terça-feira, 2 de novembro de 2010

Avião

     Que lindo! O céu da noite, estrelado, permeado por algumas nuvens algodoadas, brilhava, cheio de breves halos dos pontos de luz. A noite era fresca, e o alto vento soprava os flocos de nuvem para sudoeste. Alguns, deitados na relva e fitando o céu, poderiam se perder por horas em devaneios...

     O globo girava... as nuvens passavam... a brisa toca... o pensamento flui.

     De repente, fatiando a abóbada celeste de uma ponta a outra, surge, por entre um bloco de nuvens - e delas puxando um pequeno rastro - um avião.

     - Que incrível é a imaginação. Posso fazer disso o que eu quiser. Se eu deixar a imaginação vagar, posso fazer de conta que esse avião se parece com... hm... com...

     O avião não se parece com nada. A ideia era que ele se parecesse, naquela oportunidade, aos olhos do observador, com uma águia, falcão, andorinha, pomba, qualquer ave. Mas... uma droga de um avião só se parece com outros aviões e mais nada. Nenhum animal fica voando e emitindo luzes coloridas das pontas das asas, nem fazendo uma barulheira infernal, e nem mantendo tão rígido o corpo. A urbanização destrói todas as fantasias. Só de pensar que não é só por aqui, no meio da cidade, que passam os aviões, já me apavoro. Por mais que eu procure os campos, corro o risco de ter interrompidos os meus sonhos pela turbulência de um avião. Máquina do homem. Serve para todos os propósitos práticos maravilhosamente bem, mas macula a paisagem e, doravante, o pensamento de quem aprecia um céu limpo de "progresso humano".

