quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Brahma e seu otimismo


Olha só o que tive de engolir junto com a janta de hoje. Brahma critica os "pessimistas" que reclamam do previsível caos no transporte na Copa de 2014. Dá uma ânsia tão grande assistir a esse comercial que fica difícil até exteriorizar minha reação. Pessimista? Só uma mente irrefletida consegue ser otimista e achar que a "festa" vindoura do futebol que a Brahma enaltece é de alguma forma mágica e proveitosa. Dizer que o transporte será um caos é mera constatação. Achar que será gostoso ficar no engarrafamento só porque estaremos em meio aos "incríveis" jogos da Copa é infantil e é um pensamento que só é capaz de surgir de mentes turvas como a dos grandes empresários que andam de helicóptero.
Este comercial é um tapa na cara disfarçado de carinho. A missão de idiotização preparativa para a Copa caminha a largos passos... há também uma propaganda da Volkswagen, de um Gol novo, que apela ao patriotismo futebolístico típico da maior parte da população do Brasil. Também é uma grande afronta à inteligência.
Essas empresas pintam a miséria de verde e amarelo e mostram os sorrisos efêmeros que a emoção de uma partida de futebol promove, mas esquecem que tais sorrisos são arremedos de uma felicidade da qual a imensa maioria do povo não frui de verdade.
Então, não especificamente à Brahma ou à Volkswagen, mas a todos os capitalistas malditos que se esforçam, herculeamente, diariamente, no corforto de suas mansões, em revolver o ideal de felicidade das pessoas e em tentar fazer da pobreza conformada uma meta: meus sinceros desejos de que estes comerciais imbecis gerem uma resposta contrária à esperada. Ninguém aguenta mais esse crime mental que vocês praticam. Vocês são homicidas de primeira linha e eu até evito me aproximar da televisão para não passar mais nervoso. Dá para ver seus olhinhos brilhando com a expectativa do lucro em cada palavra que sai do aparelho.
Deixem os trens e os ônibus explodirem de gente, mas deem futebol para o povo, não é? Coloquem o Ronaldo fazendo papel de Tio Sam, vai ser legal, não é mesmo? Dá vontade de vomitar.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O ausente


"...aqui foi no sábado. Eles trouxeram já as fitas e logo o Alcides vai descer comigo para colocar. Felipe, espera aí, queria ver com você uma coisa aqui... deixa eu entrar com minha senha. Quer ver, tava na parte de demonstrativos."
Um minuto.
"Sua matrícula, mesmo? Ah, sim, está aqui. Beleza, deixa comigo."
"E aí, Felipe? Nem tinha te visto, hoje. Vou te falar, hoje tá complicado. Ah, uma senhora que estava lá na área aberta..."
Dois minutos.
"...disse que não te via faz tempo. Te chamou de loirinho, demorei pra entender. Sabe que ontem à noite teve uma zoeira aqui, dos arruaceiros, e deu que..."
Três minutos. Sempre nesse ritmo.
Quatro minutos, e cinco, e mais, e a soma chega a quinze. Eu os vejo passar no relógio da barra da tela do computador. Acerto com baixa margem de erro o momento em que os números mudam. Entreouço o que me dizem e ouço o barulho do trem passando nas galerias abaixo, próximas. Sei que respondo uma ou outra coisa razoavelmente coerente, mas o domínio da conversa é sempre do outro, então não faz muita diferença minhas respostas parecerem pouco elaboradas. Hoje eu estou em qualquer lugar, menos próximo de mim. Penso brevemente num sorriso alheio, e sinto-me melhor.
Vou para os bloqueios. O tempo passa; calculo que ficarei muito tempo lá sozinho, pois alguns funcionários estavam indo embora. Tudo bem. Não quero me prender a essa gana por minutos preciosos e avidamente angariados que fatalmente escoarão, inúteis, junto ao fluxo de tédio nascido da abstinência mental de corpos puídos amontoados em bancos duros de um vestiário quente de um corredor infindável de salas monótonas e bicolores de uma estação de metrô.
Uma hora. Duas. Três. Quantas forem. Não me importo. Até gosto; é um tempo longo, e torna fácil pensar um pouco sobre ela.
A calça é da cor dos pilares, a camisa é da cor da monotonia e da ausência. Pessoas passam para lá e para cá; sinto um enjoo de marinheiro de primeira viagem com o movimento, pois estou balançando ao ritmo do fluxo. Aproximo-me de um pilar e nele toco com a ponta de um dedo das mãos cruzadas para trás, e não sei se está frio ou quente. Vou apoiando os outros dedos, a palma de uma das mãos. Sinto que a temperatura do pilar é minha própria. Isso me aproxima mais do concreto, como se este quisesse me abraçar. O vento bate-me no rosto com delicadeza, mas de qualquer jeito, e vem e volta de qualquer maneira. O barulho martelado dos tripés é caótico; mas parece haver um constante murmurinho, levíssimo, ao fundo de todo o ambiente, soporífero, convidativo...
Sinto-me parte da paisagem. Sou invisível para o mundo, mas o pilar me abraça e me reconforta. Descubro que o pilar sou eu, o murmurinho sou eu, o martelar sou eu, o vento sou eu, sou eu o mundo. Então o celular vibra com uma mensagem e essa sensação de integração termina.
É de um número que começa com 4000. Abro e descubro que, de tão importante que sou, um banco quer me conceder um cartão de crédito. Sinto-me tão especial quanto uma batata.
Observo os bloqueios como se fosse provável que algo surgisse das escadas para me salvar de minha própria implosão. Logo agora, um barulho de conversas chamou-me a atenção e ao olhar distraidamente achei que fosse ela; foi como um chacoalhão. Deixo tal impressão de lado sem esperar a confirmação de que não a veria descer do último degrau.
São oito horas da noite. Meu colega chega e vou embora, a passos arrastados. Sinto em mim um vazio como o da estação desabitada na madrugada...
Este vazio é como se ela tivesse passado a viver fora de mim. Ela, agora, habita o ambiente ao meu redor, não mais em mim. Portanto eu mesmo estou algures, procurando seu toque em cada brisa, seu frescor em cada chuvisco, sua voz em cada sussurro. Sinto-a em minhas respirações.
Mas o vazio lembra-me de minhas escolhas...
Não encontro ninguém no caminho até o vestiário, nem quando vou embora. É melhor assim. Embarco no trem. Vou a um lugar especifico, agora.
Amanhã volto a algures, como todos os dias.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Inventário


