domingo, 26 de setembro de 2010

Alguma coisa?

     Não, isto é sobre absolutamente nada. Ou tudo. Cada um acredita no que quiser: o enorme espaço que não é ocupado pelas partículas elementares, que de fato é maior que o tangível mundo da matéria, pode ser visto como um imenso vazio. Entretanto, certamente há os que acreditam que ali existe, seja da forma como queira existir, muito recheio, que vive se perguntando:
     "O que são estas coisas que existem entre nós, no espaço que não conseguimos ocupar?"
     Existe outro universo, ou vários outros, neste mesmo lugar em que estamos, ocupando teoricamente o mesmo espaço que o nosso? Será que há sombras de nós mesmos, naqueles diversos lados deste mesmo espelho, que pouco sabem do que realmente é feito aquilo que as constituem, assim como sabemos que nossa química e física não têm base alguma? Há alguma outra crença, algum outro nível completamente desconhecido de relação com seus deuses? Ou uma fluidez maior de tempo e de espaço? Ou, quem sabe, nossos deuses estejam lá, dos outros lados, procurando por nós, pelo pedaço de si mesmos que não conseguem encontrar. Somos os deuses deles, escondendo inconscientemente segredos que eles buscam incansavelmente. Assim como nós, assim como nós.
     Enfim, nada sobre nada, ou um poço fundo de água límpida.

Abandone o estilo

     Deixe de lado as comparações e a outra metade de metaforismos diversos. Renuncie à narrativa impecável, à obrigatoriedade de seguir tempos verbais à risca, perca a fluidez. Pare de medir os parágrafos com os dedos. Pelo menos por alguns instantes, ou dias, ou meses, anos, o tempo que precisar, durante o tempo em que se sentir bem, até se sentir renovado.
     Livre-se da obrigação clássica de ter que inovar, e inove simplesmente por não inovar em nada, e até disserte sobre isso, sobre as razões disso, sobre a previsibilidade elevada a si mesma, esta loucura consciente. Deixe a entender esta novidade de forma que se percam tentando tirar a prova real, o seu motivo último.
     Abandone o estilo. Abandone os padrões, todos eles, que desde sempre conseguiram te reger. Livre-se da rima rica, das irmãs coesão e coerência e, enfim, esqueça que a literatura implica em algum tipo de compreensão e se deixe levar em absoluto pelo devaneio eterno de sua imaginação.

