segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

De nossos trezentos últimos encontros


Há quase dez anos, havia um canal de televisão que transmitia clipes musicais e notícias sobre jogos de videogame, e eu passava um bom tempo assistindo a essa programação que tanto me agradava. Foi nesse canal que primeiramente ouvi uma música de Los Hermanos chamada "O Vento". Gostei da gravação feita para o clipe, com uma câmera comum, e da letra da música, que não entendi, embora tenha achado interessante; decorei-a parcialmente nas poucas vezes em que vi o clipe sem, no entanto, me esforçar para memorizá-la perfeitamente.
Algum tempo depois, ao acaso cantei tal música estando junto a alguns amigos e colegas que usavam um computador da biblioteca do colégio, numa tarde após o almoço, ou antes, não sei. Não me lembro por que estávamos lá até aquela hora, nem quais eram os outros colegas; recordo-me, somente, de uma nova amiga e de como ela ficou encantada com eu conhecer essa música. Pediu-me até mesmo que a cantasse de novo. Sei, devo ter errado vários versos, mas ela decerto nem percebeu; no mesmo dia, fui procurar a letra a fim de a decorar corretamente, pois eu a cantava misturando palavras e significados.
A partir desse dia, seguiram-se vários nos quais ela me pedia que a cantasse, e aos poucos juntava sua voz a minha, primeiramente cantando os trechos mais fáceis de se decorar, depois arriscando outros e, enfim, cantando-a inteira. Confesso que fiquei admirado com o quanto ela gostava dessa música... tanto quanto fiquei admirado, posteriormente, com a sorte de eu tê-la ouvido ao acaso e memorizado alguns de seus versos para depois cantá-la casualmente naquele dia da biblioteca.
Éramos dois adolescentes sorridentes e sentávamos sempre juntos durante as aulas, após começarmos a nos falar – apenas algum pouco tempo antes de eu ter cantado a música, creio. Não a amei logo de início; nasceu-me até certa antipatia por ela quando entrou no colégio no primeiro ano do Ensino Médio. Paulatinamente é que nos fomos conhecendo – trago reminiscências de borrachas pedidas emprestadas, grupos formados aleatoriamente pelos professores, algum encontro estranho e cumprimentos atrapalhados nas esquinas dos corredores. Ela era bem magrinha e um tanto desajeitada, e não foram poucas as ocasiões em que me peguei a observar seu andar também magrinho e desajeitado. Certa vez debrucei-me no parapeito da varanda do alto apartamento onde morava um amigo nosso, que visitamos naquele dia, e fiquei a observá-la enquanto subia a rua em direção a sua casa; ela estivera conosco no apartamento – provavelmente estudávamos para alguma prova ou resolvíamos alguma tarefa escolar –, mas precisou ir embora porque iria fazer um sanduíche para seu pai; decerto já o deixara passar fome por tempo demais naquela tarde, pois saiu apressada. Conforme ela subia a rua, trajando uniforme escolar, inclusive o blusão, sendo que não estava frio, eu encontrava um pouco daquela música em mim, como cada vez mais encontrei durante os anos vindos.
Talvez isso tenha sido no segundo ano do Ensino Médio; não tenho certeza. Pode ter sido no início do terceiro, também. No meu HD antigo – irei consertá-lo, algum dia –, possuo registros de conversas de MSN que possivelmente poderão me ajudar a reconstruir a cronologia de minhas memórias dela, mas, por ora, as lembranças do colégio estão soltas desordenadas em minha mente:
Aquela vez, quando vendemos clandestinamente bilhetes de rifa pelo condomínio daquele mesmo amigo em comum anteriormente mencionado. Já aí eu fazia alguns esforços para, sempre que possível, estar com ela; e esse foi mais um esforço que deu certo, pois nosso grupo de amigos se dividiu em duplas com o propósito de vender os bilhetes, e minha dupla foi ela. Morremos de rir – ela, principalmente – naquele dia com uma mulher japonesa incapaz de nos compreender, e de mim, arriscando conversar em inglês com a estrangeira. Descíamos pelas escadas de incêndio do prédio, sentando por algum tempo nos degraus a cada dois andares visitados para ou descansar, ou contar o dinheiro, ou meramente rir. Quando eu não sabia o que conversar, apenas a admirava. Seu sorriso e seu riso, seus olhos, seu cabelo. Aquela vez, quando fizemos um trabalho de Biologia juntos. Deveríamos recortar cromossomos e ordená-los; desentendemo-nos um pouco. Todas as vezes quando eu passava pelo pátio vermelho após comprar meu lanche, procurando-a sentada a um canto com uma ou duas ou nenhuma amiga, a fim de passar por ela desatentamente, como se nunca me lembrasse de seu costume de ficar por ali, no patamar da antiga cantina – ela não chegou a conhecê-la, se meus cálculos estão certos –; era então, na hora do intervalo, que geralmente eu a cumprimentava, e suas amigas, antes de começarmos a sempre nos sentar próximos na sala de aula. Lembro-me de ela pegando ônibus no ponto em frente ao colégio, e como jogou, certo dia, estabanadamente, o bilhete único pela janela para sua amiga, depois de passar pela catraca; dessa maneira, economizavam passagens. Certa vez, flagrou-me