segunda-feira, 25 de maio de 2020

Nova última mera despedida

Talvez não tão breve.

Há quase oito anos, me despedi de Aline, de quem eu disse que sentiria saudade porque, em diversos aspectos, ela tinha um espírito semelhante ao meu.

Há quase dez anos, comecei este blog, falando sobre balões.

Isso talvez diga algo sobre mim, flutuante do quase, iniciante de tudo, sempre.

Eu havia acabado de conhecer Nathália, ao acaso, em algum lugar na internet. Se não me engano, em algum fórum da Uol sobre literatura, algo assim. Nathália escrevia, eu escrevia; e logo também escrevemos um ao outro, trocando então algumas cartas. Talvez ela escreva ainda hoje, mas quem sabe? E o que é escrever? Um ofício de prática regular? Se for, tampouco o faço; e assim naufraga tudo o que sempre achei eu ser.

Claro, apaixonei-me por Nathália.

Mas, igualmente claro, apaixonar-me sempre foi coisa tão frequente, quase - quase - sempre me basta um olhar, um sorriso, uma palavra, e não me deito sem escrever prosa tortuosa anagramática sobre qualquer pessoa.

Contudo, ademaismente claro, tive sim paixões maiores, e Nathália foi uma dessas. Muito do que eu era quando comecei este blog dá voltinhas por sobre a imagem de Nathália, e por isso iniciei por ela este último devaneio, ainda que ela não tenha sido nem a primeira nem a última das pessoas de quem já gostei. Deve ser hora então de desvelar o inventário que há tanto tempo eu fiz, em que eu escondi essa gente toda pelas iniciais... e desvelar-me a mim mesmo no processo. Há outros mistérios no mundo que continuarão escondidos, sobre os quais ainda se poderá devanear; mas estes, já era tempo de estes saírem à luz do sol. Presto contas, mais a mim mesmo que a qualquer outra pessoa, e assim espero seguir mais leve.

Volto brevemente, portanto, um pouco mais agora, antes dos balões, para quando Caroline havia se mudado para o Espírito Santo, para Vila Velha. Isso me doeu muito. Ela foi por quem eu mais troquei letras e nomes, sempre. Repetidamente escrevi em código para me sentir mais à vontade de não-dizer abertamente os dizeres que eu pensava sobre ela.

Do inventário então em que eu os havia escondido pelas letras iniciais, agora apresento meus amores, como eu disse que nunca faria. Quando eu era criança, gostava de Júlia. Bom, eu era criança; quase não faz sentido chamá-la aqui. Mas está chamada. Gostei de Daniela um pouco mais tarde, logo antes de Caroline, já adolescente; meio que por essa época conheci também Lívia, que morava em Belo Horizonte, e Débora, que morava em Recife, se não me engano. Nathália, de quem já falei. Bruna, com quem estudei na FMU, por pouco tempo. Interessei-me por mais uma Caroline, desta vez da USP, e talvez eu tenha forçado meu gostar só pela sua homônima. Depois, por uma outra Débora me nasceu um fascínio enorme, numa aula à toa, num museu à toa, há quase (quase) oito anos... por tanto tempo em que lá passei, a universidade me trouxe também Soraya, no caratê, outra Bruna, uma Paula. Meus pensamentos voam e revoam a essas pessoas, à mercê dos meus caprichos de cada época, cada momento.

E Juliana. Juliana, com quem morei e vivi muitas coisas boas e algumas ruins. Juntos, experimentamos diversas cervejas e comidas, passeamos, militamos, perscrutamos a essência política de cada coisa, adentramos nos profundos mistérios do pensar, refletimos sobre os amplos aspectos do mundo e viajamos nas distâncias impossíveis do cosmo. Amei, amamos, muito; e ainda que ao final tenhamos reformulado o que somos, ganhamos um no outro companheiros de vida toda.

E eu toquei minhas paixões por tantas ruas, travessas e alamedas... Fui conhecer Malu, Liz, Marcela, pessoas pelas quais caí de amores logo de cara, e com as quais tive algum tipo de relacionamento. Mas logo as deixei, ou fui deixado; errei e machuquei foi muito. Conheci tanta gente, tanta gente... mas o fato é que não gosto de me relacionar, talvez. Assim eu fui vendo as pessoas vindo e indo a mim e de mim, e aqui fiquei, sendo eu só. E disso não sei ainda dizer bem. Gosto de estar sozinho, sim. Mas gosto apenas de gostar, então? Mas gostar mesmo, não gosto?... o que é isso? Quem sou eu?

As respostas nunca chegam porque não somos estáticos: estamos sempre nos transformando e nos reestruturando. Só se podem ver respostas ao que éramos, e olhe lá.

No geral, nesses quase dez anos, comecei diversas coisas - sou bom em começar. Encontrei alguma vocação no estudo de línguas, abandonei odiento meus cursos e renovado os retomei. Militei, corri e apanhei da polícia. Aprendi na pele o que era consciência de classe. Aprendi a gostar mais do ladrão pé de chinelo, muito mais do que de qualquer cidadão de bem. Adotei junto com Juliana duas cachorras tão lindas, e sozinho adotei dois gatos tão lindos. Descobri novas maneiras de amar, neste turbilhão que foge à romanceada heteronormatividade branca europeia, e repensei então tudo sobre quem eu já gostei, e a forma como gostei. Comecei a praticar esportes algumas vezes. Comecei a fazer terapia. Desbravei enfim sem mais temores as mais variadas músicas. Minha avó faleceu. Estive para pedir as contas do trabalho, mas continuei.