Os 19.500 caracteres

     Pensei em escrever coisas avulsas aqui, e comecei agora. Reparo que este editor de texto é lento demais, às vezes tenho que esperar alguns segundos pra ver se não escrevi algo errado e consertar. Também, lento como é, trava meu fluxo de pensamentos, pois não me permite acompanhar meu texto enquanto escrevo, e sempre perco o fio da meada. Entretanto, mesmo que eu tivesse um gravador de voz e falasse tudo que me vem em mente quando me dá a louca, eu perderia o raciocínio. Parece que, embora em minha mente as palavras soem como minha voz e num ritmo normal, assim que tento transferir para o mundo de fora as imagens, sons, ou seja lá o que for que se passa aqui no mundo de dentro, percebo que meus músculos não são velozes o suficiente para acompanhar a velocidade do meu cérebro. Deve acontecer com todo mundo, provavelmente, mas não acho que as pessoas perdem muito tempo pensando nisso. Há coisas mais legais a se pensar.
     Hoje, por exemplo, li numa revista que sabe-se que cães têm sonhos, mas não se sabe sobre o quê. Não é bacana? Logo imaginei uma história cheia de conspirações, num futuro distante, quando os cães e os gatos evoluíram a um nível como o dos humanos, desenvolvendo uma linguagem própria e aprendendo a nossa, libertando-se de nossa tutela, para em seguida libertarem-se do preconceito que certamente teremos deles, e então, finalmente, construindo suas próprias cidades e contribuindo com o avanço tecnológico do planeta. Às vezes pensamos sobre invasões alienígenas, um povo de outro planeta chegando no nosso, seja em paz ou não. Não seria estranho para eles se, ao chegarem aqui, descobrissem que nosso planeta, ao contrário do deles, deu a chance para três espécies totalmente diferentes se desenvolverem ao mesmo tempo? Talvez até desagradável, caso estivessem planejando um ataque. Imaginem só: humanos, caninos e felinos juntos, com fuzis, dentes e garras, agindo em conjunto contra uma força desconhecida? Espero que ninguém me roube essa ideia, acho que daria uma boa história.
     Enquanto eu escrevia o parágrafo acima, e a frase em que estamos, consegui transcrever uma das coisas que pairava em meus pensamentos, a troco de perder pelo menos outras cinco coisas. Já tentei controlar esse problema escrevendo, para cada ideia, uma palavra-chave, a fim de me lembrar do que pensava quando escrevi cada uma, e de dar continuidade ao pensamento. Mas logo me esqueço. Surgem outras milhares de coisas geniais, e mais mil palavras-chaves, que viram só um bocado de palavras inúteis, seus significados todos perdidos. Esvaziar a mente de uma ideia usando apenas uma palavra não serve pra nada. O cérebro pensa "firmeza, vou guardar a informação lá nos arquivos e deixar catalogado pra eu buscar depois, quando ele precisar". Mas aí ele deixa o papel com os registros cair, e um neurônio louco para mostrar serviço logo trata de se desfazer daquela informação sem nexo, e tudo se perde para sempre.
     E eu aqui, escrevendo um monte de coisa sem ligação, perdido na balada, publicando anacolutos por atacado e varejo, enquanto podia estar dando continuidade aos meus "trabalhos". Mas qual é mais importante? O texto bonito e sem erros, com intenção de ter intenções, ou este amontoado de besteiras? Tenho aqui ainda 15.684 caracteres disponíveis, e talvez eu os use, sim. Acho que ler tudo isso de uma vez só seria como lavagem cerebral. Ia ser menos doloroso se a pessoa lesse um parágrafo numa hora, depois lesse outro, e não na ordem normal. Podia começar de qualquer um, pensar sobre o nada que ele fala, e depois ler um outro, outro dia, sei lá. Eu devia ter falado isso no primeiro parágrafo, mas não quero editar o texto. Acho que vou revisar só uma vez, antes de publicar, bem por cima mesmo.
     Acabou de entrar uma pessoa no meu MSN, mas nem vou falar com ela. Acabei de tomar um Danette, o normal, de chocolate, bem gostoso. Outro dia cantei pneu com o carro, mas e daí? E daí digo eu para o meu "E daí?". Cada momento que eu vivo não é digno de recordação? Seria eu mais feliz se cada coisa bacana ou engraçada que me acontecesse pudesse ser gravada para que eu mostrasse aos meus amigos? A gente bem que podia ter três vidas paralelas, uma pra dormir, outra pra viver e outra pra compartilhar a anterior com os outros. Aliás, a parte de viver também podia ser dividida, uma pra trabalhar e juntar dinheiro, totalmente sem emoções, outra para a família, outra para amar alguém, e outra para correr atrás dos sonhos mais grandiosos, vontades mais impulsivas e absolutas, e desejos mais loucos. 24 horas para cada vida paralela. Acho que podia ter mais uma pra dormir também, aí seriam duas vezes mais descanso por dia, já que serão mas vidas. E claro que essas vidas poderiam se cruzar em determinados momentos, como um sonho grandioso com a parte do trabalho, ou desejo louco com o amor, coisas assim. Seriam tão independentes quanto cada um de nós nos achamos independentes de nós mesmos.