observando uma goteira na academia aonde acompanhávamos alguns amigos que lá praticavam musculação. Lembro-me também das primeiras tardes em que comecei a acompanhá-la até sua casa, e de quando me ensinou um atalho para eu voltar à minha sem ter de percorrer um caminho bem maior. Após algum tempo, não adiantava nem mesmo eu fingir, com todo meu talento teatral, que a deixaria ir sozinha; ela somente ria e puxava-me para continuarmos caminhando. Eu teria perdido a conta de quantas vezes, mesmo depois de terminarmos o colégio, percorremos essas ruas – se tivesse pensado em contar. Vez ou outra, comprávamos um coco numa banca de frutas hoje inexistente. Conhecíamos cada detalhe do itinerário. Eu passava apertado por entre o muro de uma casa e um canteiro de coroas-de-cristo; não passar seria como não cumprir um dogma da religião de nós dois. Adiante no trajeto, pulávamos amarelinha nas pedras dispostas irregularmente num recorte da calçada. A regra era que cada dia um deveria pular e o outro, atrapalhar. De quando em quando, contudo, pulávamos juntos. Comecei a tentar encontrá-la de manhã, antes da aula, andando pela avenida no horário em que ela geralmente desembarcava do ônibus. Obtive um punhado de sucessos, que valeram a pena por todas as ocasiões em que continuei o caminho sozinho, vagaroso, na esperança de ela me alcançar, estando atrasada. Passei a chegar no horário exato da primeira aula na maior parte dos dias desde então, por me dedicar a tal empresa. Aquela vez, algum tempo antes de uma festa junina, quando os alunos foram convocados a dançar e ela disse que só dançaria se fosse comigo. Mas eu havia me recusado a participar da dança. Algumas semanas depois, porém, uma das moças que se havia voluntariado para dançar estava sem dupla, e decidi ser seu novo par... foi um erro cujo amargor ainda sinto forte. Eu não deveria ter dançado com aquela moça, e sim com ela. Aquela vez, quando fomos ao Playcenter, separados do restante da turma num ônibus com pessoas de uma série diferente da nossa. Jogamos Super Trunfo quando ela se enfadou da paisagem. No parque, na fila do Barco Viking, num hiato entre conversas, fitei-a distraidamente, até que seus olhos apanharam os meus a observá-la, e sustentamos o olhar por um breve momento. Dei-me conta de que ela era alguém que marcou minha vida até então, e que marcava naquele instante, e que marcaria dali por diante, sempre.
Após nos formarmos, nossos encontros, obviamente, se tornaram menos frequentes, mas ainda eram inúmeros. O que compensava era durarem mais tempo: tardes e noites inteiras. Ficávamos conversando no portão de sua casa, ou, algumas visitas depois, sentados na muretinha do pequeno jardim do lado de dentro. Hoje não faço mais ideia de sobre o que tanto conversávamos. Sei que nossas despedidas levavam horas e diversos abraços de adeus. Foi numa dessas ocasiões que ela me escreveu uma mensagem num cartãozinho – aparentemente destacado de uma cartela de algum caderno; não me lembro – com desenho de flores, no qual já estava inscrito “Viva cada minuto como um momento inesquecível”. Observo-o agora mesmo. A princípio eu o levava na carteira, até começar a temer perdê-lo caso me roubassem; desde então ele fica ao lado do monitor de meu computador.
Aquela vez, quando deixei de ir a um evento de inauguração do site de minha turma de jornalismo. Ligou-me a quinze minutos de eu partir ao tal evento, chamando-me para sair. Embora eu estivesse um pouco zangado com ela, por algum motivo esquecido, troquei o evento, no qual me esperavam, por sua companhia. Fiz cara feia no começo da noite, mera pirraça, mas depois nos divertimos e conversamos até de madrugada, quando voltamos andando pela Avenida Nova até nossas casas. Houve diversas outras noites nessa avenida, antes e depois. Aquela vez, quando fomos ao Ibirapuera e andamos de bicicleta. Ela atropelou uma ciclista, e ambas riram juntas, caídas. Que mais poderia eu fazer além de rir com as duas? Nenhuma se machucou, aliás. Quando ela estudava na São Joaquim, eu a visitei em vários dias, e vez ou outra combinávamos de nos encontrar no Metrô e ir embora juntos, pois ela saía da aula no mesmo horário em que eu saía do trabalho. E antes de trabalhar na empresa na qual então eu trabalhava, trabalhei numa banca de jornal na Avenida Cantareira, e lá ela me visitou algumas noites. Chegava uma ou meia hora antes de eu fechar a banca, e íamos embora juntos. Comemos muitas bombas de chocolate na padaria em frente àquela banca. Aquela vez, quando a espreitei sair de casa em direção ao ponto de ônibus e furtivamente aproximei-me tencionando perguntar-lhe, como uma pessoa qualquer, “neste ponto passam ônibus para...” – pretendia dizer “Santana”, mas tive de parar e rir, também, quando ela me reconheceu e começou a rir de minha brincadeira.
Tenho a impressão de já ter contado minhas memórias sobre ela um milhão de vezes através dos anos e dos blogs. Durante todo esse tempo juntos, constantemente cantamos a música, confundimos sua letra, discutimos suas ambiguidades e a extensão de seus significados. De todas as minhas memórias, talvez seja a letra e a melodia dessa música que reterei, se viver tanto, ainda a oitenta anos daqui, mesmo após esquecer meu próprio nome.