E o mundo hoje vive uma pandemia, um vírus forte; mil vezes mais letal, contudo, neste sistema falido voltado ao lucro. Estamos todos distantes uns dos outros, em quarentena, e mesmo eu, que sempre gostei de estar só, estou demasiadamente só.

Quase se completaram dez anos, quase. E aqui estou. Puro meio acaso que eu confinasse agora aqui escritos dos meus vinte anos. Só fui reparar na idade do blog quando comecei a digitar.

Penso que minha frustração aos 30 é que uma vida não me baste, mais me valeriam cinco, seis vidas de Felipe, que seria eu polímata, pois não há nada que não me interesse: eu quero tudo, quero todas as ciências, e recombiná-las. Quase não me contento com o tempo que cabe ao humano, quase. Entretanto, sou pragmático; que se há de fazer?

Será que todos passam por essas coisas, sentem esses sentimentos, aos 30? Ou é algo que acontece com alguma frequência então: a cada decênio, talvez? Talvez haja mesmo uma certa melancolia nascida socialmente a cada vez que recebemos o próximo número das dezenas de vida. Só não se percebe e não se lembra disso direito quando recebemos a primeira delas... e, se passarmos à centena, talvez nem saibamos mais contar... nem lembrar...

Quis fechar este blog porque não me parece mais fazer sentido. Minha vida seguiu alguma progressão até um tempo atrás, de altos e baixos, altíssimos e baixíssimos, e entediantes e tristes entremeios. Mas desde a última vez em que escrevi aqui, passei por mudanças bem mais significativas. Ter voltado a estudar foi uma das principais. Retomei minhas histórias - não estes devaneios que sempre publiquei, mas sim as imensas tramas que nascem e morrem e renascem e remorrem e transcendem em mim há muito mais tempo que os quase dez anos do blog.

Sentirei falta do nome do blog. De sua cara. Foi uma ideia muito boa, e inaugurou uma fase muito agitada da minha vida. Mas é hora de ir para o próximo período; estou pronto. Penso que serão anos ainda mais intensos, mas esses últimos quase dez são pilares fortíssimos sobre os quais me firmarei para prosseguir. Aprendi muito, devo ter ensinado alguma coisa também. Mantenho os princípios que compreendi serem os corretos pelos quais me guiar, e com os quais transformar este mundo repleto de opulência e miséria. E sigo amando.

sábado, 1 de setembro de 2018

Não couberam os cinco

As ideias me são fugazes quando me disponho a escrever,
Mas me fustigam junto ao vento cortante da madrugada de inverno,
Enquanto caminho sozinho entre as casas onde vivi
E lamento meus despedaçados amores;
E outra vez se esvai a imaginação quando tento dar-lhe corda justamente nestas condições,
Caminhando, após uma conversa séria, ouvindo uma música triste, no frio, de madrugada,
Pois só nessas condições me treme a mão para escrever.
Mas só o que me vêm agora são as recordações das dores,
Não a exortação a um futuro onde as curo;
Queria me dar a pensar sobre habitar novamente minha última década para encontrar caminho,
Mas só me chamam as minhas velhas prosas, onde eu dizia querer "me divertir imenso e te cansar a beleza infindável".

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

De 15 anos pra cá

Nos últimos anos, em que eu praticamente nada escrevi, alguma coisa muito profunda mudou em mim. Reli meus textos antigos, da época de Capei, e não, eles não são tão arrogantes quanto eu me lembrava. Muitos têm um vocabulário comum pincelado num quase surrealismo sintagmático; era disso que eu mais me orgulhava, de como eu fazia poemas sem versos. Mesmo os antigos textos obcecados com Capei são lindos e inspiradores, apesar da toxicidade a que tanto me expus tentando consagrar o "amor perfeito".

Mas como eu disse, alguma coisa muito profunda mudou em mim. A política e o trabalho me exigiram endurecimento, e por muito tempo reneguei minha escrita academicista - ou como assim eu a enxerguei nos últimos anos, sem nem olhar para trás. Enterrei minha prolixidade passional junto ao fim de Capei, e voltei a trabalhar a escrita, após esse período de anos em hiato, de maneira mais sóbria, dura, seca, sombria.

Mas como eu disse, alguma coisa muito profunda mudou em mim. E digo isso não só pela brutalização a que a vida me forçou, por tanto trabalho, frustrações acadêmicas, doenças e perdas; essas coisas me tiraram do mundo sonhador do fim da adolescência e agressivamente me jogaram no mundo adulto da exploração da força de trabalho e do embrutecimento. Digo que alguma coisa muito profunda mudou em mim porque, no processo de lutar pela minha sanidade, tornei primeiro minha mente rígida, criei barreiras espessas de aço para sobreviver ao dia a dia da rotina de trabalho; e hoje, após muito treino, finalmente flexibilizei minha mente. Não mais um velho adolescente sofrendo por amor não correspondido, mas também não mais tão rigoroso a ponto de não conseguir mais escrever nada por receio de estar sendo minimamente abstrato. Hoje quero voltar a escrever o que me der vontade.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Universitário

Será que quero mesmo estudar Grego de novo? Ou será apenas que não sei o que quero estudar e Grego é um passado intrigante da minha vida que quero resgatar? Ou será que a fabulosa quintessência acadêmica está tentando me fisgar, sabendo minhas inclinações elitistas no meu jeito de ser artista? Ou será que eu só quero alguma coisa difícil para prender minha atenção crescentemente volátil e um treino manual de escrita qualquer?