     Eu estava vendo meu flogão antigo outro dia, e parei numa foto que eu coloquei várias alternativas para a expressão do meu rosto na foto. Uma das alternativas era "estava espantado, pois tinha acabado de ver no dicionário a palavra morremorrer, e ficou pensando sobre quantas palavras estranhas existem". Entre outras alternativas totalmente imbecis e engraçadas. Foi um bom dia de pensamentos desconexos. Algumas vezes fico com receio de publicar qualquer coisa na Internet, ou até mesmo escrever no Word, pois tenho medo de que me roubem minhas ideias. Meu computador já tá tão bichado que nem sei como já não foi para o Paraíso dos computadores. Ah, acho que meu computador vai pro céu, ele é um lutador, sempre me ajudou, embora esteja cada vez mais lento, mas eu também ficarei lento quando estiver chegando ao fim de minha vida. Não o culpo. Espero que não me tratem da maneira que eu o trato, quando eu estiver velho como ele. Eu o desligo direto no botão do estabilizador, quase sempre, e também o encho de pancadas e tesouradas, na vã esperança de que ele funcione melhor por se sentir ameaçado.
     Falando nisso, numa outra revista eu li que o hábito dos humanos de conversarem com objetos inanimados ou seres que não entendem nossa linguagem vem desde os tempos das cavernas, mas não me lembro por quê. Pelo menos, se é algo natural, ninguém pode se julgar louco por conversar com jabutis ou pedras ou cabos de panelas ou tapiocas. Eu mesmo converso direto com as moedas lá do caixa da banca onde tenho trabalhado esses dias. Elas sempre me ignoram. Até tento fazer umas brincadeiras legais pra ver se elas perdem a timidez, mas nunca nem mesmo um ruído consegui tirar delas. Não tem problema se elas não souberem falar minha linguagem, mas há gestos universais de alegria ou ódio. Dá pra reconhecer em qualquer coisa.
     Ainda faltam uns 10.000 caracteres, e nem to com vontade de conferir o número exato. Também acho que não vou ter mais nada pra escrever logo mais, e não sei se vou conseguir gastar todas essas letrinhas que serão arquivadas no infinito espaço virtual. Li em outra revista que já existem unidades de medida virtual estupidamente abrangentes. Uma delas é o petabyte, e tinha lá na revista uns gráficos de quanto um petabyte equivale, mas eu me esqueci. Só sei que acima desse cara está o exabyte (na verdade, não sei se escrevi certo, nem se o petabyte é inferior ao exabyte ou vice-versa, mas sejam meus amigos) e, segundo um gráfico lá, que eu me lembro, pois fiquei abismado e me senti totalmente desprezado por ele, 20 exabytes seriam suficientes para arquivar todas as palavras que todos os humanos disseram, se forem transcritas, e escreveram em toda a sua história. Ou seja, desde o uga buga, passando pelos clássicos de Shakespeare, até isso que eu estou escrevendo agora, estaria disponível em um único megacomputador. É de acabar com qualquer sonho de grandeza literária.
     O ser humano criou seu próprio Universo infinito. Se antes a gente já se sentia um lixo imaginando nosso tamanho diante do Universo real, o Universo virtual está cada vez mais ilimitado. Será que algum dia transporemos as barreiras do mundo físico? Quando o Universo real estiver acabando, daqui sabe-se lá quantos mil bilhões de anos, vai ser possível escapar para uma dimensão virtual e esperar que um novo Universo surja de um novo Big Bang, que tudo se estabilize para que possamos voltar ao mundo físico? E, pense: não vai chegar uma hora em que nada mais vai fazer sentido (se é que alguma coisa já faz)? Onde estamos é físico, virtual? Ou uma mescla dos dois? Será que já passamos por isso e esse é o 2º Universo que vivemos? Pode ser que a civilização humana do Universo anterior tenha ficado presa no Universo paralelo dela.
     Por qual motivo o Uol Blog disponibiliza tantos caracteres? Já tô com a tendinite atacada aqui, de tanto escrever. Será que todos os blogs são assim? E se um cara que tem compulsão por gastar tudo que lhe é oferecido criar um blog aqui? Imagina só, o cara vê 19.500 caracteres disponíveis e vai se matar de escrever mil coisas. Aí ele acaba de postar e aparece de novo lá, 19.500 caracteres disponíveis pra uma nova postagem. Não é de deixar o cara maluco? Ele vai extrair tanta coisa dele mesmo que pode acabar se esquecendo de quem é. Coisa de louco. Isso pode dar em processo. E só de pensar que tudo isso cabe lá nos 20 exabytes, então? Frustrante. Muitas pessoas vão pensar em suicídio quando essa notícia chegar a todas as pessoas do mundo.