Numa ocasião, não sei exatamente quando, eu lhe predisse que nos encontraríamos, durante o restante da vida, apenas cerca de trezentas vezes mais. Na hora, foi apenas uma brincadeira. Quis apenas demonstrar minha insatisfação com a baixa frequência com que nos víamos. Lembro-me de que ficou um pouco irritada com a leve provocação escondida na estimativa. A partir de então, passei a subtrair uma unidade do total a cada vez que nos encontrávamos, e ao final do dia eu lhe informava a quantidade de encontros restantes. Passado algum tempo, parei de me dedicar à contagem, por algum descuido; entretanto, sei que o número de encontros restantes era de cerca de duzentos e cinquenta, um pouco antes de ela se mudar.
Fiquei sabendo da proximidade da mudança, primeiramente, por meio de sua irmã, com quem me encontrei por acaso no ônibus e que deixou escapar que “já estava tudo nas malas”; à minha pergunta sobre de quais malas estávamos falando, respondeu “ah, ela ainda não falou nada a você, né?”. Respondi-lhe que não. Mais tarde, todavia, acabei-me lembrando de que ela me dissera, algumas semanas atrás, ter algo complicado a me contar, e que estava se preparando para a façanha.
Na vez seguinte em que nos vimos, depois desse encontro com sua irmã, solicitei que me revelasse o tal segredo, que sua irmã quase deixara escapar. Abatida, disse-me que se mudaria. Ora, ela já me havia adiantado, uns meses atrás, que seus pais pretendiam se mudar – provavelmente para Vila Mariana, se não me engano. Portanto, quando me disse que a mudança seria certa, não fiquei excessivamente preocupado, e menos ainda surpreso; apenas entristecido pelo fato de que não estaria mais tão próximo dela e de que não mais percorreríamos tanto quanto antes o mesmo caminho de sempre, pelos pontos tão conhecidos nossos, a árvore macabra, o jogo de amarelinha, a banca de frutas... mas ela me disse que a mudança era para outro estado.
Até hoje cambaleio do baque. O que sobreveio dessa notícia se instalou em minha memória também aos recortes. Lembro-me de nossos últimos dias, de como fomos nos reunir com alguns amigos a fim de que deles se despedisse. Lembro-me de quando faltavam um ou dois dias para ela partir, e de que passamos a tarde juntos, não sei se com mais alguém. Ao final, já à noite, disse-lhe adeus e fui-me embora. Passei meia hora de inquietude em casa para enfim telefonar-lhe dizendo estar voltando para dar-lhe outro abraço – estava angustiado, ainda sentia em mim seus braços me apertando quando nos despedimos, mas atormentava-me a impressão de que o abraço que dei e as palavras que pronunciei não foram o bastante. Corri o caminho de volta a sua casa, talvez com medo de ela se evaporar ou porque não era capaz de simplesmente caminhar, sabendo que só por mais algumas horas ela estaria por aqui. Eu deveria viver cada um daqueles poucos minutos que sobraram como momentos inesquecíveis...
Cheguei esbaforido; ela me recepcionou com um semblante diferente do que exibia antes. Parecia abatida e desolada. Sentamo-nos dentro do carro de seus pais, ouvimos algumas músicas, só não me lembro se chegamos a ouvir Los Hermanos. Conversamos até alguns amigos seus chegarem, de carro; as despedidas dela continuariam madrugada adentro. Embarcamos no carro de seus amigos. Deixaram-me em casa.
Então ela foi embora, como o vento.
Isso foi há alguns anos, três ou quatro, acho. Visitei-a duas vezes lá, e ela veio rever São Paulo um tanto de vezes, também. Estas visitas de hoje, contudo, não são suficientes nem para dizer que minha estimativa dos trezentos últimos encontros foi realista; pode-se hoje dizer, na verdade, que eu tenha sido otimista, ainda que lá atrás no tempo eu quisesse ter sido o mais soturno dos pessimistas.
E mesmo que nos vejamos nestas poucas ocasiões, mais somos a nostalgia daquele tempo, dele nos lembrando em nossos rostos quase idênticos aos dos anos passados. É, a diferença entre o que éramos e o que somos está justamente aqui: antes fazíamos e agora apenas lembramos.
Escrevo com certa resignação, mas aceitarei o primeiro passaporte que me oferecerem para uma vida num universo paralelo onde ela não se foi para longe. Mesmo hoje, sua passagem em minha vida amplamente me atinge, seja pelas reverberações do passado, seja pelos devaneios do presente.
Vejo seu cabelo esvoaçando em todos os lugares. Em meio às milhares de pessoas que passam por mim todos os dias, ainda me sobressalto, vez ou outra, quando minha mente caçoa de mim, fazendo-me acreditar que a vi em alguma passante – isso, entretanto, hoje ocorre com menos frequência, admito, que no período logo após sua partida, quando dezenas dela sorriam para mim pelas ruas do centro de São Paulo. Penso nela quando escrevo e quando leio. Pois ela é o vento, puro e simples, e também seu barulho no trigo, chave da memória. E porque ela é linda, porque ela é meiga e sobretudo porque ela é a menina com todas as flores.