Num universo paralelo eu fiz iniciação científica com Giuliana Ragusa e me sobressaí a todos os colegas de estudos, e mesmo assim sem a arrogância típica dos letrandos em letras clássicas. Consegui a orientação de uma professora casca grossa do curso mais conservador de Letras da universidade pública mais importante da América do Sul, sem sequer correr atrás, como muitos fizeram sem sucesso; fui chamado por ela para ser seu orientando.

Não foi bem num universo paralelo. Foi há 5 anos. E eu deixei tudo isso de lado para continuar na vida operária. Não era uma simples questão de escolha na verdade. E mesmo assim era. Deve ter tido quem me odiou ou me achou leviano por abandonar uma iniciação científica do jeito que eu fiz... mas na parte em que me cabia escolher, escolhi o caminho para me construir quem eu quero ser, e acredito que tomei o caminho certo repetidas vezes, mas quem saberia dizer além de mim que é o caminho certo, sendo que parece tão estranho visto de fora?

Mas foi o que eu escolhi e não me arrependo nem um pouco, apesar de ser muito mais duro que viver na bolha acadêmica. Vão me dizer sobre oportunidades e essas coisas, mas não era uma oportunidade se me faria me distanciar de quem sou, do que sou. Era uma armadilha. Uma armadilha que me colocaria contra tudo que eu quero construir e oferecer, que reduziria o alcance da minha voz a uma pequena e privilegiada parcela da humanidade... não, eu quero o mundo, eu quero o verdadeiro mundo, quero as verdadeiras pessoas... eu quero o mundo inteiro, e me doar por inteiro nesta enorme batalha que é emancipar a humanidade do jugo de poucos. E para poder viver esta vida eu jamais poderia elaborar a antologia de Ájax Telamônio. Não... mesmo esta escolha já dizia lá no fundo que eu não estava apto para o papo do café literário burguês da sala dos professores da academia... não se eu fosse falar do Ájax Telamônio... vocês queriam beleza e eu só queria destruição. E o curioso é que tudo que eu quero destruir é meu privilégio de estudar; não quero destruir Ájax nem Aquiles, quero apenas destruir aquilo que impede que sejam estudados muito mais inteligentemente e abrangentemente, pelas futuras gerações, por qualquer um, por todos, por uma comunidade científica composta por todos os membros da humanidade. Eu quero destruir tão somente seus sonhos de grandeza e seu clube de masturbação erudito. Eu quero colocar fogo em seu ego, não em seus papeis. O conhecimento deveria ser livre; eu sou apenas um pequeno instrumento de sua libertação. Mas é tudo que sou; eu entender Homero é irrelevante e triste se Maria do Carmo não puder entender Homero.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Um ano sem falar de vocês

Minto. Faltam 5 ou 6 dias pra completar um ano. Descobri recentemente que sinto falta disso. Esse sempre foi meu principal exercício artístico. É curioso como, sem perceber, fui adequando cada tipo de necessidade a um veículo diferente: os cadernos sempre favoreceram as ficções; os blogs, abstrações cotidianas, desabafos, relatos; e agora o instagram veio ser um exercício criativo espontâneo que muito tem me ajudado a voltar a pensar artisticamente. Depois que comecei a me envolver politicamente com o mundo, minha principal barreira ao ato de escrever foi minha forma elitizada, academicista, consolidada há anos na forja das minhas presunções, da minha militância juvenil ateísta arrogante, do meu orgulho gramatical normativo, do meu prestigismo literário etc. E vejam só, mesmo lutando muito contra isso, ainda escrevo com um pezinho no que eu sempre fui. Não sei mais se estou mesmo sendo ainda muito elitista ou se este é o mínimo necessário de brisa poética dificultosa pra essa minha necessidade de falar de vocês sem revelar nada além de talvezes duvidosos.

Ah, sim. Eu comecei esse texto com intenção de falar sobre vocês.

Na verdade a maior parte de vocês acho que veio depois da última postagem, de quase um ano atrás. Mas uma parte, claro, vem de antes. Bom, como falar? Se eu ainda lembrasse como falar em grego, talvez fosse melhor, já que a principal ideia do meu jeito de escrever aqui é revelar sem revelar. Posso dizer que vi olhinhos antigos como eu não havia visto antes; também que outros olhinhos novos vi com gosto e desgosto alternados; outros olhinhos que achei que nem veria mais voltaram; e teve uns olhinhos puxados que quase me matam de tristeza de tanto mistério e afastamento - aliás, são dois pares de olhinhos puxados, mas um deles eu não posso dizer que revi mesmo.

Que horrível, não? Ou eu não sei mais não-dizer igual antes ou tenho bem mais receio. Nada que não melhore com algum treino, acho...

