domingo, 30 de dezembro de 2012

No remoto deserto de Kaij


Há muito que já não mais distingo o tempo. O esforço é aflitivo e vão.
Caminho quase todos os dias através dos corredores e aleias e pelos níveis, vários, destas ruínas que um dia foram inexpugnável fortaleza, erigida por homens e deuses, quando nós caminhávamos lado a lado. Isso foi há mais tempo que pode a mente conceber, muito antes do ato que culminou nesta minha punição; apenas não sei se aqui estou há mais séculos que os transcorridos entre a fundação deste lugar e meu levante. As infinitudes de tempo se aproximaram desde que abandonei as medições.
Meus inimigos foram cruéis demais; mas eu castigaria com igual crueldade quem tramasse uma insurreição como a minha. Posso compreendê-los.
Quando me aventuro fora das ruínas, seres abomináveis se erguem das areias e surgem do horizonte do vasto deserto que circunda a fortaleza destruída. Desaparecem no ar assim que volto para dentro dos muros. Em certo momento, há mil vezes mil anos ou mais, enlouqueci e, a certa distância das muralhas, totalmente exposto, gritei desafios às odiosas criaturas, que não tardaram em emergir de suas submersas moradas em resposta à minha provocação. Enfrentei-os, então, por eras, armado de uma antiquíssima, mas poderosa, espada que havia encontrado perdida por entre os escombros, e com a qual achei que poderia destruí-los e escapar. Recordo-me que nela havia inscrições desgastadas à ilegibilidade correndo por toda a lâmina; certamente fora posse de vários heróis de outrora, hoje todos mortos e esquecidos. O sonho de escapar, contudo, já tinha sido previsto por meus opositores. Além de os seres jamais findarem, quanto mais me afastava das ruínas de Kaij, mais mortal me tornava e, portanto, mais necessidades e fraquezas mortais se me impunham. Antevi que ficaria cansado de lutar, sentiria sede e fome, calor e frio no clima adverso deste pedaço de mundo deixado ao oblívio, e pereceria.
Certamente outros prefeririam a morte ao eterno castigo; mas estes não são eu. Minha ira é demasiado grande para que eu desista da existência, e aumenta cada vez mais.
Nas entranhas desta construção abandonada há o verdadeiro lugar em que fui aprisionado, onde eu sou eu mesmo, imortal, indestrutível, terceiro em força entre todos. Trata-se não mais de Kaij, mas de um interstício entre as dimensões, o terrível Nada, em que todo meu poder, embora eu possa senti-lo fluindo pujante por todo meu ser, é estéril. Quando digo que meus inimigos foram cruéis, faço menção mais do que ao simples aprisionamento: refiro-me a terem interligado meu verdadeiro cárcere às profundezas desta construção esquecida e, principalmente, refiro-me ao artifício - criado por meu primo, cuja vida primeiramente ceifarei com imensurável prazer antes de todas as outras, quando eu conseguir me libertar - que mina meus poderes quanto mais me afasto da prisão entre dimensões. Quando ando por Kaij, sou livre, porém somente um homem; fortíssimo, mas um mero homem. Um excelente convite à loucura e ao ódio. Seria menos doloroso estar confinado eternamente apenas ao Nada. Mesmo assim, não sou capaz de não retornar às ruínas, pois aqui deve certamente haver um meio de escapar. Pagarão por este sarcástico capricho.
Vez ou outra vou ao torreão mais alto e observo os horizontes além do horizonte do deserto, graça atroz que me concederam meus inimigos. Vejo gerações de homens guerreando, conquistando, raramente gozando períodos de paz. Posso vê-los todos, nos diversos cantos do mundo, observar cada vida isoladamente ou a humanidade como um todo. Vejo também as interferências dos deuses e seus planos, e posso jurar que eles também podem me ver aqui, pois não é com pouca frequência que seus olhos encontram os meus, embora nunca tenham deixado transparecer quaisquer outras provas de que me observam - talvez com júbilo, ou pena, ou desprezo, ou indiferença; sei o que cada um deve sentir por mim, mas por todos sinto somente ódio.
Durante essa observação do mundo distante é que me apercebo de que o tempo flui além de meu discernimento. Aqui não há distinção entre noite e dia, ou talvez seja que ambos existam simultaneamente. Não há marcas no céu. Sua cor indecifrável é a mesma quando chove, quando o violento vento assovia por cada fresta entre as pedras dos maciços muros da fortaleza, quando o frio congela o tutano de meus ossos ou quando o calor evapora o líquido de meus olhos. Se volto para minha prisão quando o clima se faz torturante, o fluxo de tempo para em Kaij, apenas para aguardar meu retorno, a fim de que eu continue a sofrer como antes, de acordo com a vontade do clima e pela duração apropriada ao meu desespero.
Este lugar assombra o pensamento dos homens. Poucos se atreveram a chegar mesmo a quilômetros de distância daqui. Se eu ao menos pudesse atrair alguém para cá, eu poderia escapar, mesmo que na forma humana. Conheço o caminho para a morada dos deuses, esquecido pelos homens. Haveria uma chance de eu me libertar se liderasse um exército grande o bastante para ameaçar meu primo. Seria possível. Será.
Uma vez liberto, não falharei de novo; assassinarei todos os deuses e reconstruirei o mundo.