     Estive lendo, também, sobre como um livro é analisado para que seja declarado um clássico. Pelos livros que disseram lá, e que eu tenha lido, o cara tem que criar tantas entrelinhas quanto linhas na história. É pura insanidade. Não que cada palavra que escrevemos não esteja repleta de significados diferentes do comum, mas tinha uns lances mais complexos na matéria lá. Só não sei mais o que dizer sobre isso. De qualquer forma, grande porcaria, tudo vai pros 20 exabytes. Declarações de guerra e amor, frases impecáveis e rabiscos semianalfabetos, até mesmo todas as palavras engraçadas do Volp 2009. Acho que serei um dos suicídas.
     Acabei de falar pra um amigo meu sobre eu estar escrevendo todos os 19.500 caracteres que me deram aqui no blog. Amigão dos tempos de escola primária. Disse ele "quero só ver". E ele já está se retirando do MSN pra ir dormir. Passou–me um trailer de um filme pra eu ver. O cara é um cinéfilo feroz. Eu o desencorajei de ler esse monte de porcaria que estou escrevendo, mas é possível que em um mês ele consiga ler tudo, aos poucos, pacientemente. Falei pra ele que ia escrever sobre isso também, então ele sabe que é sobre ele a quem me refiro aqui. Um abraço, juventude. O filme é ambientado na Pérsia. Hoje eu li uma história da Turma da Mônica que se passa lá na Arábia. Estou pensando sobre como esse tipo de lugar tem ambientes perfeitos para as mais fantásticas histórias. Roupas impressionantes, palácios suntuosos, cultura interessantíssima. Um lugar bem melhor do que o Brasil ou os Estados Unidos, para se colocar personagens. A cultura ocidental é cheia de super-heróis estrelinhas e babacas, prefiro os mais estilosos do lado de lá. Corrijam-me se eu estiver errado, mas é que já foram muitos caracteres
     Eu estou com um pouco de fome. Peguei um biscoito pra comer aqui, mas ele tá murcho. E nem tá vencido, essa porcaria. Mas não tô interessado em comer mais nada. Passo fome mesmo. Ah, e abandonei o "estilo" desde o 1º parágrafo. Não me venham com frescuras da Academia Brasileira de Letras se eu usei parênteses em um dos parágrafos e hífens em outro – como agora, e acho que pela primeira vez. Esta é uma produção totalmente despropositada, sem ligação com nada, nem consigo mesma.
     Agora já são uns 3.500 caracteres. Marquei num papel a palavra "pessoas" pra me lembrar de que queria falar sobre elas. Mas não me lembro sobre o quê; vejam como este método é falho. De qualquer forma, posso falar sobre pessoas mesmo não sabendo sobre o que eu ia falar, em primeiro lugar. Posso dizer que as pessoas são estranhas. Estranhas, e legais, e sei lá, bonitas. Você pode descobrir que todas as pessoas são bonitas, é só estar com os olhos certos para cada uma. É, é o que eu acho. O mesmo pode-se dizer para a parte delas serem legais e estranhas. E todas são inteligentes, cada uma em sua especialização mais absurda ou ínfima, que seja. As pessoas deixam beijos, abraços, e adeuses, elas se importam umas com as outras, certamente. As pessoas são humanas, mas, como já teorizei, podem passar a ser caninas e felinas também. Não tem gente que fala que o cachorrinho é como um parente? Faz parte da família? E acho que pássaros também podem evoluir e se tornar tão inteligentes quanto os cachorros e gatos, no futuro, como os humanos. Talvez os peixes também. É esperar pra ver, não?
     Eu me lembro da barra de rolagem diminuindo nos primeiros parágrafos, mas agora ela não diminui mais, aqui na caixa de texto. Estranho. Acho que o espaço ao redor dela que aumentou, mas não dá pra ver. É muito difícil de se pensar nisso. Ela começa com medida 20, suponha que seja este o número, a unidade, para facilitar. Sem espaço ao redor. Aí passa pra 19, com 1 espaço ao redor. No fim, ela chega a 1 tamanho, enquanto o espaço ao redor tem 19 tamanhos. Mas se eu precisar escrever mais, ela não vai pra 0,5 tamanho. Ela permanece com 1 tamanho, mas o espaço ao redor cresce pra 20 tamanhos, 21, 22, 23... Como pode uma coisa dessas? Existe alguma teoria, dentro dos 20 exabytes, que explique isso de forma simples e convincente?
     Mas, certamente, ainda há espaço para a originalidade. Por vários motivos. O principal: Pode-se criar 20 exabytes de teorias sobre o exabyte, por diversas pessoas. Pode-se criar 20 exabytes sobre qualquer coisa, basta dar um tempo para se escrever sobre cada uma. Aí vão inventar um ultra-fodidus-megalomaniacus-estupidus-pterodonticus-byte, capaz de armazenar milhões de exabytes. Aí, sim, estaremos na roça.
     Peguei o exabyte pra Cristo, pelo visto. Meus caracteres estão acabando, e antes eu achava que nunca ia conseguir usar tantos. Agora sinto falta de mais alguns milhares de caracteres, há tantas coisas que eu queria escrever. Acho que vou comprar trocentas caixas de caracteres pra usar à vontade, sem depender do Uol Blog. Bloguol. Uolog. Bluolg. Podiam inventar um nome mais legal pra isso. E podiam arrumar o contador de caracteres, que está totalmente insano. Não sabe se faltam 1000 ou 200 de limite.
     E quem vai analisar todas estas minha palavras e procurar nas entrelinhas algo que torne este meu imenso devaneio um clássico literário?
     Acabou, chega, beijos.