Olhinhos, eu gosto muito de todos vocês. Eu só sou péssimo pra dizer isso. Olha quantas voltas. Quem sabe daqui uns dias eu não melhoro. Afinal faz quase um ano. E eu nem sei mais o que tô falando. Tô com muito sono.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Quem tem por hábito escrever, desenhar, se expressar artisticamente, enfraquece o demônio que aperta o coração nas horas solitárias, durante a fragilidade da depressão. Como eu não tenho esse hábito, hoje chorei engasgado, tive calafrios, não consegui dormir, e agora estou com medo e assustado.

sábado, 25 de março de 2017

Tudo volta ao ponto em que a vida e a memória se anulam

Sentado outra vez atrás da mesa de negociações, José não vê mais a hora antes do almoço de minuto em minuto; não tem mais importância. Nem muito mais o que o cliente lhe diz, ou quem o empurra quando está parado no meio de tanta gente passando. Ele lembra de coisas vagas, de memórias de dias atrás que já parecem cenas de filmes antigos em VHS, chuviscadas, o som distante. Estava entrando numa cozinha de teto baixo numa casa pequena, alguém lavando louça enquanto ele varria o chão. Agora ele estava chegando numa construção antiga, para esperar algumas horas antes do fim do expediente daqueles funcionários, com quem fez alguma amizade por conta de uma das pessoas que trabalhava lá. Agora já era madrugada e eles passeavam com certa apreensão entre prédios do campus, parando com alguma frequência para olhar as árvores. Agora eles estavam subindo numa árvore. Agora tudo brilhava na cidade litorânea à noite, do ponto mais alto da roda-gigante. E o mar aquela noite estava tão calmo quanto seus corações e seus olhares, como na vez em que viram as nuvens passarem detrás do relógio imenso, como quando se encontravam de manhã, sonolentos, antes das aulas...

José não existe mais.

Por que eu gastaria meu tempo explicando?

Sexta-feira
Dia em que todos vão estar ocupadíssimos
E você que ficou em casa fica sem nem saber se está sendo ignorado porque a pessoa nem quer saber de você ou se porque não existe nem tempo para olhar para o celular (onde estamos sempre olhando) para saber se você está vivo ou não
Até pouco tempo atrás era questão primária você chegar em casa às 23h15 da sexta-feira, pois você estava bêbado como há muito não ficava. Mas agora não é tão importante assim saber disso...
Você só está em casa sozinho enquanto todos estão em qualquer lugar extremamente satisfatório, onde cada um se sente bem, cada um encontra um lugarzinho que lhe dá algo de pouco ou de muito para sobreviver mais um dia, e na verdade todos vocês estão certos, é difícil, e sobreviver só mais um dia, só mais um pouquinho, é muitas vezes questão vital.

Mas quando você está na sua casa e não existe nada além desta página em branco para escrever, nenhum movimento em sua direção, nenhum dispêndio de energia a seu favor enquanto há um mundo de mini-alegrias ali fora, dentro da sexta-feira; enfim, neste exato momento, existe um gatilho de morte tão pequeno e tão infinito na sua mente que agora sim você entende como um buraco negro pode conter tanta matéria num ponto tão minúsculo. Agora sim você entende aquele momento tão breve em que as dores nascem já como uma árvore antiga e deformada, é apenas um segundo de vida e já algo tão horrível que se mostra... e as raízes já estão em todo lugar, não há mais o que fazer...

Nesta sexta-feira em que o mundo está tão ocupado, você perde um pouquinho mais disso que chamam de vida e ninguém vê, mas depois todos te perguntam "ué, Felipe, quando foi que você ficou assim tão triste?"

E eu queria responder "naquela sexta-feira em que eu tinha tanta dor e tanto a dizer mas todos tinham tanta alegria e tanta coisa a fazer que eram como dois universos, eu e os outros, e não há mesmo nada a explicar, as coisas pertencem a mundos diferentes. É como ter que explicar desde o princípio o que são coisas como o ar, a terra, o tato, a visão, coisas tão óbvias que não tem nem como saber por onde começar... Por que eu gastaria meu tempo explicando?"

quinta-feira, 23 de março de 2017

Quando ela me beijou pela primeira vez

Quando ela me beijou pela primeira vez, eu já sabia que ela amava mais de uma pessoa... eu já sabia que ela beijaria cem bocas... eu já sabia, mas a maré do mar da minha abstração interior ainda era baixa; eu não tinha nada, só o germe das dores que eu cultivei e espalhei, mas ela, ela já tinha um pé em outro mundo... e aquele brilho que eu achei que era do poste refletido nos olhos dela era, na verdade, o sol que só ela conhecia, brilhando no futuro... eu ainda não conhecia o café que eu iria lhe preparar em inúmeras manhãs, nem a musiquinha que ela cantava com voz tão linda no chuveiro, nem a palminha que ela bate quando está toda feliz e rodopios... eu não tinha nada, e ela tinha tanto... e eu ainda não sabia o gosto que as lágrimas dela teriam... e às vezes me dói tanto quando eu não sinto que na verdade ainda há tempo e tudo e tanto e vida e sorriso... e um abraço apertado apertado apertado, quente e forte, que carrega qualquer muro...

quarta-feira, 22 de março de 2017

Outra vez, mas você é meu alguém

Você indo, eu voltando... através da plataforma, te vejo no outro trem, um instante antes de sumir da vista no movimento que te leva embora. E eu não sei se você me viu ou não. Queria tanto que tivesse me visto...

O trem que me leva pra longe de você é cruel. Poderia descer na estação seguinte, mas sei que nunca vou te alcançar, e sempre chegarei tarde demais para saber em qual estação voce desceu.

De que me adianta olhar para todos os trens à sua procura, agora? Seria como te procurar olhando para a multidão que passa na frente do Teatro Municipal, ou na 25 de Março no dia das mães. Improvável te rever. E insano; pode ser que no momento em que eu descansar os olhos você passe e eu não veja. É melhor não fazer nada disso e contar com a sorte de novo...

Mesmo assim agora eu sempre observo as pessoas no trem oposto.