domingo, 24 de outubro de 2010

Novo descontrole, seguido de novo diálogo com a Voz

     Havia um rapaz que, tomado por algum tipo de desespero, descontrole, desassossego, temporária insanidade, não conseguia parar de roer unhas e dedos. Só parou quando conseguiu pegar e usar uma caneta em folhas de seu caderno. É bom salientar que tal rapaz cometia tais atrocidades com seu corpo justamente por estar em tão excruciante furor, e sabia que, se tentasse pegar uma caneta e escrever sem ter se acalmado daquele delírio, tudo que tentasse redigir se esvairia – o que tornaria tudo ainda pior.
     Não há necessidade de se falar sobre todos os repuxos musculares involuntários que o dominaram e se repetiram sem nenhuma constância, em espasmos imprevisíveis, enquanto pensava ideias que ainda serão descritas  – algumas, pelo menos –; mas é importante saber que tudo se passou enquanto duraram os sucessivos frêmitos. Todas as conjeturas nasceram enquanto o rapaz tartamudeava monossílabos arrítmicos e se virava e se retorcia e praguejava e ficava cada vez com mais receio de que aquilo se seguisse para sempre.
     Quanto a isso, até mesmo levou-se a se indagar se não era prisioneiro de sua própria mente. Podia ser que tudo que sentia e vivia fosse uma simulação à qual ele mesmo se havia induzido a experimentar; seu verdadeiro corpo poderia estar em condições de aparente paralisia cerebral, em algum lugar obviamente fora dali – pois onde estava seria apenas fruto de uma industriosa imaginação. O que tornaria tudo em que achava acreditar e valer a pena motivações inúteis; todas as perguntas encontrariam respostas já elaboradas pela sua própria inventividade, que, incompreensivelmente, era mais sagaz que sua própria projeção mental interna. Contudo, não deixavam de ser interessantes as probabilidades advindas desse devaneio: se fora imaginativo o suficiente para se prender – prender sua consciência – em seu próprio íntimo, também acabava de o ser para tirar tal conclusão; doravante, assim também seria para encontrar a saída de volta à realidade de onde viera, escapulindo de tão intricada quimera.
     Claro que considerou a hipótese de que, ainda que voltasse a tal real realidade, esta ainda poderia ser o invento de uma outra mente, tão mais pujante – mas que, ainda assim, continuaria sendo a sua própria. E daí por diante, indefinidamente, infinitamente. Entretanto, assim que o lampejo de tal dúvida o atingiu, decidiu que tentaria não agravar ainda mais a já arrebatadora loucura que se havia instaurado em si.
     Em vez disso, pensou sobre como jogar objetos estilhaçáveis, ou pelo menos desordenáveis, em paredes alivia fabulosamente muitas tensões. Logo se imaginou arremessando a plenas forças um maço embalado de papel sulfite na parede de certo aposento de determinado setor de certa loja em que trabalhava. Tal aposento era, também, além de almoxarifado, sala de descanso. Mas, como tudo sempre parecia conspirar contra o extravasamento de sua fúria contida e acumulada ao decorrer de algum tempo, decerto colegas amistosos, os quais o rapaz não gostaria de assustar, estariam por lá. E foi o ocaso dessa anárquica ideia.
     O rapaz discutia intensamente, outrossim, consigo e, alternadamente, com algo que nomeava como A Voz; parte do diálogo pode ser visto a seguir:
     - Foi sempre isto: estive, desde que atendo por mim, cuidando de me privar de respirar para que outros tenham mais ar.
     - Vê, agora, como isso te leva às raias da loucura, quando te escapa ao controle; quando ter todo o ar de que precisa se torna inútil.
     - Sim, e foi uma combinação mesmo banal de eventos que disparou esta reação.
     - É, decerto, algo martirizante.
     - Que piora quando percebo que o peso que minhas palavras têm, quando lidas, não é o mesmo que sinto e queria expressar quando as escrevo. E cada vez mais creio que isso não se deve à minha imperícia dissertativa; culpo as interpretações, que são cansativamente sempre subjetivas demais, mesmo quando quero dizer, com todas e quaisquer palavras que sirvam, que estou perdendo gradativamente o que vulgarmente se chama sanidade.
     - Melhor que se acostume, já que está apenas no início desta empreitada. Situações mais desgastantes, embora mais recompensadoras e valiosas, virão; E você é orgulhoso; não renunciaria a esta que é sua maior escolha.
