domingo, 26 de setembro de 2010

Ele sonhava que estava na praia

     Algumas pessoas, não muitas, aproveitavam um pouco de sol e mormaço da praia naquela tarde um tanto quanto nublada. E ele estava sentado numa fraca cadeira de plástico, de armar, a cerca de cem metros da orla do mar.
     Quando viu a onda, ela já estava perto demais. Uma iminente inundação daquelas era uma cena engraçada, para ele, pelo menos em um sonho. E a onda, além de muito alta, com bons sessenta metros de altura, vinha numa velocidade tão estonteante que, numa fração ínfima de tempo, o mar já dominava a cidade inteira. Mas ele não fora varrido pela onda; um vento fortíssimo, ante a deslocação e o formato daquele colosso, vinha em sua vanguarda, e empurrava, para cima e fortemente, todos por quem passava.
     Então, Mathias voou em alta velocidade. Voou para longe. Voou alto.
     Ele ria daquilo tudo. Não com a força de uma gargalhada, mas em um leve regozijo, quase incrédulo. Ele sempre achou que seria fácil escapar de um tsunami, mas de outra maneira: subindo numa prancha e desviando dos obstáculos do caminho, como carros, postes e coisas do tipo. Nunca ele havia imaginado que seria soprado pela onda.
     Um susto! Mathias lembrou-se, parcialmente consciente em seu sonho, de que provavelmente enfrentaria uma vertigem fortíssima em breve, daquelas que acordam o sonhador ou que, se não o fazem, no mínimo interrompem qualquer sonho. Como resolver aquilo? Ele tinha certeza de que o sonho ainda não havia passado sua verdadeira mensagem; voar era comum demais. Teve uma ideia, e a aproveitou rapidamente, antes que a vertigem surgisse: resolveu tomar controle do voo e subiu mais e mais pelos céus. Ainda não tinha olhado para baixo, mas, quando o fez, o que viu foi o mar tomando conta de tudo, e tudo tão pequeno lá embaixo que, mesmo o poderoso mar, imenso e cruel em sua investida pela praia – e, em seguida, pela cidade –, já não causava mais aquela grande sensação de destruição. Parecia água escorrendo de dentro de um copo quase vazio derrubado, desviando-se de alguns objetos que por ventura estivessem sobre a mesa.
     E Mathias voou ainda mais alto, até que não via nada, exceto as nuvens brancas e gélidas, porém acolhedoras, que o cercavam por todos os lados, e que já cobriam sua visão da inundação terrena. Agora, ele estava longe de tudo. E a vertigem não dava as caras. Outra vez, parcialmente consciente, resolveu descer distraidamente dali, para não demonstrar medo à vertigem, que ele ainda acreditava estar o espreitando, atenta a qualquer sinal de desespero. Então, distraidamente, sem se dar conta – mas, no fundo, se dando conta –, esquecendo-se de quase tudo, ele começou a descer. E em alta velocidade.
     Como num sonho – ele já não queria que aquilo fosse um sonho, mas algo real, e forçando assim sua compreensão para crer que aquilo fosse a realidade, se confundia quando coisas absurdas aconteciam, e achava que estava sonhando –, ele atravessou o limite baixo das nuvens e viu a cidade se aproximando. A onda já havia passado para as cidades vizinhas, e o nível do mar estava elevadíssimo: atingia os vigésimos quintos andares dos prédios que chegavam a tal altura, ou maiores que esta. Dos outros, podia-se ver apenas vestígios de para-raios, ou de antenas, ou nada.
     Estranho – pensou Mathias – o mar não deveria acompanhar a altura da onda. Tudo bem o nível do mar subir um pouco por alguns instantes. Mas... é como se, de repente, o mar tivesse subido sessenta metros de altura, e a onda não fosse só uma onda, mas a própria parede do oceano em expansão horizontal. Parece que o mar quer juntar um grande pedaço dos continentes ao seu leito.
     Enquanto teorizava sobre a inundação, Mathias chegava cada vez mais perto do chão – ou da água, melhor dizendo. Portanto, resolveu diminuir a velocidade com que voava, o que fez com facilidade. Um vento forte ainda soprava, o que o empurrava horizontalmente. O mais rápido que pôde dirigiu-se, voando, a um prédio de cerca de cinquenta andares cuja cobertura era um quadrado vazio, exceto por uma pequena torre no meio e um cubículo que provavelmente protegia a entrada do alçapão por onde se saia para a cobertura. Cubículo este que se encontrava numa de suas laterais.
     Mathias agarrou-se a alguma coisa daquele prédio, a qual não soube identificar o que era. Mas, parecia uma corda de aço, que subia daquela pequena torre ao centro do topo do prédio. Descendo por ela, estava na cobertura. E dali, diferentemente de quando estava voando, o mar era grande e implacável; uma nova verdade. Mas não corria em grande velocidade, não mais. As águas apenas acompanhavam o crescimento do oceano, e cursavam como as de um rio ainda não tão próximo do mar, ainda não tão louco para mudar de sabor.