Solo

Descaracterizado, estou onde se veste de preto e se grita pra rasgar a garganta. Aqui se fala do abstrato, mas o que eu tenho são as botas do trabalho no pé e três vidas de dor no coração. A conversa daqui é igual a de acadêmicos: elitista, prestigista, velha e saudosista, presunçosa. Discurso conservador em roupa rebelde. Gente que poderia ser jovem no início do século retrasado, e nem lá direito.

Escrever deixou de ser útil. Mas é só o que eu sei fazer. E agora? Não há mais tempo para aprender, e mesmo que houvesse, não se aprende a desenhar do dia pra noite, que era o que eu precisava. Talvez se eu desenhasse ou fizesse música seria mais fácil me expressar, mas escrever não me serve mais. Até isto aqui está sendo ridiculamente difícil. Escrever é minha expressão mais antiga e conservadora.

Um manto de dor

- Eu não consigo.

Ela falou alto mas sozinha com uma expressão de quem já morreu mil vezes, então se levantou devagar, sem mais nenhuma palavra. Ninguém ousaria tocá-la para confortar, dizer-lhe algo para raciocinar, colocar-se de frente a ela para impedir seus passos, que todos sabiam ser os últimos. Ela caminhou devagar, mas firme, repelindo todos apenas com a dor que emanava, e saiu.

Acho que fui o último a olhar em seus olhos. O que vi me impediu de tomar qualquer atitude para salvá-la, pois não havia nada lá para ser salvo, e talvez eu próprio me perdesse naquele vazio.

Entretanto, eu a conheci; e como alguns ali, mais que a maioria, eu sabia que havia algo lá... havia algo lá naqueles olhos que era fogo e não vazio, algo que nada poderia destruir... então, o que estava acontecendo? Ela caminhava sob um céu enjoado que não chovia nem abria, se afastando, e não houve quem tivesse força e ímpeto de trazê-la de volta. Nunca mais a vimos, e acho que ela continuou caminhando até morrer em pé em algum lugar onde ninguém a conhecia e nem nos mandaria notícia. Ou quem sabe até hoje ela caminha, cada vez mais distante...

O que aconteceu? Penso que talvez foi o mundo, pesado demais em suas costas, mas não entendo... só o que dela me restou foi essa imagem terrível de seus últimos momentos, tão forte que mal me recordo se algum dia de fato vi seu sorriso.

Parece-me inclusive que tudo está mais cinzento, como se o que ela carregasse tivesse caído sobre todos nós, como um manto, e agora o mundo e todas as coisas seguem de fato para o fim...

domingo, 5 de março de 2017

Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei
Era quase escravidão
Mas ela me tratava como um rei

Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela
Eu não tinha aonde ir

Mas egoísta que eu sou
Me esqueci de ajudar
A ela como ela me ajudou
E não quis me separar

Ela também estava perdida
E por isso se agarrava a mim também
E eu me agarrava a ela
Porque eu não tinha mais ninguém

E eu dizia ainda é cedo
Cedo, cedo, cedo, cedo
E eu dizia ainda é cedo
Cedo, cedo, cedo, cedo
Ah, eu dizia ainda é cedo
Cedo, cedo, cedo, cedo
Ah, eu dizia ainda é cedo

Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei

Ela falou: Você tem medo
Aí eu disse: Quem tem medo é você
Falamos o que não devia
Nunca ser dito por ninguém

Ela me disse: Eu não sei
Mais o que eu sinto por você
Vamos dar um tempo
Um dia a gente se vê

E eu dizia ainda é cedo
Cedo, cedo, cedo, cedo
E eu dizia ainda é cedo
Cedo, cedo, cedo, cedo
Ah, eu dizia ainda é cedo
Cedo, cedo, cedo, cedo
Ah, eu dizia ainda é cedo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Capitalismo e a liberdade de vender sua força de trabalho

No mundo em que vivemos somos livres para vender nossa força de trabalho para o empresário, ou morrer de fome. Na verdade, mesmo que você queira vender sua força de trabalho, talvez você também morra de fome, pois não há empregos para todos, apesar de a maioria das empresas ter um quadro reduzido de funcionários, super-explorados e sobrecarregados, para que a margem de lucro do patrão possa continuar aumentando.

Quando você conseguir seu emprego, onde você poderá utilizar o pleno potencial de seu cérebro em elaborar planilhas ou vender bilhetes de viagem ou empilhar caixas, você passa a ter a possibilidade de ser supervisionado pelo capataz do dono da empresa, pois os donos da maioria das empresas são desconhecidos, às vezes até de nome, que nunca puseram os pés no local. O capataz vai te dizer se você está trabalhando corretamente, ou seja, vai dizer que seu corte de cabelo ou sua barba é inadequada para a sua função, ou te assediar sexualmente se você for uma mulher cisgênera, transgênera ou homem transgênero.

Muitos vão dizer que não existe machismo e transfeminicídio, nem racismo, apesar de, por exemplo, as mulheres cis terem que ser mães e donas de casa e ganharem menos que os homens cis, apesar de a expectativa de vida de mulheres trans ser de 30 anos, apesar de os negros serem a maioria na favela. As pessoas negras, inclusive, ganham menos por fazerem as mesmas funções que os trabalhadores brancos. Então, na maior parte das vezes o seu supervisor estará te julgando pela sua cor, orientação sexual, identidade de gênero, religião, peso, até mesmo altura, tatuagens (desenhos na pele que, de acordo com o julgamento das mentes conservadoras, devem interferir muito na sua capacidade de fazer o trabalho), ou caso tenha algum tipo de deficiência. O mais engraçado é que o capataz no capitalismo nem sempre é um homem branco, cisgênero, heterossexual, magro, cristão; às vezes, apesar de um pouco raro, é uma pessoa negra, por exemplo, ou homossexual (apesar de que dificilmente será uma pessoa trans), etc. Afinal, melhor fazer de conta que as oportunidades são iguais para todos esses grupos de pessoas e colocar as pessoas oprimidas para oprimirem seus iguais. Por essa mesma lógica, o policial geralmente vem da periferia.