Primeiro foi J, num passado de memórias entrecortadas e vagos sorrisos alvíssimos pulando nos cantos da mente. Depois, D., quando comecei a me aventurar mais. C., que entrelaça todas as histórias. L. distante; D'., ainda mais distante. N., enigma ainda hoje. B. passou tão rapidamente que acho que nem deveria ter menção. Quase não me lembrava. Talvez não deva ter menção, de fato. Então por que não excluí esta parte de B.? Parece óbvio. Enfim, surgiu C'., nos momentos de euforia e iniciando minhas histórias de encontros aleatórios. D''. fez-me espantar com tais encontros; eles começaram a se repetir. Então S., sem nem esperar um pouquinho, promove mais uma vez um encontro intrigante na minha vida estranha.
Misturam-se todos, sem parar; remetem-me sempre a C., em fracassadas sobreposições. Mas C. está quase ruindo. Acho, aliás, que já houve a ruptura que sempre desejei.
Quero agora ser livre. Não quero mais abreviações.
Que será que são as abreviações? Acho que nunca as desvelarei.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

     Se ontem eu tivesse morrido, pensei, o pior seria nunca a ter beijado.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Gritar na almofada é uma mentira


Talvez eu parasse de roer unhas se pudesse gritar o mais alto possível de vez em quando. Mas onde, sem que venham acudir ou acalmar? Sem que se sintam perturbados e queiram que eu pare? Casa, avenida, ônibus, metrô, faculdade, treino, ônibus, metrô, trabalho, metrô, ônibus, avenida, casa. Quando estarei sozinho e poderei gritar? No treino, grito. Mas não grito como gostaria. O grito que quero dar não é compatível com o treino, e causaria transtornos. Não quero ninguém perto de mim, ninguém perguntando o porquê. É porque é e, para todos os outros, ponto final.
É grito de desespero por todos os anos e estes meses. Por um arremedo de felicidade.
E não é só gritar; pelo menos não no primeiro grito. É correr e me jogar no chão, bater com um galho em outro, chutar a terra, a água, socar o ar, pular, quebrar uma pedra em outra, e isso o dia inteiro, até me machucar ou desmaiar.
Os gritos seguintes podem ser só gritos. Por algum tempo.
Mas têm de ser gritos; não são gritos os que são abafados pela almofada.

Lembro-me de você, agora, como sempre...
Mas há quanto tempo? Dias ou anos? Pode-se calcular? E que seriam mais dez anos? Ou vinte, quarenta, cem... todos. Quando foi a última vez? Hoje? Quarenta anos atrás?
Qual a quantidade de você que existiu?
Quem é você?

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Fortuna


Vem-me ocorrendo de o acaso conceder-me mais encontros fortuitos ultimamente que em toda minha vida. Um, dois, três; já estou no quarto e acho que outro dia houve o quinto, mas não pude confirmar o reconhecimento.
No começo achei engraçado e oportuno; eventos tais que dão chances a emprestar do destino suas qualidades mais agradáveis para fazer gracejos.
Mas será que não vão parar? Já estou quase esperando o próximo, rapidamente esgotando-me do atual, cada vez mais os alimentando intensamente para igualmente abdicar de grandes esforços quando acho que de nada resultará o tempo aplicado.
Mais como uma coleção de realidades alternativas, em que só o primeiro seria o suficiente, e seria o ideal; noutra, o segundo; e adiante.
Tenho vivido esta rotatividade semelha a estas frases curtas, que não consigo muito prolongar. O pensamento longo tem parecido tão descartável, assim como a memória, assim como a fortuna.
Uma explosão de vontade e o súbito medo, desinteresse, desengano. Sou eu, passando veloz por mim mesmo e por meu maior desejo. Inadequado e inadequando-os.
E o texto é incompreensível porque quero sua compreensão só para mim, e que as tentativas de interpretação sejam embalde; contudo, quero leitores.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Lembrei-me de que tenho um blog... e publiquei qualquer coisa.


A noção de "valores" se virtualizou. Todos sabem o que é ética, respeito etc.; aceita-se o contrário de todos eles, entretanto, com apenas pasmo e trejeitos de suposta repulsa, mas... este é o fim do espanto. Levamos a revolta como quem veste, num dia ensolarado, uma blusa que, ainda que não nos faça suar de tão quente, incomoda. Constantemente, desde as margens de minha memória, ouço minha avó dizer que "Todo político é corrupto, em qualquer lugar do mundo" e que "É cada desastre que a gente vê... isso é a natureza revoltada com o ser humano. O ser humano judia, e a natureza se revolta", e ouço dizer que Fulano comprou mansão com dinheiro público, Sicrano viaja a passeio com dinheiro público, Beltranos envolvidos em escândalos e nepotismos. E todo mundo comenta, e fala, e xinga, e petisca uma carninha com farofa no quintal, e tudo bem, sempre foi assim, e sempre será. Essa indignação passiva está morrendo com cada avó, e inconscientemente estamos aprendendo que isso é algo natural. Não é!