     Mathias via, voando pelos céus, todas as pessoas da cidade, e ao longe, muito longe, via as pessoas da outra cidade sendo sopradas pelo vento da onda-parede. Todas estavam sorridentes; a experiência de voar era incrível. Mathias refletiu por alguns instantes, imaginando se talvez aquelas pessoas fossem pessoas de verdade em seus sonhos. Um sonho de todos. Elas pareciam totalmente desligadas de Mathias, o que talvez apontasse esta hipótese como verdadeira; se fossem frutos de sua imaginação, ele sentir-se-ia dono daquelas pessoas e daquelas risadas. Mas daquela conclusão ele não pôde se aproximar mais, daquela teoria ele se esqueceu logo em seguida. Pois, na cobertura onde achava estar sozinho, havia mais alguém. E lhe tirou a atenção de tudo o mais ponderar sobre a chance que havia daquela pessoa ter voado exatamente para o mesmo prédio em que estava. Chance que se exprimia numa porcentagem que beirava casas nanodecimais – se o que ele achava sobre todas as pessoas do mundo inteiro estarem naquelas cidades do sonho fosse verdade. E aquela pessoa estava rindo bastante – claro, pensou ele, ela tinha que estar rindo, ela não seria ela se não risse disto, e muito. Ela estava com os braços cruzados, como se abraçasse a si mesma, e dobrava-se em risadas.
     Era Alessandra – era a Alê.
     Mathias caminhou em sua direção, pensando sobre o que falar, sobre o que perguntar, mas, quando percebeu, encontrava-se com ela a cinco palmos de distância de si, antes que tivesse resolvido o que dizer. Não percebeu o tempo que passou até estarem bem próximos. Eles eram da mesma altura, e olhar nos olhos uns dos outros não pedia deles mais do que apenas manterem-se em pé, em postura ereta. Ele achou que era hora de desistir dos breves lampejos de racionalidade que insistia em fazer dominar seus pensamentos e, enquanto olhava para o rosto sorridente dela – ela que, provavelmente, também havia acabado de desistir da lógica naquele mundo surreal –, Mathias decidiu que tudo que queria era abraçá-la. E foi o que fizeram.
     Andaram abraçados e, no parapeito próximo ao cubículo, se apoiaram, soltando-se do abraço por alguns instantes. Olharam para baixo, e em seguida olharam um para o outro: Mathias e Alê, Alê e Mathias, era o que eram, e as palavras que não foram proferidas por eles desde quando se encontram não açoitavam seus pensamentos, como quando se quer falar e não há coragem suficiente. Havia chegado, enfim, o momento em que não mais precisariam de muitas delas. Palavras tornaram-se mero luxo, mero complemento.
     Abraçaram-se, novamente. A tarde já ia avançada, e o sol estava se escondendo atrás do horizonte alto e ampliado do oceano – aquele dia estava acabando mais cedo; talvez todos os seguintes também. Simpáticas e densas nuvens, que naquele dia não ousavam tapar o sol, estavam pintadas em vistosos tons, utilizando harmoniosamente as fortes cores que o titã de fogo emprestava ao céu. Mathias e Alê olhavam o fluxo do mar, que forçava, ainda um pouco revolto, água salgada pelas janelas dos vigésimos quintos andares da maioria dos prédios daquele lugar. Olhavam e achavam engraçado como só se podiam ver os últimos andares de alguns prédios, e, de outros, só os para-raios, e, de outros, nada, pois acabaram ficando muito abaixo no novo nível do mar. O novo mar, que ainda não se acalmara por completo por ali, cujas rápidas ondulações tornavam-se pequenas ondas com facilidade, que logo batiam nos prédios ou em si mesmas, aplaudindo o sucesso em dominar aquele novo território.
     Talvez não fosse certo acordar daquele sonho. Talvez mais certo fosse sair voando devido ao baque do vento de ondas gigantes. Talvez mais certo fosse encontrar alguém que queria ser encontrado e que queria encontrar quem o procurava. Poderiam ficar vendo, juntos, pelo tempo que fosse, as ondas batendo no concreto das construções agora dominadas pela água salgada. Talvez eles realmente estivessem compartilhando aquele sonho com todas as pessoas do mundo, sem exceção, cada uma com as outras que sempre quisessem por perto, no topo de algum prédio – de modo que Mathias agora tinha certeza da reciprocidade que sempre almejou: de que era com ele, e só com ele, que Alê queria estar. Talvez eles fossem mais eles mesmos assim, sem falar, só sentir. Talvez eles fossem mais que apenas duas mentes em sintonia. Talvez fossem um só.
     Mathias e Alê.

Nenhum comentário:

Postar um comentário