     - Não, não renunciaria. Se me fará mais bem que mal, não sei. Contudo, ainda afirmo, convictamente, que adoro esta efusão de eloquência que mal consigo controlar, que teço com inúmeras falhas – quase imperceptíveis; mas, da trama original que me invadiu a mente, nem tudo consigo recriar.
     - Será que chegará algum dia em que voc...
     - Ei, veja! Estão falando de nós!
     - Como assim?
     - Bem aqui! Olhe o que acabo de ler: “me invadiu a mente, nem tudo consigo recriar”.
     - ...
     - E mais! Olhe, que barato!: “Estão falando de nós!”. Outra parte, ainda mais interessante: “E mais! Olhe, que barato!: ‘Estão falando de nós!’. Outra parte, ainda mais interessante: ‘E mais!, Olh...
     - Chega! Meu jovem, não posso crer. Você acaba de se dividir mais uma vez.
     - Eu somos três, agora, então?
     - É o que parece. Quero ver como fará para lidar com isso, agora. Com mais isso.
     - Ai de mim!
     - ... a propósito, como estou? Pareço seguro no que falo? Já que você agora se deu a se tornar ainda outro, não te custa dar uma olhadela em como estamos...
     - Está orgulhoso e palpitante, como sempre.
     - Palpitante?
     - Beirando o atrevimento. Nem sei como ainda te tolero.
     - Ora!
     - Creio que preciso retomar, agora. Mas, devo fazê-lo com habilidade. Portanto, voltarei a ter com você.
     - Pois tenha.
     - Algo que me desanima em tudo isto é que quando...
     - ...
     - ...
     - ... quando o quê?
     - Quando... ora! Na verdade, só abri um novo diálogo qualquer e o deixei no ar para que o outro retomasse sua narrativa!
     - O outro foi embora, não vê? Sobramos nós dois apenas, agora.
     - Grande consolo para mim, sobrarmos apenas você e eu!
     - Se está insatisfeito, despeça-se. Não faço questão, como é evidente que você também não faz, de ater-me a este monólogo pouco edificante.
     - E lá saberei eu sobre o quanto posso aprender apenas por reflexão?
     - Isto ainda extrapolará o significado de reflexão. Ainda se tornará segregação intelectual. Cuida-te.
     - Para lá com tais conjeturas. Deixando isso de lado; sinto-me em melhor forma que da outra vez.
     - Destarte, continue progredindo, custe o que lhe custar.
     - Sim. Claro. Obrigado.
     - Sim.
     - ...
     - ...
     -
     - ...
     -
     - Ora! Pois volte aqui! Não podemos nos despedir normalmente, antes que me faça de bobo, como da outra vez?
     - Oh!, sim, sim! Até breve.
     - Até.

domingo, 17 de outubro de 2010

O final de todas as histórias

     Naquele estado que beira a inconsciência, logo pela manhã, enquanto não se sabe se se quer dormir ou acordar, ou se se está de fato dormindo ou acordado, recordei-me de algumas grandes histórias que há algum tempo li e assisti. Histórias de destinos isolados, de uma só alma que vagou a esmo pelos labirintos tortuosos de sua sina; histórias de destinos entrelaçados, em que uma única decisão alterava os desfechos de inúmeras vidas.

     E vi como todas elas serão obliteradas pelo tempo - acabo de ler "A Máquina do Tempo", de Wells, e estou suscetível a este tipo de pensamento -, por mais que implorem por sua imortalidade. Todos os livros se tornarão ilegíveis, de tão corroídos. Todo o fulgor de belos dias, esquecidos como se nunca tivessem existido. Todo o amor que dediquei... não terá valia quando os dias se aproximarem de seu ocaso.

     Os grandes desafios da vida, os grandes amores, abraços, beijos, os idílios de romances nunca consagrados, as tragédias que tanto nos infligiram dores incomensuráveis, e ainda mais os pequeníssimos detalhes, os olhares e pestanejos, uma breve expressão de angústia, ou outra, de rejúbilo; tudo será esquecido daqui a alguns milhares, ou mesmo dezenas, de séculos. Ou ainda menos. Eu, por exemplo, desconheço a história da trajetória de vida de meu bisavô, de como ele conheceu minha bisavó, de como se firmou o desejo de construir nossa família em seus íntimos; uma história que surgiu e feneceu sem que ninguém tomasse notas. E de seu pai, então? A única coisa que restou é a certeza de que houve uma história, talvez bonita, talvez triste, em cada geração. Nada mais.

