quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tchau, C

     Vou andando e dando tchau à C, por vários lugares, despedindo-me, em verdade, tanto destes quanto dela. A propósito, obrigado, N, pelo recurso de discrição.
     Tornou-se hábito. Hoje, estava eu lá na L e, reconhecendo uma banca de jornal comum à nossa atenção outrora, num ímpeto saltou de mim uma despedida. "Tchau, C". Não que fosse a última vez que eu veria tal banca; foi mais como despedir-me de um tempo antigo que ficara estagnado lá nos arredores.
     A banca de jornal. Nem me lembrava dela. Tchau, C.
     Há a agência de banco e a esfiharia. Tchau, C. O banco de pedra ao lado das escadarias. Tchau, C.
     E, mais aqui para perto, ontem divisei um outro banquinho de pedra - que, melhor dizendo, é apenas o abrigo do hidrômetro de uma pizzaria. Houve um evento melancólico envolvendo aquele recanto da calçada, ou algo similar. Lembro-me de alguma troça sobre os vários esperadores de ônibus que insolitamente se abarrotavam pelo ponto ali próximo. Tchau, C.
     Vou andando e dando tchau à C, aos lugares e ao tempo. Reminiscências por todos os lados.
     Tchau, C.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Lovecraft

     O que mais atemoriza nas narrativas de Lovecraft não é o terror explícito. Claro que, com este, ele faz um excelente trabalho - de acelerar os batimentos cardíacos do mais valente dos homens -; mas, por detrás das sombras e da vilania dos seres repugnantes que descreve, há um terror muito mais profundo, sobre o qual ele nada diz, mas deixa suficientemente aparente para que os mais atentos o encontrem. De modo que não é somente o monstro do interior da pirâmide que me assombra, mas a ausência de um desfecho do ritual hediondo que o invocou. É o que não se narrou que infunde o verdadeiro terror misterioso de suas histórias. É a certeza de que algo ainda mais diabólico ronda os acontecimentos descritos e aguarda calmamente pela sua vez. E, além, algo ainda mais terrível.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Surge à lembrança

     Eu a observava de longe, a caminhar. Era um andar cheio de música. Música muda, que só soa - em acordes que inexistem além de concepções inexatas de uma mente apaixonada - quando evoco à memória seus passos. Sinto saudades.

     Sim, acompanhava-a com o olhar, às vezes. Ela soube, alguma vez? Não, sempre mantive silêncio sobre este hábito. Só agora o revelo.

     E minha vontade, que sempre fora sair aos brados, clamando por seu amor, e alçá-la à brisa leve das alturas de um rodopio, abraçando-a pelas pernas, precipitando-nos ao perigo do meio-fio da movimentada avenida, e receber, ao entregá-la de volta ao contato do solo, um sorriso estupefato de felicidade e amor, seguido de um beijo apaixonado enquanto apoiados de qualquer forma aparentemente desconfortável no poste ao lado da banca de jornal, ah!, feneceu, cansou-se de quase se concretizar por pouco.

     Mas, as memórias, as memórias! Cheias de música e cabelos ao vento. A chuva! A chuva fria na noite escura e deserta. E tudo por onde paramos e olhamos para algum lugar, pensando sobre o que falar, para onde ir.

     À minha volta, um mundo cheio de marcas. Por onde fez-se horizonte a seus olhos. Pelos lugares que nossas sombras tocaram. Pelos muros que ouviram nossas risadas.

     Um mundo cheio de marcas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Avião

     Que lindo! O céu da noite, estrelado, permeado por algumas nuvens algodoadas, brilhava, cheio de breves halos dos pontos de luz. A noite era fresca, e o alto vento soprava os flocos de nuvem para sudoeste. Alguns, deitados na relva e fitando o céu, poderiam se perder por horas em devaneios...

     O globo girava... as nuvens passavam... a brisa toca... o pensamento flui.

     De repente, fatiando a abóbada celeste de uma ponta a outra, surge, por entre um bloco de nuvens - e delas puxando um pequeno rastro - um avião.

     - Que incrível é a imaginação. Posso fazer disso o que eu quiser. Se eu deixar a imaginação vagar, posso fazer de conta que esse avião se parece com... hm... com...

