céu limpo de "progresso humano".
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