     A esperança que nos resta é a de que alguém, ou alguma coisa, esteja observando todos os eventos e nossas relações. E nunca se esquecendo. Só assim poderemos viver e morrer tranquilos, certos de que seremos lembrados, de que valeram alguma coisa os esforços que empreendemos, de que todas as alegrias que vivemos continuarão sendo alegres.

     Digo isso por mim, mas devo não ser o único.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O acesso bloqueado ao terraço

     Era o décimo segundo andar. A refeição não fora das melhores, mas havia batata em bolinhas verdadeira e inesperadamente esféricas, e um bife acebolado um pouco menos duro que o normal. Sentei-me e ouvi Melissa's Garden, e ia começar a ouvir Generator – esta música vem me trazendo boas lembranças (de uma época em que não a conhecia, entretanto) quando fui convidado a tomar lugar a uma mesa próxima, com alguns colegas. Instantes antes, de soslaio, vi quem viria me convidar se aproximando e, como seu trajeto parecia ter não outro destino que não a mim, parei a música um momento antes do cutucar em meu ombro.
     Aceitei o convite, embora, além de não apenas querer ouvir a música, também pretendia sair sorrateiramente e procurar o canto menos movimentado de todo aquele prédio para ler assim que terminasse a refeição.
     O que, se eu fosse supersticioso, seria árdua tarefa. Todos os seis andares de loja a parte acessível para clientes eram inadequados; sempre haveria alguém para passar pelo canto mais isolado, pelo sofá mais esfarrapado que eu escolhesse para ou perguntar onde ficava o banheiro de clientes, ou onde estava o gerente, ou se sentar para conversar. Havia a sala de almoxarifado do meu setor, mas era tão movimentada quanto a loja, e ainda pior: qualquer um que entrasse certamente diria alguma coisa, por mais que eu me esforçasse em parecer absorto enquanto leio e ouço música sentado a um canto, de forma a deixar visíveis os fios dos fones de ouvido e meu olhar concentrado e indesviável. Pior ainda era a sala de "leitura" do décimo primeiro, na qual conversavam aos brados os que lá dentro se sentavam para repousar. Enfim, sobravam-me os seguintes: o Shopping Light mas encontrar um banco agradável levava tanto tempo que consumia quase todo o restante do horário de almoço ; as escadas de incêndio do lado dos elevadores mas, a menos que ficasse circunvagando pelos degraus, as luzes automáticas se apagariam rapidamente, e não havia janelas ; as escadas de incêndio do outro lado mas, embora houvesse janelas por lá para iluminar, era um lugar de grande movimento, com funcionários subindo e descendo andares correndo ; havia as escadas de incêndio paralelas a essas, acessíveis por portas laterais em cada andar e, embora eu costumasse andar por ali com tranquilidade, por mais que digam que são assombradas, possuem o mesmo problema das escadas do outro lado da loja: não têm janelas. Por fim, há uma sucessão de escadas deste último lado que vão até o décimo quarto andar; e até lá, sim, ninguém vai. Pois o décimo terceiro encerra um estoque de produtos fora de linha e defeituosos, sendo visitado apenas em raras ocasiões. E o décimo quarto... bem, os elevadores só vão até o de baixo, portanto, nem se menciona a existência daquele.
     Passei minutos a mais que o planejado, sem música ou leitura, em confabulações conspirativas à mesa com meus colegas. Por fim os deixei, pois terminara antes minha refeição. Decidido a dedicar os dez últimos minutos de meu intervalo a Stephen King, pedi licença e me esgueirei para fora do refeitório e em direção ao décimo quarto andar. Cansando um pouco os joelhos por sempre subir num ímpeto pulante, alcancei o final daquelas escadas, onde poucos haviam pisado. Lá, encontrei um deleite: um acesso ao terraço. Só que minha felicidade não era completa, pois ainda que avistasse o horizonte cheio de picos das torres da cidade através de um portão enferrujado de barras de ferro, este se encontrava trancado e, embora o cadeado se encontrasse em péssimo estado, embora fosse fácil o quebrar e sair dali para o terraço e estar acima de toda aquela cidade, eu não o faria. Não, ainda não; por mais um triz, talvez. Contentei-me, agora esquecido do livro que carregava, em olhar por através da grade do portão o céu de nuvens curtas e frágeis que se apresentava sobre grandes hotéis e edifícios comerciais; e toda aquela cena, de onde eu a via, naquele silêncio  só quebrado pelo ruído turbulento, mas distante, quase obliterado, da casa de máquinas dos elevadores, que operava nas proximidades , fazia-me sentir como se fosse o último dos homens dali, último sobrevivente de uma cidade devastada e sem vida, à exceção de pássaros que sobrevoavam ao acaso e chilreavam nos ermos.
     O tempo que passei contemplando aquela paisagem não se podia contar por quaisquer meios ou símbolos; e como que sonhei, pego numa quimera, que estivesse mesmo no auge da exaustão de toda uma outra vida; e senti todo o seu peso, todo o tédio pós-apocalíptico de ser o eterno observador solitário de uma paisagem esplendorosa e, ao mesmo tempo, sombria. Não soube, e talvez queira mesmo ainda não saber, qual vida preferir. Não sei se me prefiro imaginando mundos paralelos de tragédias mil ou se seria melhor narrando o ocaso da civilização em primeira mão.
     Com pesar, forcei-me para fora daquele transe sublime. A hora de passar o crachá urgia. Com um leve espanto, constatei que, se estivesse mesmo na vida que imaginara há pouco, assim que me voltasse da vista através da grade para as escadas, percebendo quão sombrio era aquele lugar, teria descido alguns lances aos pulos fugindo de fantasmas nos quais talvez tivesse passado a acreditar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Diálogo com a Voz