(publicado, originalmente, em flutuacao.zip.net, como outros vários textos daqui)

Cumprimentando estranhos

     Um caminhão de lixo se aproximava, a seus dez quilômetros por hora. Um gari, de feições lusitanas, ostentando um farto bigode, estava montado em seu pára-choque traseiro. Um funcionário da Casas Bahia caminhava em sentido contrário ao do caminhão, na calçada da pista de sua contramão.
     Seus olhares se encontraram. Ao acaso, o funcionário da Casas Bahia pensou: "Hahaha! Se esse cara gritar 'E aí, Bahia!', eu respondo 'E aí, bigode!'".
     Do caminhão, também totalmente por acaso, o gari pensou: "Se aquele cara me chamar de bigode, respondo 'E aí, Bahia!'", como se já estivesse acostumado a ser chamado dessa forma.
     Tudo isso durou apenas três segundos, mas pareceram dez. Logo em seguida, um cisco entrou no olho do funcionário da Casas Bahia, que esqueceu-se completamente do gari, que o observou coçar os olhos durante alguns metros percorridos pelo caminhão, mas que também o esqueceu por completo assim que se distraiu com um artista fazendo papel de estátua-viva, um pouco à frente.
     Nem um nem outro chegou a pensar novamente sobre cumprimentar desconhecidos naquele dia.

E as amizades?

     E as amizades que, diariamente, deixo de fazer? Quem são os amigos, senão qualquer um? Uma pessoa como qualquer outra, mas para quem se deu atenção. Um qualquer pode se tornar especial. E, depois disso, acha-se que nunca mais vai ser possível encontrar alguém como tal. Como não? E se não conhecesse este alguém? Qualquer outro teria tomado seu lugar, impunemente. E o que seria do primeiro, se o acaso desse lugar ao outro? Qualquer um, tão desinteressante quanto todos os outros.

A lua, as nuvens, eu

     Às vezes olho para o céu, em busca da lua. Quando está encoberta, encontro entre as nuvens seu contorno, ou seu brilho. Se permaneço olhando por mais alguns instantes percebo que as nuvens sempre resolvem descobri-la, como se fossem simpáticas ao fascínio que por ela tenho. Então continuo andando, trocando olhares da lua para o chão, do chão para a lua, para não tropeçar. Quase inconscientemente, sei que faço apostas com as nuvens. "E aí, continuarão a se curvar aos meus desejos?". E, sempre, elas cobrem a lua de volta, e não a descobrem até que, sem desafios, distraidamente, eu olhe para o céu como da primeira vez. Nunca sei se a escondem porque se irritam comigo ou se para provar que não tenho domínio sobre os céus. Também não sei direito por que quase sempre as nuvens me dão essa prova de poder sobrenatural. Ou realmente sabem que gosto da lua ou então o próprio destino é meu amigo, fazendo com que eu olhe para cima na hora certa, sem que as nuvens tenham de fato algo a ver com isso. De qualquer forma, é certo que sou o que realmente sou, afinal: uma criatura que precisa da ajuda de forças maiores que a de si mesma, em primeira ou última instância.