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O primeiro dia da longa e há muito esperada viagem finalmente chegou. Desde sua infância, o sonho de desbravar os Confins jamais perdeu a força. Obteve, a muito custo, documentos e mapas tidos como perdidos; duas vezes, inclusive, quase os pagou com a própria vida. Sua posse, ele a omitiu de todos até o momento de anunciar sua derradeira busca, para a qual arregimentou os mais fiéis e bravos amigos e guerreiros; mas apenas a seu filho, já um rapaz alto e robusto, segredou que ocultara documentos e mapas que há eras os sábios desistiram de procurar.
- Os homens temem os lugares destruídos pelas guerras lendárias e onde os deuses caminharam, filho. Eu, porém, sempre quis conhecê-los; sinto que pertenço mais às cidades antigas do que a todas as outras.
Com sua eloquência e carisma, havia conquistado já há algum tempo o favor dos intrépidos homens que agora o acompanhariam na longa jornada pelas áridas terras dos extremos do mundo conhecido, onde seres lendários e acontecimentos incríveis - alguns nem mais lembrados pelos contadores de história - supostamente existiram e aconteceram numa época distante no tempo.
Existe um sentimento sinistro, talvez causado pela extensa e desértica desolação que leva aos Confins, que sempre surge à mente dos homens nos limites do descampado de Nim, desencorajando-os e impedindo-os de seguir adiante. Talvez seja o temor de um poder ancestral e nocivo, talvez o simples receio de perecer no deserto. Para ele, entretanto, esse sentimento que a todos afasta é inócuo; pelo deserto sente só atração, como uma convocação à qual não pode declinar, e não apenas isso: seu maior desejo e ambição é conhecer aquela região do mundo olvida por todos. Aos poucos conseguira incutir em seus companheiros parte de seu entusiasmo, mais que o bastante para que rompessem com o naturalizado medo dos Confins e para que vencessem o angustioso sentimento que demarca a fronteira de Nim.
- Carreguemos os animais com os suprimentos - disse aos companheiros, apreciando o amarelado horizonte ao qual se dirigiriam. - Em uma hora, quero partir.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Vindouras, vindas e findas amizades