     - Estou com uma vontade desesperadora, maníaca, assassina de dar o murro mais forte da minha vida neste teclado.
     - Faça.
     - Algo me impede.
     - O quê?
     - Falta de dinheiro para comprar um novo. E mais coisas. Medo inconsciente de me ferir, medo das consequências, da impressão que vai causar. E outras pessoas precisam do teclado. E eu preciso dele agora. Para escrever.
     - Escrever o quê?
     - Sobre o fiasco que sou. Sobre como sinto que meus óculos sempre estão tortos e que não moram em minha vizinhança as pessoas que eu quero. Sinto-me mal, completamente enojado de mim, por me render à necessidade de escrever cada pensamento. Sinto-me mal por não reconhecer inúmeros erros que cometo. Mas continuo.
     - Por quê?
     - Algo me impele.
     - Que algo?
     - Milhares de pensamentos bem elaborados. Miríades deles todos os dias. Infinitas teorias que ninguém nunca sonhou. Elas circunvagam em minha mente, me levam à loucura. Mas à loucura comedida. Cada centímetro meu me odeia por isso. Cada centímetro meu quer rasgar o próximo em milímetros, mas se contém.
     - E sua mãe agora aparece para te dizer sobre uma caixa de plástico. Seus pensamentos se desviam sozinhos, por nenhuma influência externa, mas recairá na caixa de plástico a culpa pela sua distração sobre o que escreve agora.
     - Sim, e, neste instante, eu odeio a caixa de plástico e ponho nela a culpa. Gosto muito de minha mãe e de outras pessoas, mas hoje não.
     - Hoje você está completamente nervoso e mal imagina que absurdos cometeria se as circunstâncias fossem outras. Se fossem só um mínimo diferentes.
     - Quase chego a desejar que esse mínimo de diferença fosse o que me levasse a ser um torcedor fanático e irresponsável de algum time de futebol, que fosse o que me lançaria em brigas de bar e de rua. Mas... sei como sou. Se fossem outras as circunstâncias, eu estaria desejando viver numa realidade à distância de um mínimo de diferença nas circunstâncias, desejando viver nestas em que vivo. Quereria transformar meus delitos físicos em impressos.
     - O que te desequilibra tanto, afinal?
     - Não sei, devem ser muitas coisas. Sinto que me faltam calos nas mãos, uma cicatriz transversal em meu rosto. Sinto que me falta algum domínio sobre qualquer coisa. Sinto que me falta alguém. E tenho dores de cabeça cada vez mais frequentes. Uma agora, inclusive. Ouso acreditar que é pelo ato de pensar exaustivamente, profundamente, hiperbolicamente, sobre tudo. Até a mim pareço presunçoso, entretanto, ao tecer um comentário desses.
     - E falta tanto ainda para que você exponha todos os seus temores e angústias! Faltam-lhe as palavras. Elas te odeiam, elas de você fogem, seu vocabulário sempre será forçado, você se destruirá em autocrítica. Você não nasceu para isso. Você é ótimo em não ser nada. Em estar envolto por mil portas de possibilidades e se manter indeciso. Para sempre.
     - Sempre temi que fosse isso. Acredito ter entrado por uma dessas portas, mas sei que a seguro aberta com o calcanhar. Vejo as perspectivas. Vejo o que há na nova sala da porta que abri, e fico tentado pelas outras da sala anterior, mesmo as desconhecendo. Gozo um mínimo do máximo que poderia obter se soltasse a porta, e tenho a segurança de ainda poder voltar atrás. Sou completamente ridículo.
     - Você é.
     - Este meu pescoço que não estala como eu queria! E meu peito; sinto ainda aquela dor.
     - Não acha que te fará mal continuar como é? É uma grande irresponsabilidade seu descuidado consigo porque há pessoas que, por algum motivo inexplicável, vieram a gostar de você. Aliás, como conseguiu? Quem imaginaria que faria amigos e amores neste mundo?
     - Isso começou a ocorrer antes que eu pensasse sobre o assunto. Talvez eu tentasse evitar, se soubesse antecipadamente. Eles surgiram! E me agradam, e me dizem que os agrado.
     - Nunca desconfiou de que possam ser robôs programados para te aturar?
     - Algumas vezes, confesso, sim. Um resquício de dúvida ainda arde. Espero que meu próximo momento, a próxima fase de minha vida, seja no qual vou compreender que tudo isto, todos estes pensamentos ignominiosos que formulo, não passou de uma leve crise. Não, leve não; moderada, talvez... ou até intensa. Não sei, pode ser que amanhã alguma outra catástrofe ainda piore tudo.
     - E como se sente sabendo que ficará um tanto mais calmo quando revelar este documento, pelo qual confabulamos, nas páginas virtuais que tanto abomina?
     - Pois é, sinto-me e continuarei me sentindo mal. Tanto quanto como quando começamos. Talvez ainda mais. E a dor de cabeça está piorando. Não sei até onde o corpo aguenta. Tem gente que diz que problemas emocionais acabam gerando os de saúde.
     - Por que não toma um remédio?
     - Não quero me render. Não, pelo menos a alguma coisa não; que seja uma dor de cabeça, pelo menos a de hoje. Não, já me rendi a tanto, por motivos tão banais. Eu não quero mais me render. Não quero mais renunciar. Mas, você sabe...
     - Sei. Sei que você só é heroico através deste texto. Só é líder de sua vida enquanto em frente ao monitor do computador ou debruçado sobre um papel em branco.