domingo, 30 de dezembro de 2012

No remoto deserto de Kaij


Há muito que já não mais distingo o tempo. O esforço é aflitivo e vão.
Caminho quase todos os dias através dos corredores e aleias e pelos níveis, vários, destas ruínas que um dia foram inexpugnável fortaleza, erigida por homens e deuses, quando nós caminhávamos lado a lado. Isso foi há mais tempo que pode a mente conceber, muito antes do ato que culminou nesta minha punição; apenas não sei se aqui estou há mais séculos que os transcorridos entre a fundação deste lugar e meu levante. As infinitudes de tempo se aproximaram desde que abandonei as medições.
Meus inimigos foram cruéis demais; mas eu castigaria com igual crueldade quem tramasse uma insurreição como a minha. Posso compreendê-los.
Quando me aventuro fora das ruínas, seres abomináveis se erguem das areias e surgem do horizonte do vasto deserto que circunda a fortaleza destruída. Desaparecem no ar assim que volto para dentro dos muros. Em certo momento, há mil vezes mil anos ou mais, enlouqueci e, a certa distância das muralhas, totalmente exposto, gritei desafios às odiosas criaturas, que não tardaram em emergir de suas submersas moradas em resposta à minha provocação. Enfrentei-os, então, por eras, armado de uma antiquíssima, mas poderosa, espada que havia encontrado perdida por entre os escombros, e com a qual achei que poderia destruí-los e escapar. Recordo-me que nela havia inscrições desgastadas à ilegibilidade correndo por toda a lâmina; certamente fora posse de vários heróis de outrora, hoje todos mortos e esquecidos. O sonho de escapar, contudo, já tinha sido previsto por meus opositores. Além de os seres jamais findarem, quanto mais me afastava das ruínas de Kaij, mais mortal me tornava e, portanto, mais necessidades e fraquezas mortais se me impunham. Antevi que ficaria cansado de lutar, sentiria sede e fome, calor e frio no clima adverso deste pedaço de mundo deixado ao oblívio, e pereceria.
Certamente outros prefeririam a morte ao eterno castigo; mas estes não são eu. Minha ira é demasiado grande para que eu desista da existência, e aumenta cada vez mais.
Nas entranhas desta construção abandonada há o verdadeiro lugar em que fui aprisionado, onde eu sou eu mesmo, imortal, indestrutível, terceiro em força entre todos. Trata-se não mais de Kaij, mas de um interstício entre as dimensões, o terrível Nada, em que todo meu poder, embora eu possa senti-lo fluindo pujante por todo meu ser, é estéril. Quando digo que meus inimigos foram cruéis, faço menção mais do que ao simples aprisionamento: refiro-me a terem interligado meu verdadeiro cárcere às profundezas desta construção esquecida e, principalmente, refiro-me ao artifício - criado por meu primo, cuja vida primeiramente ceifarei com imensurável prazer antes de todas as outras, quando eu conseguir me libertar - que mina meus poderes quanto mais me afasto da prisão entre dimensões. Quando ando por Kaij, sou livre, porém somente um homem; fortíssimo, mas um mero homem. Um excelente convite à loucura e ao ódio. Seria menos doloroso estar confinado eternamente apenas ao Nada. Mesmo assim, não sou capaz de não retornar às ruínas, pois aqui deve certamente haver um meio de escapar. Pagarão por este sarcástico capricho.
Vez ou outra vou ao torreão mais alto e observo os horizontes além do horizonte do deserto, graça atroz que me concederam meus inimigos. Vejo gerações de homens guerreando, conquistando, raramente gozando períodos de paz. Posso vê-los todos, nos diversos cantos do mundo, observar cada vida isoladamente ou a humanidade como um todo. Vejo também as interferências dos deuses e seus planos, e posso jurar que eles também podem me ver aqui, pois não é com pouca frequência que seus olhos encontram os meus, embora nunca tenham deixado transparecer quaisquer outras provas de que me observam - talvez com júbilo, ou pena, ou desprezo, ou indiferença; sei o que cada um deve sentir por mim, mas por todos sinto somente ódio.
Durante essa observação do mundo distante é que me apercebo de que o tempo flui além de meu discernimento. Aqui não há distinção entre noite e dia, ou talvez seja que ambos existam simultaneamente. Não há marcas no céu. Sua cor indecifrável é a mesma quando chove, quando o violento vento assovia por cada fresta entre as pedras dos maciços muros da fortaleza, quando o frio congela o tutano de meus ossos ou quando o calor evapora o líquido de meus olhos. Se volto para minha prisão quando o clima se faz torturante, o fluxo de tempo para em Kaij, apenas para aguardar meu retorno, a fim de que eu continue a sofrer como antes, de acordo com a vontade do clima e pela duração apropriada ao meu desespero.
Este lugar assombra o pensamento dos homens. Poucos se atreveram a chegar mesmo a quilômetros de distância daqui. Se eu ao menos pudesse atrair alguém para cá, eu poderia escapar, mesmo que na forma humana. Conheço o caminho para a morada dos deuses, esquecido pelos homens. Haveria uma chance de eu me libertar se liderasse um exército grande o bastante para ameaçar meu primo. Seria possível. Será.
Uma vez liberto, não falharei de novo; assassinarei todos os deuses e reconstruirei o mundo.