Ele sonhava que estava na praia

     Algumas pessoas, não muitas, aproveitavam um pouco de sol e mormaço da praia naquela tarde um tanto quanto nublada. E ele estava sentado numa fraca cadeira de plástico, de armar, a cerca de cem metros da orla do mar.
     Quando viu a onda, ela já estava perto demais. Uma iminente inundação daquelas era uma cena engraçada, para ele, pelo menos em um sonho. E a onda, além de muito alta, com bons sessenta metros de altura, vinha numa velocidade tão estonteante que, numa fração ínfima de tempo, o mar já dominava a cidade inteira. Mas ele não fora varrido pela onda; um vento fortíssimo, ante a deslocação e o formato daquele colosso, vinha em sua vanguarda, e empurrava, para cima e fortemente, todos por quem passava.
     Então, Mathias voou em alta velocidade. Voou para longe. Voou alto.
     Ele ria daquilo tudo. Não com a força de uma gargalhada, mas em um leve regozijo, quase incrédulo. Ele sempre achou que seria fácil escapar de um tsunami, mas de outra maneira: subindo numa prancha e desviando dos obstáculos do caminho, como carros, postes e coisas do tipo. Nunca ele havia imaginado que seria soprado pela onda.
     Um susto! Mathias lembrou-se, parcialmente consciente em seu sonho, de que provavelmente enfrentaria uma vertigem fortíssima em breve, daquelas que acordam o sonhador ou que, se não o fazem, no mínimo interrompem qualquer sonho. Como resolver aquilo? Ele tinha certeza de que o sonho ainda não havia passado sua verdadeira mensagem; voar era comum demais. Teve uma ideia, e a aproveitou rapidamente, antes que a vertigem surgisse: resolveu tomar controle do voo e subiu mais e mais pelos céus. Ainda não tinha olhado para baixo, mas, quando o fez, o que viu foi o mar tomando conta de tudo, e tudo tão pequeno lá embaixo que, mesmo o poderoso mar, imenso e cruel em sua investida pela praia – e, em seguida, pela cidade –, já não causava mais aquela grande sensação de destruição. Parecia água escorrendo de dentro de um copo quase vazio derrubado, desviando-se de alguns objetos que por ventura estivessem sobre a mesa.
     E Mathias voou ainda mais alto, até que não via nada, exceto as nuvens brancas e gélidas, porém acolhedoras, que o cercavam por todos os lados, e que já cobriam sua visão da inundação terrena. Agora, ele estava longe de tudo. E a vertigem não dava as caras. Outra vez, parcialmente consciente, resolveu descer distraidamente dali, para não demonstrar medo à vertigem, que ele ainda acreditava estar o espreitando, atenta a qualquer sinal de desespero. Então, distraidamente, sem se dar conta – mas, no fundo, se dando conta –, esquecendo-se de quase tudo, ele começou a descer. E em alta velocidade.
     Como num sonho – ele já não queria que aquilo fosse um sonho, mas algo real, e forçando assim sua compreensão para crer que aquilo fosse a realidade, se confundia quando coisas absurdas aconteciam, e achava que estava sonhando –, ele atravessou o limite baixo das nuvens e viu a cidade se aproximando. A onda já havia passado para as cidades vizinhas, e o nível do mar estava elevadíssimo: atingia os vigésimos quintos andares dos prédios que chegavam a tal altura, ou maiores que esta. Dos outros, podia-se ver apenas vestígios de para-raios, ou de antenas, ou nada.
     Estranho – pensou Mathias – o mar não deveria acompanhar a altura da onda. Tudo bem o nível do mar subir um pouco por alguns instantes. Mas... é como se, de repente, o mar tivesse subido sessenta metros de altura, e a onda não fosse só uma onda, mas a própria parede do oceano em expansão horizontal. Parece que o mar quer juntar um grande pedaço dos continentes ao seu leito.
     Enquanto teorizava sobre a inundação, Mathias chegava cada vez mais perto do chão – ou da água, melhor dizendo. Portanto, resolveu diminuir a velocidade com que voava, o que fez com facilidade. Um vento forte ainda soprava, o que o empurrava horizontalmente. O mais rápido que pôde dirigiu-se, voando, a um prédio de cerca de cinquenta andares cuja cobertura era um quadrado vazio, exceto por uma pequena torre no meio e um cubículo que provavelmente protegia a entrada do alçapão por onde se saia para a cobertura. Cubículo este que se encontrava numa de suas laterais.
     Mathias agarrou-se a alguma coisa daquele prédio, a qual não soube identificar o que era. Mas, parecia uma corda de aço, que subia daquela pequena torre ao centro do topo do prédio. Descendo por ela, estava na cobertura. E dali, diferentemente de quando estava voando, o mar era grande e implacável; uma nova verdade. Mas não corria em grande velocidade, não mais. As águas apenas acompanhavam o crescimento do oceano, e cursavam como as de um rio ainda não tão próximo do mar, ainda não tão louco para mudar de sabor.