Enfim, voltando ao trabalho, caso você consiga um, você provavelmente fará um serviço repetitivo e emburrecedor. Você vai ficar com problemas ortopédicos bem rapidamente, e com problemas psicológicos depois de algum tempo. Você gastará cerca de 11 horas ou mais por dia trabalhando e no transporte público, 8 horas dormindo e terá 5 horas por dia para limpar sua casa, fazer compras, cozinhar, cuidar do nenê etc. Bom, talvez você acabe dormindo só umas 5 ou 6 horas, afinal. Entretando, nunca poderá mudar a sagrada carga horária do seu trabalho, apesar de seu patrão te pagar bem menos do que o valor que você produz durante seu turno. Isto se chama mais-valia, e é de onde o patrão tira o lucro para comprar alguns mimos que ele, sem nunca ter pisado no chão de sua própria fábrica, certamente merece, como o carro do ano, a casa de campo e de praia, as viagens internacionais (pelo menos 3 ou 4 por ano, para relaxar) e a escola particular para os filhos, além do cursinho e universidade de medicina. Apesar disso, muitas vezes ele não poderá pagar seu salário em dia alegando não ter dinheiro. Mas lembre-se sempre de que existe a liberdade de sair do seu emprego e morrer de fome.

Ah, rapidamente, alguns benefícios de quando você já for uma idosa aposentada (aos 80 anos): despesas médicas imensas por conta de doenças adquiridas trabalhando, ou por descaso administrativo do governo com saneamento básico; aposentadoria, abandono dos parentes, falta de abrigos públicos de qualidade para pessoas idosas que precisem de cuidados mas que não têm ninguém.

Agora que você já está há 10 anos vendendo sua força de trabalho, pois teve a sorte de não ter entrado no sorteio periódico de demissões aleatórias da empresa, você costuma chegar em casa com um cansaço físico e mental cada vez maiores. Talvez já tenha uns 3 anos que você não leu nenhum livro, mas talvez você nunca tenha lido nenhum mesmo, pois o ensino público é precário e não incentiva a leitura (se bem que, para muitas crianças que têm que trabalhar com 10 anos de idade para ajudar a família pobre, nenhum incentivo é capaz de vencer a barreira da pobreza). Enfim, você chega em casa e olha pro teto, olha para as almofadas do sofá, mas não liga a televisão porque já sabe que ela não tem nada para te oferecer, além de ódio de gênero, de cor de pele, de classe social. Você chora muitas vezes e às vezes até se machuca com o coração cheio de tanta dor com as coisas ruins que acontecem no mundo, os crimes ecológicos, cidades destruídas por causa de barragens rompidas, crianças e adultos esfomeados em países extremamente pobres, abuso policial, assassinatos de pessoas LGBTs, de mulheres, de negros, miséria financeira, miséria intelectual, miséria sexual, seus colegas de trabalho expulsando mendigos e pedintes como se fossem ratos, ciência sendo barrada pela religião e medicina sendo barrada pelo lucro, doenças facilmente evitáveis matando milhões. E chora também por você, com dor de cabeça e dor nas costas todos os dias, pelo sedentarismo e a depressão que se alimentam um do outro; sem dormir direito com o barulho de trânsito na janela do quarto, com o calor, com a menstruação - um peculiar requinte de crueldade da natureza com as pessoas que têm útero -, com a cabeça cheia de amigos com quem não se tem mais contato, o coração explodindo de ideias já naufragadas, de cores que nunca vão existir e palavras que nunca serão ditas para pessoas que nunca serão encontradas. Você, que o mundo ensinou a odiar, com a mente cheia de baixa auto-estima, auto-crítica destruidora, chora com a dor da não aceitação do próprio corpo e da própria mente, chora de ódio e de dor.

Mas para a maioria das pessoas isso é frescura.

Principalmente para quem fez 18 anos e ganhou carro de presente, cujas irmãs também ganharam carros de aniversário de 18 anos, que sempre praticou esportes porque não precisou trabalhar desde adolescente, quem hoje, aos 30, há muito formado em Administração numa das mais caras faculdades particulares, herdou a fábrica dos pais, aprsar de morar no exterior há 5 anos e nunca ter entrado nela. Para essa pessoa, que pode dormir a hora que quiser e acordar a hora que quiser, está reservada uma vida com inúmeras possibilidades de realização artística, científica, esportiva. Para ela e seus adeptos, você tem frescura.

Hoje você acorda atrasada e se odeia por ter que comer o café da manhã no metrô. Você entra no trabalho às 14h e sai às 23h30, e desta vez o capataz vai te chamar a atenção porque você se esqueceu de lavar o uniforme e está exalando o odor do seu suor de pessoa trabalhadora.

No capitalismo, temos uma livre escolha entre trabalhar ou morrer de fome.

Ou, se você tiver uma boa herança, pode tentar abrir alguma loja nova para competir com as ideias velhas do mercado. Então, dependendo de sua capacidade de herança, talvez você perca tudo para os grandes monopólios ou passe a ser um empresário. Mas estas possibilidades não existem para as pessoas da periferia, então não é o seu caso, que teve que vender sua força de trabalho para não morrer de fome.