----------

O primeiro dia da longa e há muito esperada viagem finalmente chegou. Desde sua infância, o sonho de desbravar os Confins jamais perdeu a força. Obteve, a muito custo, documentos e mapas tidos como perdidos; duas vezes, inclusive, quase os pagou com a própria vida. Sua posse, ele a omitiu de todos até o momento de anunciar sua derradeira busca, para a qual arregimentou os mais fiéis e bravos amigos e guerreiros; mas apenas a seu filho, já um rapaz alto e robusto, segredou que ocultara documentos e mapas que há eras os sábios desistiram de procurar.
- Os homens temem os lugares destruídos pelas guerras lendárias e onde os deuses caminharam, filho. Eu, porém, sempre quis conhecê-los; sinto que pertenço mais às cidades antigas do que a todas as outras.
Com sua eloquência e carisma, havia conquistado já há algum tempo o favor dos intrépidos homens que agora o acompanhariam na longa jornada pelas áridas terras dos extremos do mundo conhecido, onde seres lendários e acontecimentos incríveis - alguns nem mais lembrados pelos contadores de história - supostamente existiram e aconteceram numa época distante no tempo.
Existe um sentimento sinistro, talvez causado pela extensa e desértica desolação que leva aos Confins, que sempre surge à mente dos homens nos limites do descampado de Nim, desencorajando-os e impedindo-os de seguir adiante. Talvez seja o temor de um poder ancestral e nocivo, talvez o simples receio de perecer no deserto. Para ele, entretanto, esse sentimento que a todos afasta é inócuo; pelo deserto sente só atração, como uma convocação à qual não pode declinar, e não apenas isso: seu maior desejo e ambição é conhecer aquela região do mundo olvida por todos. Aos poucos conseguira incutir em seus companheiros parte de seu entusiasmo, mais que o bastante para que rompessem com o naturalizado medo dos Confins e para que vencessem o angustioso sentimento que demarca a fronteira de Nim.
- Carreguemos os animais com os suprimentos - disse aos companheiros, apreciando o amarelado horizonte ao qual se dirigiriam. - Em uma hora, quero partir.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Vindouras, vindas e findas amizades