     Mathias via, voando pelos céus, todas as pessoas da cidade, e ao longe, muito longe, via as pessoas da outra cidade sendo sopradas pelo vento da onda-parede. Todas estavam sorridentes; a experiência de voar era incrível. Mathias refletiu por alguns instantes, imaginando se talvez aquelas pessoas fossem pessoas de verdade em seus sonhos. Um sonho de todos. Elas pareciam totalmente desligadas de Mathias, o que talvez apontasse esta hipótese como verdadeira; se fossem frutos de sua imaginação, ele sentir-se-ia dono daquelas pessoas e daquelas risadas. Mas daquela conclusão ele não pôde se aproximar mais, daquela teoria ele se esqueceu logo em seguida. Pois, na cobertura onde achava estar sozinho, havia mais alguém. E lhe tirou a atenção de tudo o mais ponderar sobre a chance que havia daquela pessoa ter voado exatamente para o mesmo prédio em que estava. Chance que se exprimia numa porcentagem que beirava casas nanodecimais – se o que ele achava sobre todas as pessoas do mundo inteiro estarem naquelas cidades do sonho fosse verdade. E aquela pessoa estava rindo bastante – claro, pensou ele, ela tinha que estar rindo, ela não seria ela se não risse disto, e muito. Ela estava com os braços cruzados, como se abraçasse a si mesma, e dobrava-se em risadas.
     Era Alessandra – era a Alê.
     Mathias caminhou em sua direção, pensando sobre o que falar, sobre o que perguntar, mas, quando percebeu, encontrava-se com ela a cinco palmos de distância de si, antes que tivesse resolvido o que dizer. Não percebeu o tempo que passou até estarem bem próximos. Eles eram da mesma altura, e olhar nos olhos uns dos outros não pedia deles mais do que apenas manterem-se em pé, em postura ereta. Ele achou que era hora de desistir dos breves lampejos de racionalidade que insistia em fazer dominar seus pensamentos e, enquanto olhava para o rosto sorridente dela – ela que, provavelmente, também havia acabado de desistir da lógica naquele mundo surreal –, Mathias decidiu que tudo que queria era abraçá-la. E foi o que fizeram.
     Andaram abraçados e, no parapeito próximo ao cubículo, se apoiaram, soltando-se do abraço por alguns instantes. Olharam para baixo, e em seguida olharam um para o outro: Mathias e Alê, Alê e Mathias, era o que eram, e as palavras que não foram proferidas por eles desde quando se encontram não açoitavam seus pensamentos, como quando se quer falar e não há coragem suficiente. Havia chegado, enfim, o momento em que não mais precisariam de muitas delas. Palavras tornaram-se mero luxo, mero complemento.
     Abraçaram-se, novamente. A tarde já ia avançada, e o sol estava se escondendo atrás do horizonte alto e ampliado do oceano – aquele dia estava acabando mais cedo; talvez todos os seguintes também. Simpáticas e densas nuvens, que naquele dia não ousavam tapar o sol, estavam pintadas em vistosos tons, utilizando harmoniosamente as fortes cores que o titã de fogo emprestava ao céu. Mathias e Alê olhavam o fluxo do mar, que forçava, ainda um pouco revolto, água salgada pelas janelas dos vigésimos quintos andares da maioria dos prédios daquele lugar. Olhavam e achavam engraçado como só se podiam ver os últimos andares de alguns prédios, e, de outros, só os para-raios, e, de outros, nada, pois acabaram ficando muito abaixo no novo nível do mar. O novo mar, que ainda não se acalmara por completo por ali, cujas rápidas ondulações tornavam-se pequenas ondas com facilidade, que logo batiam nos prédios ou em si mesmas, aplaudindo o sucesso em dominar aquele novo território.
     Talvez não fosse certo acordar daquele sonho. Talvez mais certo fosse sair voando devido ao baque do vento de ondas gigantes. Talvez mais certo fosse encontrar alguém que queria ser encontrado e que queria encontrar quem o procurava. Poderiam ficar vendo, juntos, pelo tempo que fosse, as ondas batendo no concreto das construções agora dominadas pela água salgada. Talvez eles realmente estivessem compartilhando aquele sonho com todas as pessoas do mundo, sem exceção, cada uma com as outras que sempre quisessem por perto, no topo de algum prédio – de modo que Mathias agora tinha certeza da reciprocidade que sempre almejou: de que era com ele, e só com ele, que Alê queria estar. Talvez eles fossem mais eles mesmos assim, sem falar, só sentir. Talvez eles fossem mais que apenas duas mentes em sintonia. Talvez fossem um só.
     Mathias e Alê.