Sei que as pessoas aparecem e somem de nossas vidas e é impossível retê-las todas; o tempo não nos permite. Tentar sustentar até o final da vida todas as amizades iniciadas é utopia porque o tempo que dispomos para mantê-las vivas e interessantes vai-se tornando breve conforme novas amizades surgem. E há o trabalho, há o estudo, há a recreação solitária – pela qual, particularmente, muita estima tenho –, há o sono... não há tempo, simplesmente não há tempo para despender em amar todas as pessoas que gostaríamos de amar e da maneira como gostaríamos.
Acho isso bastante aceitável; no fundo, é mera questão de lógica. Leva-nos a selecionar pessoas com as quais desejamos conviver mais. A maioria de nós, acredito, prefere ter poucos e bons amigos a tê-los muitos e intimamente desconhecidos. Enquadro-me nessa maioria. Aceito plenamente que grande parte das pessoas com quem já gostei de conversar algum dia não mais converse comigo atualmente. Amei-as, sim, de certa forma leve e pacífica; e mesmo amando assim, apenas pouco, minha vida estará sempre marcada pela sua presença, ainda que passageira. Até vejo certa beleza nisso; porém somente se for dessa forma, com esse singelo desapego.
Aceito, também, mas só após muito contestar e brigar, que grandes amigos de longa data também saiam de minha vida. Vejo como uma seleção dentro de um período de tempo maior. Isso, contudo, é aflitivo. Porque eu quis amá-los para sempre durante todo este tempo; é diferente daquela primeira seleção, que tira da quase indiferença ou mero coleguismo alguém com quem se pretende construir uma amizade. Neste caso mais triste, que é como uma segunda seleção, tira-se do grupo de pessoas amadas alguém com quem não mais se conviverá como antes.
Portanto, pelos motivos que expus, não me apegarei, desesperadamente, a todos os sorrisos que encontrar durante minha vida. Algumas pessoas se afobam em manter um contato breve e raso com milhares de amigos e talvez jamais se sintam verdadeiramente unidas a alguém. Não vejo proveito nisso; chego a preferir quase o outro extremo.
Sugiro somente que não me hostilize quando perceber que não sou alguém que você tiraria da indiferença primordial, porque tal agressão é tola e risível e em nada me afetará. Só tornará você uma pessoa indesejável. Você não precisa tentar criar inimizade por quem não quiser amigo. Essa primeira seleção geralmente é indolor para os não selecionados – e, no meu caso, não causa o menor transtorno. Basta não demonstrar o intento de me amar.
O grande problema, como já disse, é a segunda seleção... e se você for me escolher para não mais me amar como me amou por todo este tempo, demonstre isso, diga-me pelo menos alguma mentira, diga-me que se mudou ou que vai se mudar para a Austrália, diga-me que não tem muito o que conversar, a vida anda numa monótona misantropia deleitosa e nela você pretende continuar, diga-me que você não tem tempo; isso, diga-me que não tem mais tempo, este que é o principal agente no cultivo da amizade, este que torna especiais as rosas e prazeroso o barulho do vento no trigo, porque assim entenderei que fui selecionado e saberei agir. Poderei tentar mudar minha amizade com você a fim de continuarmos amigos, se eu achar que me vale tanto a este ponto; mas, se eu contestar e brigar e ainda assim você me disser que não, saberei agir. Só não me esqueça à indiferença, tampouco me hostilize, porque aí, sim, vou me preocupar e me agitar e me desesperar achando que fiz algo de terrivelmente errado e danei todo o amor que tínhamos. Diga um sutil adeus; agora sabe que entendo você. Não tenha vergonha ou remorso; assim é a vida. Sofrerei e ficarei magoado, isso é óbvio, pois, embora saiba aceitar, não o faço levianamente. Rememorarei todas as nossas conversas e risadas, as discussões, os presentes, os olhares, os abraços, os encontros combinados e os fortuitos, a primeira vez que nos vimos; enfim, o momento quando nos selecionamos da indiferença... esta última é a lembrança de nossas vidas juntos que mais retornará à minha mente sempre que de você me lembrar.
Será ainda mais dolorido, e lutarei ainda mais ferozmente contra a separação, se você for alguém que desejei amar além da amizade; isso ocorre tão frequentemente comigo...
...mas, apesar de tudo, adorei tê-la conhecido, continuemos amigos ou não. E todos vocês.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Pastilha para dor de garganta