     - Só pode ser uma maldição, uma sina.
     - Espero que você encontre outros com o mesmo problema.
     - De que adianta! “O mesmo problema”, você diz! Como se, mesmo sob infortúnio similar, outro indivíduo estivesse se sentindo mal da mesma forma! Como se a complexidade de meu raciocínio, moldada por anos de inúmeras experiências totalmente distintas às de quaisquer outros seres, por mais que possam eles parecer vítimas das mesmas circunstâncias, pudesse ser medida por parâmetros científicos, por algum tipo de estudo absolutamente segregado e restritivo ao qual embutirão o sufixo “logia” ou pelas deduções de algum patife metido a intelectual!
     - Nunca poderá se provar qual o pior dos delírios. Crê ser o seu?
     - Não. Ainda não. Ainda sou muito contido. Ainda me falta aquele mínimo, ainda me falta estar do outro lado.
     - “Take me to the other side”, não é?
     - Este não é o momento para músicas. Pelo menos não para essa.
     - Você entra em conflito com sua própria filosofia. Não era de musicalidade que queria rechear suas obras?
     - Esta não é obra minha.
     - Não?
     - Não estava falando de nosso diálogo, caso tenha entendido isso do último comentário.
     - Não me cabe acompanhar a linha de raciocínio que sugere, então.
     - Por que não?
     - Sou eu quem faço as perguntas, lembre-se.
     - Pois não mais as faz.
     - Tem certeza?
     - ... Você ainda é mais forte que eu. Pensei em como inverter os papéis, mas não pude. Ainda sou incapaz.
     - Você é patético. Muitos já me derrubaram e dominaram.
     - Você desconhece o vulcão submerso que ainda vai te desestruturar e destronar completamente. E esses que te venceram não terão vencido como vencerei.
     - E você acredita ser esse vulcão. Menos que isso, aliás: torce para que seja.
     - Esta conversa tomou maus rumos. Eu estava invocado; agora, além disso, estou confuso.
     - Seu coração é arrítmico.
     - Sim, às vezes o sinto acelerando um pouco, descompassando. Mas é uma sensação irreal; é reflexo de minha inconstância psicológica.
     - Algum dia, quando liberar toda a vontade de quebrar teclados que reprime e agrega, você vai cometer algum erro terrível.
     - Não sei se temo ou se anseio por este dia.
     - Parece até que essa sua dor de cabeça é algum pensamento que se congestionou e quer irromper de sua estagnação com a mais avassaladora das razões.
     - Sim, é ele. É o derradeiro pensamento, o apogeu de minha filosofia. Estarei o aguardando até o ocaso de meus dias.
     - Que valha a pena da espera.
     - Acabo de revisar este texto.
     - Consultou o dicionário?
     - Sim.
     - Quantas vezes?
     - Uma meia dúzia. Talvez, uma inteira.
     - Errou alguma palavra?
     - Uma vez coloquei um “conquanto” indevidamente. E, noutra, apliquei a palavra “incutir” quando o certo era “imbutir”. Por uma letra! Errei pela seguinte do alfabeto. Valer-me-ia nove pontos num tiro de arco e flecha.
     - Se fosse como disse, seriam duas letras. O “n” virou um “m” antes do “b”. Mas o correto mesmo é “embutir”. Três letras.
     - Sete pontos, então. Obrigado. Já fui lá arrumar.
     - Alterou muita coisa no texto, com a revisão?
     - Não muitas.
     - Mudou alguma fala minha?
     - Acho que sim, mas não excluí nenhum pensamento. Mudei mais as minhas, mesmo. Aquela da sala com as várias portas, por exemplo. Deixei menos ridícula. Tanto quanto possível.
     - Deve ter sido difícil. Aquela analogia foi simplória ao extremo.
     - Ainda acho que foi necessária.
     - De qualquer forma, fez um bom texto. As pessoas vão gostar.
     - Sim, vão. Geralmente gostam. Eu não as entendo.
     - Será que você fará novos amigos com isto?
     - Amigos, exatamente, não sei. Queria mesmo era que alguém em especial lesse.
     - Acha que vai?
     - Pare de me forçar a usar constantemente a expressão que mais repeti durante todo o diálogo. “Não sei”.
     - Por que você quer que a pessoa em questão leia?
     - Não sei.
     - Previsível.
     - Ardiloso.
     - A dor de cabeça, ela persiste?
     - Sim, mas se amenizou.
     - Você ainda precisa revisar a parte que veio vindo depois daquela em que disse que revisou o texto.
     - Acabo de o fazer. Uma única consulta ao dicionário, desta feita.
     - Qual palavra?
     - “Analogia”. E ainda tenho dúvidas.
     - Logo numa frase minha?
     - Desculpe-me.
     - Sem ressentimentos. E é aqui que nos despedimos, não?
     - Sim, antes que se exija nova revisão.
     - E só de pensar que tudo isto foi consequência da atitude daquele motorista de ônibus que encrencou contigo...
     - É. E deve ter sido por consequência da eliminação do Brasil da Copa, aquela atitude.
     - O mundo gira por motivos estranhos e escusos.
     - E um deles é você. Adeus.
     - Ah! Agora você me pegou! Gostei!
     -
     - Ei.
     -
     - Ei, você ainda está aí?
     -
     - Foi-se! Deixou-me sozinho! Como pôde? Tratante!
     - Calma, fui apenas fazer uma última revisão. Só alterei dois ou três pronomes, agora. Sabe que não resisto. Agora, tchau.
     - Tchau.