No capitalismo existem meios de produção suficientes para suprir todas as necessidades humanas, mas curiosamente é um sistema no qual a sorte de nascimento está intimamente ligada ao seu futuro: um mundo de possibilidades sociais predefinidas e rígidas, apesar da aparência de poder escolher. No capitalismo, para a esmagadora maioria da população, existe a escolha entre vender a força de trabalho ou morrer de fome. Várias vezes nem escolhendo vender a força de trabalho exclui a possibilidade de morrer de fome.

Mas chega um momento em que o medo da miséria e de uma vida de merda se torna maior do que o medo da própria morte.

Sem saber, talvez você esteja apenas esperando este momento, quando para você e para muitos for tão insuportável viver num mundo tão miserável como o nosso, que será menos doloroso lançar-se numa batalha mortal do que viver num mundo em que não existe vida de verdade.

Seria melhor que fosse de outro jeito, seria melhor que cada oprimido tomasse conta da opressão de classe e da noite para o dia o mundo se tornasse outro, mas se tiver que ser pela dor, sei que você está preparada.

E eu estarei sempre com você!

"A vida não nos foi dada
Vamos arrancá-la com os dentes"

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um século

Milhões de nós lutando e morrendo nas fronteiras pelos velhos e velhas camponeses, que esfomeados nos sustentavam, para sustentarem a si mesmos, para sustentarem uma nação que era o prenúncio do fim das nações, para sustentarem a humanidade e o mundo, colhendo o arroz com a foice e vivendo de migalhas, sabendo que o amanhã e a luta trariam o pão, a fartura.

Milhões de nós dobrando e moldando o ferro vermelho extremamente quente a marteladas e criando do zero um colosso, capaz de enfrentar de igual para igual todos os velhos e podres dragões belicosos que, temendo a extinção, uniram-se para nos cuspir veneno, fogo, ácido, no intento de nos destruir.

Resistimos. O que fazíamos, fazíamos por muito mais além do que nossas próprias necessidades pediam. O sangue de incontáveis pobres e miseráveis de todas as eras era nosso próprio sangue. E nosso próprio sangue seria no futuro o de incontáveis outros, que de nosso triunfo dependiam para conhecer um mundo que nem mesmo nós poderíamos imaginar, livre, uma liberdade que pouco saberíamos descrever, tão profunda, imensa, nunca antes provada por alguém. Este sangue é nossa única herança, e a maior de toda a humanidade.

Das pessoas mais estudadas à mais humilde cozinheira, todos éramos líderes, pioneiros e pioneiras de uma transformação completa na sociedade, dando um passo para fora da pré-história da humanidade em direção à verdadeira História, à busca do que se esconde além do horizonte das possibilidades, e mais adiante, além das fronteiras dos mistérios minúsculos e dos imensos.

Um universo inteiro se desvelava à nossa frente, hostil aos parasitas que nos devoravam há milênios. Levaríamos aos quatro cantos do mundo nossa voz e nossa força, dissipando a névoa de ilusões da mente de nossos irmãos e irmãs, e seríamos, então, invencíveis, no decorrer de apenas um instante.

Mas então você, junto a seus aliados e capangas, nos traiu, nos envenenou, nos debilitou, nos fez retroceder em inúmeros avanços, conspurcou nosso nome, nos impediu de lançar nossa voz ao mundo e de nos unificar.

Ainda hoje, tantos que poderiam estar ao nosso lado morrem achando que nós é que estávamos errados, servindo sem saber aos verdadeiros inimigos.

Seu nome é uma ofensa à revolução; seu crime um dos maiores já cometidos, senão o maior; maldito seja, verme, degenerado, que deveria renascer mil vezes, confinado e inofensivo, só para sofrer mil vezes a agonia da morte, e ainda seria pouco.

Seu legado é a continuação da miséria.

Maldito seja, verme, você e todos os seus seguidores.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Queria escrever seu nome

Eu sempre fui assim, de falar codinomes para escrever sobre as pessoas. Isso já há quase 15 anos... mesmo quando já não tinha nada a perder eu continuava escrevendo codinomes, ou a inicial do primeiro nome, coisas do tipo. N, J, B, essas pessoas aí, e também D, P, B, pois é, inicial igual não dava nem pra distinguir sobre quem era... e C, essa eu já dei fim, e foi uma das melhores coisas que já fiz na vida.

Eu queria escrever sobre várias pessoas e falar tanto sobre elas  agora, mas não consigo, e iniciais não vão me ajudar em nada... já escrevi contos inteiros para esconder na trama momentos que vivi com certa pessoa, porque eu preciso, preciso falar sobre essas pessoas, mas não me atrevo a me expor, mesmo que seja sempre tão óbvio, eu sempre poderia negar, "ah, não, era apenas uma história". Eu precisei dizer que estava me sentindo feliz por ter tocado a mão dela sem querer andando por aí, ou que uma vez, num passeio, sentei-me tão perto e meu rosto tão próximo que... nem sei... tanto tempo... e hoje me lembro mais é do vento no rosto, do cabelo solto e voando. Não digo se é meu cabelo, ou dela. No parque da Aclimação, eu lembro, olho no olho, e eu nem sabia de nada ainda... e na praça do catavento, uma promessa. Eu sempre precisei disfarçar minha vida inteira porque tinha tanto medo, e isso me fez ter tão pouco de tudo... e agora não é mesmo o momento de tentar dizer seu nome, falar como foi aquela vez, aquela outra, e a outra... agora, não... quem sabe, quem sabe um dia, agora que finalmente abracei as reticências e desprezei o culto, contrariando minha necessidade morta de uma estética do significado perfeito, quem sabe um dia eu finalmente solte também estas reticências e te chame pelo nome e fale aqui por onde foi que nós passamos e o que fizemos... e vou frisar seu nome, mil vezes, de mil maneiras, de mil apelidos... mas hoje, não, ainda não, desta vez ainda não posso...