            Fui comprar um remédio para dor de garganta hoje à noite, depois do trabalho, antes de pegar o ônibus para casa. Pedi ao atendente que me indicasse onde estavam as pastilhas da marca X. Ele me apresentou três sabores que a marca oferece; eu, então, com grande discernimento e sempre buscando manter o raciocínio aguçado, detive-me ante uma necessidade de escolha aparentemente banal.
            Talvez meus atributos lógicos estivessem um pouco falhos após a leve liquefação cerebral promovida pela intensa e agressiva monotonia infindável do trabalho de poucas, mas exaustivas horas. Porque entre as opções havia o sabor framboesa (adoro o sabor de framboesa, embora não faça ideia do que seja uma framboesa, se vegetal ou animal ou mineral ou, sei lá, alienígena, ultradimensional, enfim, porque só o que comi com sabor framboesa até hoje foi gelatina de framboesa, e sempre que comi, gostei; por isso a framboesa tem todo este meu apreço, mesmo sendo-me uma incógnita completa, e vocês podem até me achar um tolo, mas não me incomodo) e o sabor menta (menta é um sabor extremamente comum para balas, e eu gosto bastante de menta, embora talvez nem tanto quanto framboesa, mas isso quanto ao sabor em geral, não pensando em sabores de balas, pois nunca havia comido balas de framboesa para dizer se gosto mais de uma ou de outra; se bem que também nunca comi gelatina de menta, o que invalida meu argumento anterior; mas na verdade o que importa é dizer que o sabor de menta provavelmente seria agradável porque cai bem em balas, ou pastilhas, dá na mesma), mas escolhi, após aquele momento em que me detive, durante o qual fiz certo tipo de reflexão cujos mecanismos obscuros até agora não atinei, justamente o último sabor:
            Mel-limão.
            É possível, sim, escolher a pior opção. Não me espanta mais o mundo ser como é. Nunca provei algo tão ruim. Jamais comprem pastilhas de mel-limão da marca X para dor de garganta.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O temor de perder alguém no vasto mundo; depoimento à amada