Sei que as pessoas aparecem e somem de nossas vidas e é impossível retê-las todas; o tempo não nos permite. Tentar sustentar até o final da vida todas as amizades iniciadas é utopia porque o tempo que dispomos para mantê-las vivas e interessantes vai-se tornando breve conforme novas amizades surgem. E há o trabalho, há o estudo, há a recreação solitária – pela qual, particularmente, muita estima tenho –, há o sono... não há tempo, simplesmente não há tempo para despender em amar todas as pessoas que gostaríamos de amar e da maneira como gostaríamos.
Acho isso bastante aceitável; no fundo, é mera questão de lógica. Leva-nos a selecionar pessoas com as quais desejamos conviver mais. A maioria de nós, acredito, prefere ter poucos e bons amigos a tê-los muitos e intimamente desconhecidos. Enquadro-me nessa maioria. Aceito plenamente que grande parte das pessoas com quem já gostei de conversar algum dia não mais converse comigo atualmente. Amei-as, sim, de certa forma leve e pacífica; e mesmo amando assim, apenas pouco, minha vida estará sempre marcada pela sua presença, ainda que passageira. Até vejo certa beleza nisso; porém somente se for dessa forma, com esse singelo desapego.
Aceito, também, mas só após muito contestar e brigar, que grandes amigos de longa data também saiam de minha vida. Vejo como uma seleção dentro de um período de tempo maior. Isso, contudo, é aflitivo. Porque eu quis amá-los para sempre durante todo este tempo; é diferente daquela primeira seleção, que tira da quase indiferença ou mero coleguismo alguém com quem se pretende construir uma amizade. Neste caso mais triste, que é como uma segunda seleção, tira-se do grupo de pessoas amadas alguém com quem não mais se conviverá como antes.
Portanto, pelos motivos que expus, não me apegarei, desesperadamente, a todos os sorrisos que encontrar durante minha vida. Algumas pessoas se afobam em manter um contato breve e raso com milhares de amigos e talvez jamais se sintam verdadeiramente unidas a alguém. Não vejo proveito nisso; chego a preferir quase o outro extremo.
Sugiro somente que não me hostilize quando perceber que não sou alguém que você tiraria da indiferença primordial, porque tal agressão é tola e risível e em nada me afetará. Só tornará você uma pessoa indesejável. Você não precisa tentar criar inimizade por quem não quiser amigo. Essa primeira seleção geralmente é indolor para os não selecionados – e, no meu caso, não causa o menor transtorno. Basta não demonstrar o intento de me amar.
O grande problema, como já disse, é a segunda seleção... e se você for me escolher para não mais me amar como me amou por todo este tempo, demonstre isso, diga-me pelo menos alguma mentira, diga-me que se mudou ou que vai se mudar para a Austrália, diga-me que não tem muito o que conversar, a vida anda numa monótona misantropia deleitosa e nela você pretende continuar, diga-me que você não tem tempo; isso, diga-me que não tem mais tempo, este que é o principal agente no cultivo da amizade, este que torna especiais as rosas e prazeroso o barulho do vento no trigo, porque assim entenderei que fui selecionado e saberei agir. Poderei tentar mudar minha amizade com você a fim de continuarmos amigos, se eu achar que me vale tanto a este ponto; mas, se eu contestar e brigar e ainda assim você me disser que não, saberei agir. Só não me esqueça à indiferença, tampouco me hostilize, porque aí, sim, vou me preocupar e me agitar e me desesperar achando que fiz algo de terrivelmente errado e danei todo o amor que tínhamos. Diga um sutil adeus; agora sabe que entendo você. Não tenha vergonha ou remorso; assim é a vida. Sofrerei e ficarei magoado, isso é óbvio, pois, embora saiba aceitar, não o faço levianamente. Rememorarei todas as nossas conversas e risadas, as discussões, os presentes, os olhares, os abraços, os encontros combinados e os fortuitos, a primeira vez que nos vimos; enfim, o momento quando nos selecionamos da indiferença... esta última é a lembrança de nossas vidas juntos que mais retornará à minha mente sempre que de você me lembrar.
Será ainda mais dolorido, e lutarei ainda mais ferozmente contra a separação, se você for alguém que desejei amar além da amizade; isso ocorre tão frequentemente comigo...
...mas, apesar de tudo, adorei tê-la conhecido, continuemos amigos ou não. E todos vocês.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Pastilha para dor de garganta

            Fui comprar um remédio para dor de garganta hoje à noite, depois do trabalho, antes de pegar o ônibus para casa. Pedi ao atendente que me indicasse onde estavam as pastilhas da marca X. Ele me apresentou três sabores que a marca oferece; eu, então, com grande discernimento e sempre buscando manter o raciocínio aguçado, detive-me ante uma necessidade de escolha aparentemente banal.
            Talvez meus atributos lógicos estivessem um pouco falhos após a leve liquefação cerebral promovida pela intensa e agressiva monotonia infindável do trabalho de poucas, mas exaustivas horas. Porque entre as opções havia o sabor framboesa (adoro o sabor de framboesa, embora não faça ideia do que seja uma framboesa, se vegetal ou animal ou mineral ou, sei lá, alienígena, ultradimensional, enfim, porque só o que comi com sabor framboesa até hoje foi gelatina de framboesa, e sempre que comi, gostei; por isso a framboesa tem todo este meu apreço, mesmo sendo-me uma incógnita completa, e vocês podem até me achar um tolo, mas não me incomodo) e o sabor menta (menta é um sabor extremamente comum para balas, e eu gosto bastante de menta, embora talvez nem tanto quanto framboesa, mas isso quanto ao sabor em geral, não pensando em sabores de balas, pois nunca havia comido balas de framboesa para dizer se gosto mais de uma ou de outra; se bem que também nunca comi gelatina de menta, o que invalida meu argumento anterior; mas na verdade o que importa é dizer que o sabor de menta provavelmente seria agradável porque cai bem em balas, ou pastilhas, dá na mesma), mas escolhi, após aquele momento em que me detive, durante o qual fiz certo tipo de reflexão cujos mecanismos obscuros até agora não atinei, justamente o último sabor:
            Mel-limão.
            É possível, sim, escolher a pior opção. Não me espanta mais o mundo ser como é. Nunca provei algo tão ruim. Jamais comprem pastilhas de mel-limão da marca X para dor de garganta.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O temor de perder alguém no vasto mundo; depoimento à amada