domingo, 26 de setembro de 2010

Súbito descontrole

     Não é possível. Não pode ser possível que eu tenha que passar metade do meu dia num inferno de trabalho, fazendo serviço triplicado, sem uma única pausa para alguns minutos de descanso além do horário de almoço, para então chegar em casa tarde, sem poder praticar minha música porque posso incomodar os vizinhos. Tenho, seja como for, que ficar ouvindo miríades de coisas que não me interessam ouvir quando chego cansado e querendo momentos para introspecção – e, se fosse só ouvir, tudo bem; mas, tenho “obrigação” de pensar a respeito, de ter ideias para planos que não são meus. Não tenho tempo nem para pensar nos meus próprios ideais! Cada partícula de inspiração me é tirada para finalidades diversas e alheias; e o que ganho? Um cisto no pulso, para me impedir de tocar guitarra. Pesadelos – pode parecer ridículo, mas ocorreram – com clientes taciturnos me olhando feio através do breu de algum aposento da imaginação onírica e me empurrando suas fichas para que eu os atenda de uma única vez, e se desrespeitando uns aos outros e exigindo minha mediação em seus conflitos egoístas.
     Não consigo ler meus livros. Todo tempo que consigo para tal fim, nunca me encontro sozinho – só se eu fosse para lugares distantes, o que, para uma solução cotidiana, imediata, é impraticável. Escrever algo substancial, neste estado, então, quase nem cogito; meus textos estão criando aranhas. Só consigo escrever isto neste átimo de descontrole porque só assim consigo me acalmar. Queria mesmo era quebrar a louça e o armário e gritar palavrões impressionantes.
     Mas, não posso. É mais de uma da madrugada. E, ora, o Felipe? Não, o Felipe nunca perde o controle. E se sente culpado até mesmo por ficar uma hora inteira bufando, em um raríssimo ataque de nervos, se espreguiçando e se contraindo e abraçando os móveis da cozinha. Sente-se culpado por ter chegado a este ponto, sente-se culpado por não conseguir dar atenção às pessoas de quem gosta, e também se sente culpado por ter dado liberdade demais para que pessoas de quem não gosta exijam sua atenção.
     Fico planejando dar um basta, mas também me sentiria culpado.
     Este é um relato em tempo real. Estou tremendo. Mas, mais calmo. Vim me deitar. Quando começou, há uma hora, estava num misto de tédio e aborrecimento tão profundos que não havia nada que eu pudesse fazer que não me irritasse mais. Comer, ler, escrever, dormir, ouvir música; nada. Ficar parado e odiando todo o teor da existência era a única forma de não implodir. Mas, aí veio a obrigação de me movimentar, de pegar meus óculos do chão, de comer. Foi então que fui à cozinha e repuxei a camiseta para esticá-la pelo rosto e cobri-lo. Estava frio, e fiquei com o torso a descoberto por um bom tempo antes de percebê-lo.
     Fiquei pensando. Como me desgasta esta cidade imunda, cheia de animais, que se dizem homens, nojentos. Sobre como coisinhas lindas e cheias de afeto atribuído são execráveis nestas horas, tais quais um monte de fitinhas coloridas que tenho numa caixinha, um boné, uma xícara com uma careta desenhada etc. Queria pôr fogo nisso tudo, quebrar, estraçalhar. Mas, e o afeto? Por que atribuímos valores sentimentais às coisas, que nos impedem de destruí-las?
     Fiquei pensando. Sobre como queria estar em outro lugar, com determinada pessoa, em outro século – distante, num tempo bem passado, quando ainda boa parte do mundo era um mistério e a cartografia era um ofício de novidades constantes.
     Fiquei pensando. Como, de qual maneira ainda posso querer estudar, se sem isso já estou assim? Onde haveria tempo necessário para todas as minhas opções e obrigações?
     Fiquei, além disso tudo, pensando sobre a significância de meu desespero. Todo dia, quando vou trabalhar, vejo pessoas que talvez não se lembrem de seus próprios nomes andando descalças pelas ruas imundas do centro. Quando penso nelas, sinto-me ainda mais culpado por ficar angustiado com meus nobres problemas. Imagino moralistas me dizendo “Você tem sorte de poder trabalhar, mesmo que se desgaste nisso!”, “Sorte sua ter um móvel dentro de uma cozinha também sua para ter vontade de esmurrá-lo”. Mas, dentro de meu próprio contexto, tenho, sim, direito de me angustiar.
     Agora, estou mais calmo. Amanhã, arrumarei este texto todo e publicarei. Agora, vou dormir. Deixei coisas a fazer. Mas não me importo nem de relembrar quais são. Amanhã, amanhã. Hoje, já estourei. Exauri-me. Já terei dormido, acordado e revisado o texto no próximo parágrafo.
     O que de fato aconteceu; o eu das linhas acima é parte de um bloco de espaço-tempo que já passou. O texto já não contém todas as partes originais, como também possui trechos novos, adicionados pelo eu presente. Estou sob meu domínio novamente. Mas, nada mudou. Tive alguns segundos para tocar minha música depois que cheguei, hoje. O pulso, aliás, ainda dói. Hoje, pelo menos, não houve muitos conflitos na loja.
     Só não perco a razão pois forço-me a crer que algum dia estarei melhor.
     Vou ver se escrevo sobre os mistérios do mar, agora. Abraços.