Por um momento desesperei porque achei que jamais veria você de novo; fui depressa aos registros do MSN antigo para tentar encontrar seu nome inteiro (confesso, não me recordo) em algum lugar, mas o que tenho de melhor de você – daquela época quando a conheci e quando você me disse que se casaria comigo, que deveríamos nos esforçar para nos encontrarmos e superarmos as dificuldades para nos amarmos como naquele arroubo nos amamos; sim, eu amei você, amei por pouco tempo, mas amei demais, demais... –, o que tenho de melhor de você está no HD do computador antigo, que está travado e que só com a ajuda de algum profissional em recuperar HDs travados conseguirei resgatar; guardo-o na gaveta de minha cama e espero algum dia poder ver novamente nossas conversas maravilhosas que lá tenho salvas, nossos diálogos sobre literatura e amor e paixão e nossos flertes adolescentes que facilmente me evolavam ao fértil mundo do sonhar acordado. Então foi quando pela segunda vez em poucos minutos desesperei, porque não encontrei seu nome, pois o que tenho no computador atual são só nossos frágeis últimos pedaços. As condições de nosso encontro foram tão fortuitas e acho que não conseguiria reproduzi-las jamais; eu poderia ter perdido você para sempre! Ainda mais sem seu nome, sem saber se você ainda mora no agitado litoral, minha única alternativa para reencontrá-la seria viajar para a outra ponta do país e procurá-la em cada casa, tarefa que me exigiria uma vida inteira e que quase certamente não daria resultado...
Em meio a este segundo desespero, lembrei-me de quando conheci você, puxando assunto numa enfadonha conversa sobre cultura; você falava com todos sobre tudo e sempre estava impondo seu ponto de vista – algo aceitável, porque o que os outros diziam eram baboseiras sem sentido e você possuía o domínio argumentativo típico das pessoas que não necessariamente passaram a vida inteira estudando, mas das que nasceram banhadas pela facilidade de adquirir conhecimento –, e eu, quando me atentei aos seus dizeres ("vamos ver se esta moça aqui, que fala sem parar, de fato, fala algo interessante"), desisti de todas as outras conversas e ignorei todos os outros: só tinha olhos para você. Esperei pelo momento oportuno de tentar uma aproximação, especialmente procurando por um assunto que eu também dominasse, para que você não me estapeasse psicologicamente logo de cara como fazia com todos os outros; não me lembro bem como foi que comecei a papear, mas, se não me engano, foi aos poucos, e fazendo comentários sobre as pessoas com quem estivera conversando antes: "eu estava aqui pensando em como deve ter sido duro para você ter de conversar com Fulano; que pensamentos arcaicos ele expôs!" – coisas assim, o que era tão tipicamente meu modo de agir, pois eu, como um bom recém-adulto, só queria mesmo era demonstrar minha aparente segurança  em que eu, é claro, ingenuamente acreditava – em relação ao domínio precoce das artes e da filosofia, mostrar-me o jovem prodígio incompreendido da tormentória capital paulista; em você vi meu reflexo feminino, e pensei: "que belo!". Sabe, naquele dia, se bem que acho que já lhe falei isto, mas naquele dia eu tive uma de minhas maiores crises de tédio e não sabia mais o que fazer com os segundos que escoavam, chorando sua preciosidade; aquele dia foi o acme do aborrecimento fastidioso que viera se instaurando em mim não sei por qual motivo nem por quanto tempo – mas é provável que tenha se iniciado com alguma decepção amorosa, sentimento em mim tão recorrente –, eu não conseguia escrever sequer uma linha de minhas incríveis histórias, nem uma linha de qualquer delírio, não tinha vontade de ler livro algum, nem de sair com pessoa alguma, nem de dormir, nem de ficar acordado, e lembro-me de desejar que eu pudesse me desligar até que o momento do tédio passasse; mas então me apercebi de que o tédio era produto exclusivamente meu, o momento não estava no mundo exterior e, portanto, seria congelado e descongelado comigo e de nada adiantaria.
Querida, amada, conhecer você foi minha redenção naquele dia, e fez-me acreditar que o acaso, ainda que comumente um louco espalhafatoso com pendores destrutivos, às vezes nos agracia com uma aleatoriedade que nos serve de maneira maravilhosa.
Então aqui estava eu, revivendo aqueles dias em que fui feliz, eu juro, fui feliz de verdade, e agora até lacrimejei ao jurar, fui feliz de verdade com você, ainda que nosso contato fosse pouco e distante; então aqui estava eu, parafusando nos motivos que me levaram a querer me afastar de você, motivos tolos, imbecis – que eu poderia superar! –, num torpor de recordações de seu rosto e de seu corpo – também me apaixonei por suas pernas, e sempre que você se levantava para ir à cozinha tomar uma água, eu não podia evitar olhá-las –, quando sobressaiu-me à vista seu e-mail. Sempre me esqueço de que é possível encontrar as pessoas nas redes sociais virtuais também por essa maneira.
É um novo momento de desespero colocar seu e-mail na ferramenta de busca, o temor por não obter resultado sapando-me numa preparação para me derrubar; revê-la pareceu-me, nesse instante, improvável e apenas um sonho de um bobo; entretanto, reencontrei-a. Esta parte de mim que é você não está, ainda, perdida para sempre de volta ao caos do mundo.
Vejo agora seu rosto gentil com maquiagem escura – aparentemente caracterizando alguma personagem de alguma peça teatral em que você atuou em algum momento, decerto posterior ao nosso vago adeus, de sua vida repleta dessa felicidade de quem sabe que nasceu para encenar, ou simplesmente de quem sabe que nasceu para determinada aplicação, seja qual for –, mas que por trás da maquiagem é exatamente igual ao que eu quase esqueci por um descuido deste coração que definitivamente não sabe amar, pelo menos não como deveria, como a maioria das pessoas; por trás da maquiagem tenho certeza de que seu sorriso juvenil e sensual ainda começa pelo canto esquerdo da boca de lábios carnudos que então se estreitam graciosamente, sorriso convidativo como seu piscar de olhos... conjuntos, faziam-me delirar. Por muito tempo, não sou capaz de parar de ver sua foto do perfil; descobri num átimo que sentia saudade demais de você.
Você ainda escreve encantadoramente, como quando a conheci, ainda parece alheia à sobriedade do mundo, ainda mora no mesmo lugar, mas não sei se ainda estuda o mesmo curso na mesma faculdade, coisa que fiquei sabendo numa das últimas vezes que falei com você; mas quanto tempo isso faz?
Esta corrida era só para não a perder assim de vista, porque acho que não vou conseguir me reaproximar de você, é quase impossível que voltemos a nos falar, nas últimas vezes mal parecíamos qualquer coisa entre conhecidos, amigos, pessoas que algum dia estiveram apaixonadas uma pela outra...
Talvez tudo isto tenha valido apenas para eu fazer, enfim, a derradeira confissão de meu amor por você – naqueles dias de namorados, era sempre você, Deborah, quem primeiro dizia que me amava para, só depois, eu dar uma vaga resposta, que era sempre comedida; este meu medo de revelar que fui atingido por Eros privou-a durante todo este tempo de conhecer a íntima natureza de meu sentimento por você, que só agora deixo aflorar.
Deborah, eu (não posso dizer simplesmente que a amei, o verbo no pretérito, como se nosso envolvimento fosse um mero quadro de anos passados e saudosos, porquanto isso seria apenas uma mentira conveniente que me ajudaria a amenizar minha consternação por não estarmos mais juntos) amo você. Ao final, este lugar-comum.

