terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"O amor pode até construir alguma coisa... mas é o ódio que transforma"

Como compensar tanta dor que o mundo nos causa?
Definitivamente não é oferecer flores a soldados. Não é pelo amor.
É tomar-lhes as armas e destruir a Casa Grande. É através do ódio.
Amor eu uso para outras finalidades. Amor eu tenho pela minha companheira e pelos meus irmãos de classe. Mesmo os que infelizmente agem contra si mesmos sem saber. Amor eu tenho por todos os trabalhadores, ainda vivos ou já mortos, de todos os tempos. Amor eu tenho pelos revolucionários que deram a vida pela teoria revolucionária. Amor eu tenho pela minha avó que morreu sem nunca observar a luta de classes por conta da televisão. Amor eu tenho pelos negros, pelas mulheres, pelos LGBTs, por todos os grupos vítimas de opressão, muitas vezes chamados de "minorias", mas que na verdade são a maioria da população. Amor eu tenho pelos esfomeados e pelos moradores de rua, crianças, jovens, adultos, velhos, de qualquer sexo, criminalizados por terem a audácia de permanecer vivos sendo miseráveis. Amor eu tenho pelos animais, todos eles, inclusive os que me servem de alimento, pela exploração absoluta e da qual nunca se darão conta. Amor eu tenho pelos grãos de areia da praia que me lembram que o universo é composto de partículas infinitamente pequenas e que Deus não existe e que somos apenas um amontoado do que restou de uma estrela que explodiu e morreu.

Por tudo isso eu tenho amor, pois o amor é que me aproxima dessas coisas, lugares, pessoas, animais. O amor constroi.
Mas somente esta é a função do amor.
O mais importante cabe a outro sentimento. Cabe ao ódio... porque o ódio é que transforma.

E eu não quero mais só a liberdade. Eu quero sangue. Quero vísceras espalhadas. Quero nossa vingança. Uma vingança que não é mais saciável. Nossa moral não é a deles. Irmã, irmão: não se iluda. Me dê sua mão. Se o que você quer é o amor, saiba que no fundo é o que eu quero também. Mas só pelo ódio todos finalmente serão livres para amar e não odiar mais. Marchemos juntos.

"Vai, encara, que nem o Rei Davi. Seu gigante vai cair, com só uma pedrada"

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A ponte

Agora eu te busquei lá no longe, nas suas estrofes corridas que não chegam mais, e lembrei-me de que era isso que eu também fazia. Apesar de aqui e ali toda hora nos últimos dias, eu ainda assim corro e agora eu reencontrei sua cor, que é vermelha, e me senti tingido e foi-se embora todo o verde que eu ainda cismava em regar. Moleca, você é mais livre que as ondas do vento mas tão dura que o diamante nem cisca. Você dobra até quase partir mas volta com força e ninguém sabia que seria tão impossível assim te quebrar. Você vai e nem me avisa e eu me engano e choro mas eu penso e você me cura dentro de mim sem nem estar aqui, como você faz isso? Eu não sei mas você é toda inteira primavera, e eu só um brotinho que se abre pra te ver.

Ainda eu te tirando de mim

Te corto em mil pedaços e com dor e prazer te vejo partindo. A lembrança de Nossa Senhora da Penha eu desdobrei e amarrei e penso em queimar, daqui uns 10 minutos; o verde me escapou dos dedos e quis se livrar, pareceu-me uma súplica. Mas o mundo verde era o seu, nunca o meu, e junto com todas as outras cores irá sumir. Dou risadas estranhas e me sinto estranho fazendo coisas estranhas que não costumo fazer, como estou fazendo agora: não sei bem o que sentir ao rasgar uma lembrança tão antiga e que me era tão preciosa. Mas... a lembrança palpável acabou. O fogo queima. E a mente, imagino, dará cabo do resto.

Um adeus simples

É preciso deixá-la ir.
Na verdade, é preciso afugentá-la.
Despeço-me com um poema,
se é que poema é isto que escrevo aqui sem rima nem régua,
se é que são versos estes últimos respiros da adolescência,
se, e apenas se, a academia me desculpar o incômodo de não servi-la nunca.
Despeço-me brevemente,
não mais aquela epopeia doce que eu te dava sempre,
mas um adeus simples e vulgar
- exceto pelo fato de que o chamo de poema,
e vocês são obrigados a aceitar que isto é um poema,
apesar de eu rejeitar a poesia e sua métrica e sua desmétrica.

Então vão embora, cartas, fotos, vídeos, textos, senhas e lamentos;
sumam ao passo que eu os veja,
voem para além da lembrança e se apaguem a 600 quilômetros de distância à beira do mar.

Não preciso desta dor
Estou de mudança
Nesta casa não mais vou viver.

Era tudo apenas um devaneio de um rapaz com tempo para uma morte lenta, rara e elegante.

domingo, 16 de agosto de 2015

Esta é a minha vez.

Tambores diabolicamente velozes bombeiam meu sangue e ditam minha pressa.

O sangue controla meu raciocínio e não há medo, não houve antes e nem haverá depois, só o que existe sou eu e a minha vez, agora estou desperto e livre, agora sou carne e osso, agora as cicatrizes desapareceram e assim também se foi a tendinite e o cisto e as dores; sou máquina.

Corre. Eu corro. Tudo que faço é fácil e veloz, indolor, mesmo quando o sangue irrompe para fora do ciclo. Tudo se realiza no mundo de ação, muito barulho indecifrável e muitos apelos à razão, mas não, agora não há razão, ela não existe. Agora, agora nada além de mim se move e todas as estrelas também param de girar, e conforme parte de mim se esvai pelo asfalto, os pensamentos voltam, mas confusos, apesar de que a dor não vem, mas deveria... o olhar não pára em lugar algum; agora eu entendo o que fiz, mas não há culpa, só estranheza, e cada vez mais... vazio... e confusão... os pensamentos não ficam, tudo foge, o corpo cede dormente, isto é o chão? Que frio... que frio...

domingo, 28 de setembro de 2014

Cansaço

Não consigo dormir.