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Felipe no País das Maravilhas

Cortei o cadeado e roubei minha propria bike, igual fizeram com uma outra há anos, e só por isso pude roubar a minha hoje, porque a outra me protegeu. Foi 40 em cada roda e acho que era isso. Pelo menos até agora não explodiu. Saí bem pelas descidas, fazia tempo, mas ainda é aquilo, nunca se esquece. Mas mesmo assim ainda vem vindo a Rebouças pra sempre. Será que agora eu morro? Nunca morri, por que ia morrer agora? Nunca um capacete. Preguiça e confianca, é assim que vai embora a maioria... espero que eu não, não...

Bom, não fui embora. Só no tempo. Morro da coruja, te falo que você não mudou nada em 3 anos e ninguém acredita, mas eu falo: a mesma luz, da mesma direção, fraca e laranja, o mesmo prédio estranho. Tem um reator nuclear lá, eu acho, por isso que é estranho e tem fantasma, dois cientistas morreram dissolvidos em titânio em estado gasoso, por isso lá dá essa impressão meio bizarra; mas se ficar só no banquinho da praça não pega nada.

Depois logo saí rodando porque, tá doido, lá tem fantasma e não adianta eu ser cético não, lá morreu gente e é escuro com umas luzes estranhas. Saí rodando veloz e desci pra avenida buscando a segurança de onde eu conheço bem, do reto e grande, do prédio que eu acho que é vermelho mas não tenho tanta certeza, na moral.

Sabe, tem uns fantasmas que quase não me largam. Mas eu, também, fico chamando eles do além só pra me doer, não sei por que faço isso. Aí é óbvio que eles vêm mesmo. Mas hoje eu chamei um e coloquei fogo nele, e agora ele vai ter que assombrar junto com os dois cientistas e a estudante de Química que também morreu por lá, diz que foram causas desconhecidas. Mas meu fantasma foi cremado. Deixei ele lá num dos lugares de guardar mangueira de incêndio. Esse não me atrapalha mais.

Saí rodando.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"O amor pode até construir alguma coisa... mas é o ódio que transforma"

Como compensar tanta dor que o mundo nos causa?
Definitivamente não é oferecer flores a soldados. Não é pelo amor.
É tomar-lhes as armas e destruir a Casa Grande. É através do ódio.
Amor eu uso para outras finalidades. Amor eu tenho pela minha companheira e pelos meus irmãos de classe. Mesmo os que infelizmente agem contra si mesmos sem saber. Amor eu tenho por todos os trabalhadores, ainda vivos ou já mortos, de todos os tempos. Amor eu tenho pelos revolucionários que deram a vida pela teoria revolucionária. Amor eu tenho pela minha avó que morreu sem nunca observar a luta de classes por conta da televisão. Amor eu tenho pelos negros, pelas mulheres, pelos LGBTs, por todos os grupos vítimas de opressão, muitas vezes chamados de "minorias", mas que na verdade são a maioria da população. Amor eu tenho pelos esfomeados e pelos moradores de rua, crianças, jovens, adultos, velhos, de qualquer sexo, criminalizados por terem a audácia de permanecer vivos sendo miseráveis. Amor eu tenho pelos animais, todos eles, inclusive os que me servem de alimento, pela exploração absoluta e da qual nunca se darão conta. Amor eu tenho pelos grãos de areia da praia que me lembram que o universo é composto de partículas infinitamente pequenas e que Deus não existe e que somos apenas um amontoado do que restou de uma estrela que explodiu e morreu.

Por tudo isso eu tenho amor, pois o amor é que me aproxima dessas coisas, lugares, pessoas, animais. O amor constroi.
Mas somente esta é a função do amor.
O mais importante cabe a outro sentimento. Cabe ao ódio... porque o ódio é que transforma.

E eu não quero mais só a liberdade. Eu quero sangue. Quero vísceras espalhadas. Quero nossa vingança. Uma vingança que não é mais saciável. Nossa moral não é a deles. Irmã, irmão: não se iluda. Me dê sua mão. Se o que você quer é o amor, saiba que no fundo é o que eu quero também. Mas só pelo ódio todos finalmente serão livres para amar e não odiar mais. Marchemos juntos.

"Vai, encara, que nem o Rei Davi. Seu gigante vai cair, com só uma pedrada"

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A ponte

Agora eu te busquei lá no longe, nas suas estrofes corridas que não chegam mais, e lembrei-me de que era isso que eu também fazia. Apesar de aqui e ali toda hora nos últimos dias, eu ainda assim corro e agora eu reencontrei sua cor, que é vermelha, e me senti tingido e foi-se embora todo o verde que eu ainda cismava em regar. Moleca, você é mais livre que as ondas do vento mas tão dura que o diamante nem cisca. Você dobra até quase partir mas volta com força e ninguém sabia que seria tão impossível assim te quebrar. Você vai e nem me avisa e eu me engano e choro mas eu penso e você me cura dentro de mim sem nem estar aqui, como você faz isso? Eu não sei mas você é toda inteira primavera, e eu só um brotinho que se abre pra te ver.