domingo, 18 de novembro de 2012

Oculta num pronome


Algo que lamento é não poder, ou achar que não posso, nem dever, ou achar que não devo, talhar seu nome em cada declaração que a ela faço. Porque, se pudesse, não haveria de metamorfosear meu amor num outro, inexistente fora de meus pensamentos, para escrever fingidamente sobre um eu inexistente num mundo inexistente em que amo alguém inexistente - alguém este mero fantoche em que retrato seu rosto, tenro aos meus olhos, e certamente ao toque, que ainda desconheço.
Já é hábito meu amá-la como se estivesse me dirigindo a outra pessoa. Mesmo sendo hábito, é difícil escolher as palavras certas para criar as mentiras constantes que escrevo. E suspeito que, sendo inteligente como ela é, de nada tanto disfarce adianta; ela já me desvelou há anos.
A pior parte é a contenção. Ter de escrever tudo com meticuloso cuidado, deixando aqui e ali pistas para a verdade e para a mentira verossímil. Desta forma, engano-a um pouquinho. Até que, algum dia, eu lhe revele: "durante todo aquele tempo, tudo que escrevi e disse era só seu, e cada mulher que fiz de conta existir era apenas uma fantasia em você. Agora vou editar cada texto, cada página de cada caderno em que escrevi meu amor por você pronominalizada em qualquer uma; substituirei todos os pronomes por seu nome; cada lugar figurado por um lugar em que estivemos (e estivemos em tantos...); cada beijo que lhe quis dar pelo primeiro beijo que lhe darei; cada mentira pela verdade correspondente. E reescreverei todos os outros textos, tolos, que escrevera antes de conhecer você; colocarei seu nome em cada predição de que a encontraria, pois eu sabia que a encontraria e fatalmente a amaria, e também sempre foi certo que depois de a encontrar eu teria amado você desde o limiar de minha memória, desde quando uma moça entrou na mercearia de meu avô e me viu andando para lá e para cá e perguntou meu nome e minha idade e eu disse 'Felipe' e estiquei três e depois quatro dedos da mão direita - fizera aniversário havia pouco tempo e ainda não sabia direito se tinha três ou quatro anos -, e fiquei meio envergonhado; ah, quando eu conheci você, desde essa minha memória eu já a amava! Antes disso, não me lembro... mas decerto também já a amava!"
Quando eu fizer a ela tal revelação, estarei sendo, terei sido, sou, fora, serei um sujeito feliz, feliz.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Para uma menina com uma flor

"Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara- na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor."