Por um momento desesperei porque achei que jamais veria você de novo; fui depressa aos registros do MSN antigo para tentar encontrar seu nome inteiro (confesso, não me recordo) em algum lugar, mas o que tenho de melhor de você – daquela época quando a conheci e quando você me disse que se casaria comigo, que deveríamos nos esforçar para nos encontrarmos e superarmos as dificuldades para nos amarmos como naquele arroubo nos amamos; sim, eu amei você, amei por pouco tempo, mas amei demais, demais... –, o que tenho de melhor de você está no HD do computador antigo, que está travado e que só com a ajuda de algum profissional em recuperar HDs travados conseguirei resgatar; guardo-o na gaveta de minha cama e espero algum dia poder ver novamente nossas conversas maravilhosas que lá tenho salvas, nossos diálogos sobre literatura e amor e paixão e nossos flertes adolescentes que facilmente me evolavam ao fértil mundo do sonhar acordado. Então foi quando pela segunda vez em poucos minutos desesperei, porque não encontrei seu nome, pois o que tenho no computador atual são só nossos frágeis últimos pedaços. As condições de nosso encontro foram tão fortuitas e acho que não conseguiria reproduzi-las jamais; eu poderia ter perdido você para sempre! Ainda mais sem seu nome, sem saber se você ainda mora no agitado litoral, minha única alternativa para reencontrá-la seria viajar para a outra ponta do país e procurá-la em cada casa, tarefa que me exigiria uma vida inteira e que quase certamente não daria resultado...
Em meio a este segundo desespero, lembrei-me de quando conheci você, puxando assunto numa enfadonha conversa sobre cultura; você falava com todos sobre tudo e sempre estava impondo seu ponto de vista – algo aceitável, porque o que os outros diziam eram baboseiras sem sentido e você possuía o domínio argumentativo típico das pessoas que não necessariamente passaram a vida inteira estudando, mas das que nasceram banhadas pela facilidade de adquirir conhecimento –, e eu, quando me atentei aos seus dizeres ("vamos ver se esta moça aqui, que fala sem parar, de fato, fala algo interessante"), desisti de todas as outras conversas e ignorei todos os outros: só tinha olhos para você. Esperei pelo momento oportuno de tentar uma aproximação, especialmente procurando por um assunto que eu também dominasse, para que você não me estapeasse psicologicamente logo de cara como fazia com todos os outros; não me lembro bem como foi que comecei a papear, mas, se não me engano, foi aos poucos, e fazendo comentários sobre as pessoas com quem estivera conversando antes: "eu estava aqui pensando em como deve ter sido duro para você ter de conversar com Fulano; que pensamentos arcaicos ele expôs!" – coisas assim, o que era tão tipicamente meu modo de agir, pois eu, como um bom recém-adulto, só queria mesmo era demonstrar minha aparente segurança  em que eu, é claro, ingenuamente acreditava – em relação ao domínio precoce das artes e da filosofia, mostrar-me o jovem prodígio incompreendido da tormentória capital paulista; em você vi meu reflexo feminino, e pensei: "que belo!". Sabe, naquele dia, se bem que acho que já lhe falei isto, mas naquele dia eu tive uma de minhas maiores crises de tédio e não sabia mais o que fazer com os segundos que escoavam, chorando sua preciosidade; aquele dia foi o acme do aborrecimento fastidioso que viera se instaurando em mim não sei por qual motivo nem por quanto tempo – mas é provável que tenha se iniciado com alguma decepção amorosa, sentimento em mim tão recorrente –, eu não conseguia escrever sequer uma linha de minhas incríveis histórias, nem uma linha de qualquer delírio, não tinha vontade de ler livro algum, nem de sair com pessoa alguma, nem de dormir, nem de ficar acordado, e lembro-me de desejar que eu pudesse me desligar até que o momento do tédio passasse; mas então me apercebi de que o tédio era produto exclusivamente meu, o momento não estava no mundo exterior e, portanto, seria congelado e descongelado comigo e de nada adiantaria.
Querida, amada, conhecer você foi minha redenção naquele dia, e fez-me acreditar que o acaso, ainda que comumente um louco espalhafatoso com pendores destrutivos, às vezes nos agracia com uma aleatoriedade que nos serve de maneira maravilhosa.
Então aqui estava eu, revivendo aqueles dias em que fui feliz, eu juro, fui feliz de verdade, e agora até lacrimejei ao jurar, fui feliz de verdade com você, ainda que nosso contato fosse pouco e distante; então aqui estava eu, parafusando nos motivos que me levaram a querer me afastar de você, motivos tolos, imbecis – que eu poderia superar! –, num torpor de recordações de seu rosto e de seu corpo – também me apaixonei por suas pernas, e sempre que você se levantava para ir à cozinha tomar uma água, eu não podia evitar olhá-las –, quando sobressaiu-me à vista seu e-mail. Sempre me esqueço de que é possível encontrar as pessoas nas redes sociais virtuais também por essa maneira.
É um novo momento de desespero colocar seu e-mail na ferramenta de busca, o temor por não obter resultado sapando-me numa preparação para me derrubar; revê-la pareceu-me, nesse instante, improvável e apenas um sonho de um bobo; entretanto, reencontrei-a. Esta parte de mim que é você não está, ainda, perdida para sempre de volta ao caos do mundo.
Vejo agora seu rosto gentil com maquiagem escura – aparentemente caracterizando alguma personagem de alguma peça teatral em que você atuou em algum momento, decerto posterior ao nosso vago adeus, de sua vida repleta dessa felicidade de quem sabe que nasceu para encenar, ou simplesmente de quem sabe que nasceu para determinada aplicação, seja qual for –, mas que por trás da maquiagem é exatamente igual ao que eu quase esqueci por um descuido deste coração que definitivamente não sabe amar, pelo menos não como deveria, como a maioria das pessoas; por trás da maquiagem tenho certeza de que seu sorriso juvenil e sensual ainda começa pelo canto esquerdo da boca de lábios carnudos que então se estreitam graciosamente, sorriso convidativo como seu piscar de olhos... conjuntos, faziam-me delirar. Por muito tempo, não sou capaz de parar de ver sua foto do perfil; descobri num átimo que sentia saudade demais de você.
Você ainda escreve encantadoramente, como quando a conheci, ainda parece alheia à sobriedade do mundo, ainda mora no mesmo lugar, mas não sei se ainda estuda o mesmo curso na mesma faculdade, coisa que fiquei sabendo numa das últimas vezes que falei com você; mas quanto tempo isso faz?
Esta corrida era só para não a perder assim de vista, porque acho que não vou conseguir me reaproximar de você, é quase impossível que voltemos a nos falar, nas últimas vezes mal parecíamos qualquer coisa entre conhecidos, amigos, pessoas que algum dia estiveram apaixonadas uma pela outra...
Talvez tudo isto tenha valido apenas para eu fazer, enfim, a derradeira confissão de meu amor por você – naqueles dias de namorados, era sempre você, Deborah, quem primeiro dizia que me amava para, só depois, eu dar uma vaga resposta, que era sempre comedida; este meu medo de revelar que fui atingido por Eros privou-a durante todo este tempo de conhecer a íntima natureza de meu sentimento por você, que só agora deixo aflorar.
Deborah, eu (não posso dizer simplesmente que a amei, o verbo no pretérito, como se nosso envolvimento fosse um mero quadro de anos passados e saudosos, porquanto isso seria apenas uma mentira conveniente que me ajudaria a amenizar minha consternação por não estarmos mais juntos) amo você. Ao final, este lugar-comum.