Teorias dialogadas

     - ... Quer dizer que você acredita mesmo em um paraíso?
     - Sim; é onde, depois de nossa vida honesta pela Terra, viveremos para sempre em alegria.
     - Você tem alguma ideia do que significa, de fato, “para sempre”? Não acha que, algum dia, mesmo que esse paraíso exista, vai acabar?
     - O Reino dos Céus é eterno.
     - E o que você vai fazer durante toda uma eternidade lá? Tenho certeza de que você nunca assimilou o conceito de “eternidade”.
     - Não há necessidade de se cogitar os afazeres celestes da eternidade; simplesmente existiremos em paz divina, na presença de nossos queridos que já partiram e de outros, bons, enquanto ruirá o mundo terreno e as almas pecaminosas danarão eternamente, enquanto desfrutaremos do Paraíso, nas profundezas hediondas do Inferno.
     - Sei. Mas, como será a rotina paradisíaca? Vocês, que pretendem ir para lá a qualquer custo, vão apenas ficar olhando uns para as caras dos outros e ficar felizes com cada presença anônima aprovada para entrar em tal Reino? Será um antro de todas as emoções puras, honestas e positivas? Sobre o que conversarão? Qual será o assunto cotidiano? O baixo firmamento repleto de tenras nuvens? O sempiterno aroma de flores recém-desabrochadas, a singeleza de paisagens rurais e a vivacidade dos ingênuos animais que por ventura por lá estiverem? Dou alguns anos para não se ter mais sobre o que se conversar, não ter mais distrações. Tudo vai virar um grande tédio. E volto naquilo: mesmo o Paraíso não terá um desfecho repentino – assim como teve um começo inexplicável, o universo – mesmo em seu Deus? 
    - Você não entende. Deus é a razão. Deus, é inexplicável, e isso explica quaisquer inícios e termos. Deus é a origem, o fim e o recomeço. Deus é a unidade que abriga todas as propriedades do cosmo. Quanto à “rotina”, não pense no Paraíso como uma cópia rural da vida na Terra. Lá, estaremos distantes das preocupações; dentre elas, a que você chama de “rotina”. Viveremos num fluxo que nos impelirá distraidamente pelos deleites dos sentimentos bons. Não será um mundo físico e, destarte, corruptível. Estaremos distantes do alcance de qualquer maldade, seja exterior ou de nosso próprio interior.
     - Quando estiver por lá, nunca irão – como haverá bastante tempo para se pensar – conjeturar sobre o que os aguarda além das fronteiras do Paraíso? E o Tempo, que um dia virá para destruir a Memória? Acham que estarão seguros do final do processo que não se sabe como, nem quando – e nem mesmo se –, se iniciou, que possibilita a existência da consciência, que é o deslocamento do espaço pelo tempo? Tem certeza de que não nascerá discórdia do tédio de tantos milhares de séculos de “sentimentos bons”?
     - A percepção do tempo será diferente. Não se contarão em anos, dias, horas, como se faz aqui. Viajaremos dentro do tempo, e não através dele. E o tempo não findará. O universo não encontrará um final.
     - Se você considera, então, que não haverá ocaso para o cosmo, dará na mesma qualquer percepção do tempo a passar. Como nunca vai acabar, em algum momento o peso do acúmulo dos eventos e dos sentimentos os enfastiará, e vocês estarão eternamente presos à felicidade do Paraíso. E isto é abominável: estar preso a uma vontade, que não mais é sua, de forma inescapável.
     - Está insinuando que algum dia “enjoaremos” da presença tão mais próxima, certeira e constante de Deus? Você acha abominável viver em alegria eterna? Ora! Vocês!..., vocês são incompreensíveis. Buscam, durante a vida inteira, provar coisas tão absurdas quanto parecem ser as nossas a vocês. O que me aflige é que o que querem provar é a negação absoluta. Querem negar que exista um Mistério ancestral e infinito, sendo que nós o respiramos constantemente – não há quem não sinta a tangibilidade inextricável da existência como um todo! Querem negar tudo tenha um propósito, o que é, contraditoriamente, praticamente comprovado por suas próprias teorias – não foram vocês mesmos quem calcularam que a existência de vida, ainda mais inteligente, tão somente é possível sob circunstâncias tão específicas que se consiste um evento da mais extrema raridade?
     - Concordo; entretanto, como qualquer teoria, teísta ou ateísta, que é conjeturada – que, a partir do momento em que nasce, não se consegue provar ser verdadeira nem falsa –, surgiu, ao mesmo tempo dessa que diz sobre a raridade da vida, a hipótese dos multiversos, e de que estamos no único, ou um dos únicos, dentre infinitos outros que falharam em conceber vida. E você me dirá “ora, o que te faz pensar que teve a sorte de estar exatamente no universo certo, sendo que em todos os outros não há consciência para se sentir?”, ao que eu responderei “Por isso mesmo; a consciência, só existindo sob as condições raras em que nos encontramos, só consegue alcançar a si mesma se, obviamente, existir em algum lugar”. Só se pode existir, e saber disso, onde há essa possibilidade. Alguém tem que estar em algum lugar para se pensar sobre qualquer coisa e acabar chegando onde estamos. E o lugar só pode ser onde há a possibilidade de consciência, é claro. Estamos aqui para provar que não estamos alhures. E outra: se, aceitando a hipótese dos multiversos, ainda assim não houvesse em nenhum deles a mais singela forma de vida e consciência, se todos os versos do cosmo fracassassem em conceber a vida e atribuí-la, em algum momento, consciência de si própria e do decurso do tempo, seria como se tudo jamais tivesse existido, nem tentado existir. Não haveria alguma coisa, algum alguém para sentir o tempo passar, para sentir sua inexorabilidade. O cosmo precisa de nós para existir. Só existe através de nós. Teria sido um descaso consigo se não nos houvesse criado, para que, destarte, se sentisse sua existência. O cosmo – a menos que seja ele mesmo algo vivo e consciente, e minhas teorias não descartam essa possibilidade – existiria sem o tempo, explodiria e se encolheria novamente e voltaria ao vazio primordial sem que nada além de trocas químicas invisíveis ocorressem, sem qualquer motivo maior, mas apenas um conjunto de ações e reações arbitrárias. Se quiser, pode considerar isso uma forma de vida. Talvez o universo seja uma consciência colossal, cujas ressonâncias dos pensamentos sejam o que nos faz acreditar em deuses e ciências.
     - Chega um momento em que se deve escolher entre analisar a bênção da vida de forma branda, aceitando que possa haver uma presença de consciência pairando em cada recanto do mundo físico que não apenas a de Deus, mas de qualquer reação química, ou só aceitar a existência de vida ao que nossos olhos enxergam, o que nos pode fazer parecer muito arrogantes, quase como detentores de uma percepção aguda, perfeita, incontestável. É paradoxalmente terrível o mundo das ideias, que nos flagela com o açoite da prepotência sob qualquer tentativa de julgar, comparando, o certo e o errado, a vida e sua ausência. Veja, compreendo todas as suas teorias. Percebo que você entende a sutileza entre cada uma das crenças, afinal. Isto que estamos tendo não é uma discussão, um debate nocivo. Acredito, agora, fora de intrigas existenciais e hipotéticas, que estamos criando um agradável e construtivo laço de amizade.
     - Sim, acho que estamos. Mas, tantas teorias me cansaram a mente e até os músculos do rosto, com o esforço da concentração. Sinto tantas ideias tão entrelaçadas que prefiro deixá-las para analisar posteriormente – como se deixa para tentar soltar um embaraçado de fios de costura, onde qualquer um que for puxado erroneamente acarreta num nó quase indesatável, quando se tem as vistas descansadas, para se escolher os certos a puxar.
     - Ah, sim, também sinto o mesmo. Olha, lá vem. Você vai até qual estação?
     - Até a final.
     - Eu desço na quinta, daqui. Olha, é um daqueles trens novos! São um barato. Vamos, tem um banco para dois ali, desocupado.
     - Sim, vamos. Eu sempre vejo os trens novos da outra linha. Estes desta são raros!
     - Ah, é? Comigo é o contrário.
     - Mas, considerando o fluxo de usuários e do itinerário usual de cada um, é mais comum ver os da linha que eu disse.
     - Só se você considerar que...

(e discordaram alegremente por mais cinco estações naquele dia, e em outros; então, se tornaram e continuaram grandes amigos até que o Mistério os tomou da vida sobre a Terra e os levou para longe da Memória e para mais perto do Tempo, onde pudessem provar – ou não – suas conjeturas um ao outro)