São oito horas e meia de trabalho por dia, mais uma de viagem de ida e uma e pouco de viagem de volta, mais oito horas de sono ou tentativa de dormir todos os dias, e dessas últimas, só metade me servem ao descanso; a outra metade é de preoucupação e insônia com os problemas do trabalho e do sono, de ouvir a conversa dos vizinhos de cima por através do forro de parede-papelão, e de planejamento para tentar aproveitar as cinco ou quatro horas que sobram de cada dia para qualquer tipo de lazer, dos quais se deduzem pelo menos duas ou três para necessidades fisiológicas.

Uma hora para ler um livro ou para olhar para o teto.

A mente cansada prefere o teto.

Leio qualquer coisa durante o percurso casa-trabalho e vice-versa. Nenhum livro acaba, nenhuma história flui bem, esqueço detalhes da página anterior porque precisei descer na estação Ana Rosa para fazer a baldeação.

Já ouvi todas as músicas, e não dá nem para pegar uma nova na internet porque tenho preguiça e não sei mais como driblar os direitos autorais e o Windows tão eficaz em reiniciar meu computador quando quiser para fazer atualizações automáticas.

Antes eu não me importava com o tempo perdido e nas Casas Bahia trabalhava com o afinco que somente um auxiliar de escritório obstinado recebendo um salário mínimo e motivado pela ideia de que o trabalho enobrece o homem poderia ter. Já hoje eu trabalho de mal-humor e não me predisponho a nada, não passo meu crachá um só segundo antes do horário e nem um único segundo depois, quero ir embora correndo... sinto corpo e mente estuprados diariamente com um trabalho estúpido e repetitivo.

Tenho muito é ódio.

Tenho só 25 anos e não consigo acreditar que já tenho problemas nas articulações e na coluna, um torcicolo sem fim e a sensação de que as dores que sinto são resultado de falta de tempo para prestar atenção em minha própria saúde e para praticar qualquer atividade física que me tire do maldito sedentarismo que não é resultado de uma inata falta de motivação pessoal, mas de um esmigalhamento cerebral destruidor que só me permite sentir-me cansado. Queria sentir meu corpo forte e capaz, minha mente astuta e serena... não são todos que conseguem superar o cansaço psicológico da rotina de trabalho. Sou dos que não têm conseguido.

Ainda que eu tenha tentado despender algum esforço para voltar a escrever - sacrificando quatro horas das oito de sono - e assim pelo menos me salvar um pouquinho por dia do óbito a longo prazo, só de pensar no tempo que eu gostaria de ter para me dedicar a escrever, nos contos que comecei, mesmo nos contos mais simples que comecei aqui mesmo num blog, me desanimo... não terei tempo para tudo, somente um pouco mais, talvez, numa aposentadoria miserável quando meu corpo e mente não tiverem mais o mesmo vigor. Isso se a aposentadoria vier, isso se for possível me sustentar com ela e não tiver que trabalhar ainda mais, isso se alguma crise econômica não me confiscar a casa e a poupança e o coração. Até quando vou acumular tanto ódio? Talvez eu mate algum ricaço só pelo ódio guardado, porque afinal de contas sou só uma pessoa que sente e sofre e que quer alguma vingança barata e sanguinária por tanta dor, minha e tantas outras.

As folgas são para arrumar a casa e as férias são para resolver os problemas e o sono acumulados do ano.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Não lerei milhões de livros

Até calculei o tempo que teria para ler na vida e vi que não leria tanto quanto gostaria.

Queria ler livros clássicos e novos, ler quadrinhos e ficções e séries imensas. Ler e reler, e guardar as palavras e aprendê-las para já as conhecer na releitura, para utilizá-las em minhas próprias ficções em que eu aspirava megalomaníaco.

Hoje há muito tempo não leio com a frequência que gostaria de ter mantido para conseguir ler, durante a vida, o tanto de livros que já não me satisfaria na contagem inicial. Algumas vezes me senti mal por isso, muito mal, mas tenho encarado bem o fato de que os planos mudam conforme as necessidades.

Também agora pouco escrevo e não saberia manter mais o mesmo estilo de antes, de grande autor renomado ganhador de prêmios e para sempre idolatrado fenômeno literário e gênio de sua época e quiçá de todas, apesar de que isso talvez seja bom, porque aquelas palavras eram estúpidas demais e raras demais e intelectuais demais e não as quero mais, e se algum dia eu for rever meus textos para edição vou cortá-las todas. Deixei na casa de minha mãe a caixinha de band-aids em que eu guardava folhinhas com palavras burguesas tiradas de livros inacessíveis para sempre delas me lembrar; e esqueci onde deixei. Se encontrar, destruo.

Quem sabe um dia não consigo reorganizar a vida para conseguir voltar a um ritmo em que consiga militar de verdade, ler bem, voltar a escrever... hoje, contudo, os livros de guerreiros medievais, os de dragões e de elfos e de viagens intergalácticas e de terror e de destruição e de alienígenas e de mistério, e ainda os de ciência e filosofia; todos esses livros, que eu tanto gostava, ficarão em segundo plano...

Porque hoje quero mergulhar nos livros que me armarão cada vez melhor para lutar para que todos possam ler os livros que quiserem, e não ler apenas se não quiserem. Para que para ninguém exista só o pão, mas sim todos os pães; para que todos possam ter acesso a todos os frutos que a sociedade pode produzir.