domingo, 18 de novembro de 2012

Oculta num pronome


Algo que lamento é não poder, ou achar que não posso, nem dever, ou achar que não devo, talhar seu nome em cada declaração que a ela faço. Porque, se pudesse, não haveria de metamorfosear meu amor num outro, inexistente fora de meus pensamentos, para escrever fingidamente sobre um eu inexistente num mundo inexistente em que amo alguém inexistente - alguém este mero fantoche em que retrato seu rosto, tenro aos meus olhos, e certamente ao toque, que ainda desconheço.
Já é hábito meu amá-la como se estivesse me dirigindo a outra pessoa. Mesmo sendo hábito, é difícil escolher as palavras certas para criar as mentiras constantes que escrevo. E suspeito que, sendo inteligente como ela é, de nada tanto disfarce adianta; ela já me desvelou há anos.
A pior parte é a contenção. Ter de escrever tudo com meticuloso cuidado, deixando aqui e ali pistas para a verdade e para a mentira verossímil. Desta forma, engano-a um pouquinho. Até que, algum dia, eu lhe revele: "durante todo aquele tempo, tudo que escrevi e disse era só seu, e cada mulher que fiz de conta existir era apenas uma fantasia em você. Agora vou editar cada texto, cada página de cada caderno em que escrevi meu amor por você pronominalizada em qualquer uma; substituirei todos os pronomes por seu nome; cada lugar figurado por um lugar em que estivemos (e estivemos em tantos...); cada beijo que lhe quis dar pelo primeiro beijo que lhe darei; cada mentira pela verdade correspondente. E reescreverei todos os outros textos, tolos, que escrevera antes de conhecer você; colocarei seu nome em cada predição de que a encontraria, pois eu sabia que a encontraria e fatalmente a amaria, e também sempre foi certo que depois de a encontrar eu teria amado você desde o limiar de minha memória, desde quando uma moça entrou na mercearia de meu avô e me viu andando para lá e para cá e perguntou meu nome e minha idade e eu disse 'Felipe' e estiquei três e depois quatro dedos da mão direita - fizera aniversário havia pouco tempo e ainda não sabia direito se tinha três ou quatro anos -, e fiquei meio envergonhado; ah, quando eu conheci você, desde essa minha memória eu já a amava! Antes disso, não me lembro... mas decerto também já a amava!"
Quando eu fizer a ela tal revelação, estarei sendo, terei sido, sou, fora, serei um sujeito feliz, feliz.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Para uma menina com uma flor

"Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara- na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor."


Vinicius de Moraes