Vinicius de Moraes

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Interstício


Deparo-me com o essencialmente branco painel de postagem deste blog, mas não me sinto totalmente apto a escrever, ou com assunto suficiente. Durante o dia, agora que voltei a escrever, de qualquer reflexão sobre alguma trivialidade nasce um texto em potencial para o blog. E era mais ou menos assim, antes... tirando que, nos últimos momentos, que eram o ápice, de meus dias verdadeiramente criativos do passado, comecei a converter toda essa reflexão cotidiana em adendos às histórias que tinha em andamento.
Bem, lá vai uma publicação no estilo de diário, então. Hoje não estou muito para meu habitual arremedo de filosofia. Estou é cansado para reflexões sobre meus dias; mais ainda para escrever bem.
Gosto de tomar um copão de água, gelada por dois cubos de gelo - as garrafas de água de colocar na geladeira, aqui, têm uma tampa que me parece soltar ferrugem ou algo do tipo, então prefiro não tomar delas -, à noite, antes de dormir, quando já estou pensando em desligar o computador. Acabei de tomá-lo, na verdade. De uma vez só, como sempre. Engraçado é que vou juntando os copos aqui na mesa do computador, mesmo; de repente estão cá todos os copos deste tamanho e sinto-me bagunceiro.
Dia destes estive me perguntando se as mulheres feias costumam ou não perdoar Vinicius. Terão de perdoá-lo até quando?
A reorganização de meus livros nas prateleiras de meu quarto ficou formidável.
Acho que não estou sabendo escrever este diário.
Lembrei-me de Marino, ele é quem costuma usar essa locução verbal: "não tô sabendo". Se é que bem me lembro de ele falando.
Certo mesmo era que eu não estivesse aqui escrevendo tró-ló-lós para o blog e sim estudando. Meus deveres para o feriado são: finalizar a transcrição de conversação e tecer comentário; refazer prova de Literários, graça concedida pelo professor para amenizar minha nota burlesca; estudar para prova de Clássicos, que negligenciei durante todo o semestre; começar trabalho de Literários, que farei com Paula, e por começar quero dizer ler os textos teóricos com atenção. Ando desfocado. Pelo que me conheço, passarei o feriado inteiro tendo a impressão de que o pouco que estarei fazendo é bastante e de que estarei me empenhando e, semana que vem, passarei apuros.
Não tenho ido com a frequência que gostaria ao caratê. É uma de minhas atividades diárias em que mais me aplico, mas mesmo assim... minha frequência é, muitas vezes, quebrada por meus motivos tolos.
Outro dia, talvez segunda ou terça, eu estava caminhando com uma amiga pela estação Luz. Não sei quem disse algo engraçado, e ela deu uma risada mais alta que seu normal, que já é alto. Para ser sincero, não me lembro mesmo de como tudo começou. Sei que, nesse momento, forcei uma gargalhada muito escandalosa; tal gargalhada saiu muito gostosa, e eu simplesmente não conseguia mais parar de rir gritando maniacamente, e ela - talvez por necessidade, talvez por emulação ou meramente por simpatia - deu-se a gargalhar igualmente. Durante alguns segundos inteiros e longos eu retomava o ar para rir bem alto de novo. Senti-me muito feliz naqueles momentos... como se eu estivesse rindo pelo tanto que não ri nos últimos tempos, como se eu estivesse tentando me compensar pela taciturnidade em que me encontrava.
O professor de Clássicos chamou-me de maluco - sem saber. Disse que só um ou outro doido entrava para a Letras com intenção primeira de estudar e fazer habilitação em Grego ou Latim; segundo ele, geralmente quem faz tais cursos ou faz porque não conseguiu vaga na habilitação pretendida ou porque começou a gostar dos estudos clássicos durante o primeiro ano do curso. Vir de fora, entretanto, como eu, tencionando estudar Letras Clássicas, para ele, é raridade ou mera maluquice. Vejam só. Mas gosto dele, ainda assim.
Neste momento, meus pensamentos estão se desviando para uma pessoa em especial. Prefiro encerrar esta postagem estranha por aqui mesmo, antes que se torne mais um fútil enaltecimento do amor - que é, inevitavelmente, o que virá em alguns dias.