     O avião não se parece com nada. A ideia era que ele se parecesse, naquela oportunidade, aos olhos do observador, com uma águia, falcão, andorinha, pomba, qualquer ave. Mas... uma droga de um avião só se parece com outros aviões e mais nada. Nenhum animal fica voando e emitindo luzes coloridas das pontas das asas, nem fazendo uma barulheira infernal, e nem mantendo tão rígido o corpo. A urbanização destrói todas as fantasias. Só de pensar que não é só por aqui, no meio da cidade, que passam os aviões, já me apavoro. Por mais que eu procure os campos, corro o risco de ter interrompidos os meus sonhos pela turbulência de um avião. Máquina do homem. Serve para todos os propósitos práticos maravilhosamente bem, mas macula a paisagem e, doravante, o pensamento de quem aprecia um céu limpo de "progresso humano".

domingo, 24 de outubro de 2010

Novo descontrole, seguido de novo diálogo com a Voz

     Havia um rapaz que, tomado por algum tipo de desespero, descontrole, desassossego, temporária insanidade, não conseguia parar de roer unhas e dedos. Só parou quando conseguiu pegar e usar uma caneta em folhas de seu caderno. É bom salientar que tal rapaz cometia tais atrocidades com seu corpo justamente por estar em tão excruciante furor, e sabia que, se tentasse pegar uma caneta e escrever sem ter se acalmado daquele delírio, tudo que tentasse redigir se esvairia – o que tornaria tudo ainda pior.
     Não há necessidade de se falar sobre todos os repuxos musculares involuntários que o dominaram e se repetiram sem nenhuma constância, em espasmos imprevisíveis, enquanto pensava ideias que ainda serão descritas  – algumas, pelo menos –; mas é importante saber que tudo se passou enquanto duraram os sucessivos frêmitos. Todas as conjeturas nasceram enquanto o rapaz tartamudeava monossílabos arrítmicos e se virava e se retorcia e praguejava e ficava cada vez com mais receio de que aquilo se seguisse para sempre.
     Quanto a isso, até mesmo levou-se a se indagar se não era prisioneiro de sua própria mente. Podia ser que tudo que sentia e vivia fosse uma simulação à qual ele mesmo se havia induzido a experimentar; seu verdadeiro corpo poderia estar em condições de aparente paralisia cerebral, em algum lugar obviamente fora dali – pois onde estava seria apenas fruto de uma industriosa imaginação. O que tornaria tudo em que achava acreditar e valer a pena motivações inúteis; todas as perguntas encontrariam respostas já elaboradas pela sua própria inventividade, que, incompreensivelmente, era mais sagaz que sua própria projeção mental interna. Contudo, não deixavam de ser interessantes as probabilidades advindas desse devaneio: se fora imaginativo o suficiente para se prender – prender sua consciência – em seu próprio íntimo, também acabava de o ser para tirar tal conclusão; doravante, assim também seria para encontrar a saída de volta à realidade de onde viera, escapulindo de tão intricada quimera.
     Claro que considerou a hipótese de que, ainda que voltasse a tal real realidade, esta ainda poderia ser o invento de uma outra mente, tão mais pujante – mas que, ainda assim, continuaria sendo a sua própria. E daí por diante, indefinidamente, infinitamente. Entretanto, assim que o lampejo de tal dúvida o atingiu, decidiu que tentaria não agravar ainda mais a já arrebatadora loucura que se havia instaurado em si.
     Em vez disso, pensou sobre como jogar objetos estilhaçáveis, ou pelo menos desordenáveis, em paredes alivia fabulosamente muitas tensões. Logo se imaginou arremessando a plenas forças um maço embalado de papel sulfite na parede de certo aposento de determinado setor de certa loja em que trabalhava. Tal aposento era, também, além de almoxarifado, sala de descanso. Mas, como tudo sempre parecia conspirar contra o extravasamento de sua fúria contida e acumulada ao decorrer de algum tempo, decerto colegas amistosos, os quais o rapaz não gostaria de assustar, estariam por lá. E foi o ocaso dessa anárquica ideia.
     O rapaz discutia intensamente, outrossim, consigo e, alternadamente, com algo que nomeava como A Voz; parte do diálogo pode ser visto a seguir:
     - Foi sempre isto: estive, desde que atendo por mim, cuidando de me privar de respirar para que outros tenham mais ar.
     - Vê, agora, como isso te leva às raias da loucura, quando te escapa ao controle; quando ter todo o ar de que precisa se torna inútil.
     - Sim, e foi uma combinação mesmo banal de eventos que disparou esta reação.
     - É, decerto, algo martirizante.
     - Que piora quando percebo que o peso que minhas palavras têm, quando lidas, não é o mesmo que sinto e queria expressar quando as escrevo. E cada vez mais creio que isso não se deve à minha imperícia dissertativa; culpo as interpretações, que são cansativamente sempre subjetivas demais, mesmo quando quero dizer, com todas e quaisquer palavras que sirvam, que estou perdendo gradativamente o que vulgarmente se chama sanidade.
     - Melhor que se acostume, já que está apenas no início desta empreitada. Situações mais desgastantes, embora mais recompensadoras e valiosas, virão; E você é orgulhoso; não renunciaria a esta que é sua maior escolha.
     - Não, não renunciaria. Se me fará mais bem que mal, não sei. Contudo, ainda afirmo, convictamente, que adoro esta efusão de eloquência que mal consigo controlar, que teço com inúmeras falhas – quase imperceptíveis; mas, da trama original que me invadiu a mente, nem tudo consigo recriar.
     - Será que chegará algum dia em que voc...
     - Ei, veja! Estão falando de nós!
     - Como assim?
     - Bem aqui! Olhe o que acabo de ler: “me invadiu a mente, nem tudo consigo recriar”.
     - ...
     - E mais! Olhe, que barato!: “Estão falando de nós!”. Outra parte, ainda mais interessante: “E mais! Olhe, que barato!: ‘Estão falando de nós!’. Outra parte, ainda mais interessante: ‘E mais!, Olh...
     - Chega! Meu jovem, não posso crer. Você acaba de se dividir mais uma vez.
     - Eu somos três, agora, então?
     - É o que parece. Quero ver como fará para lidar com isso, agora. Com mais isso.
     - Ai de mim!
     - ... a propósito, como estou? Pareço seguro no que falo? Já que você agora se deu a se tornar ainda outro, não te custa dar uma olhadela em como estamos...
     - Está orgulhoso e palpitante, como sempre.
     - Palpitante?
     - Beirando o atrevimento. Nem sei como ainda te tolero.
     - Ora!
     - Creio que preciso retomar, agora. Mas, devo fazê-lo com habilidade. Portanto, voltarei a ter com você.
     - Pois tenha.
     - Algo que me desanima em tudo isto é que quando...
     - ...
     - ...
     - ... quando o quê?
     - Quando... ora! Na verdade, só abri um novo diálogo qualquer e o deixei no ar para que o outro retomasse sua narrativa!
     - O outro foi embora, não vê? Sobramos nós dois apenas, agora.
     - Grande consolo para mim, sobrarmos apenas você e eu!
     - Se está insatisfeito, despeça-se. Não faço questão, como é evidente que você também não faz, de ater-me a este monólogo pouco edificante.
     - E lá saberei eu sobre o quanto posso aprender apenas por reflexão?
     - Isto ainda extrapolará o significado de reflexão. Ainda se tornará segregação intelectual. Cuida-te.
     - Para lá com tais conjeturas. Deixando isso de lado; sinto-me em melhor forma que da outra vez.
     - Destarte, continue progredindo, custe o que lhe custar.
     - Sim. Claro. Obrigado.
     - Sim.
     - ...
     - ...
     -
     - ...
     -
     - Ora! Pois volte aqui! Não podemos nos despedir normalmente, antes que me faça de bobo, como da outra vez?
     - Oh!, sim, sim! Até breve.
     - Até.

domingo, 17 de outubro de 2010

O final de todas as histórias

     Naquele estado que beira a inconsciência, logo pela manhã, enquanto não se sabe se se quer dormir ou acordar, ou se se está de fato dormindo ou acordado, recordei-me de algumas grandes histórias que há algum tempo li e assisti. Histórias de destinos isolados, de uma só alma que vagou a esmo pelos labirintos tortuosos de sua sina; histórias de destinos entrelaçados, em que uma única decisão alterava os desfechos de inúmeras vidas.

     E vi como todas elas serão obliteradas pelo tempo - acabo de ler "A Máquina do Tempo", de Wells, e estou suscetível a este tipo de pensamento -, por mais que implorem por sua imortalidade. Todos os livros se tornarão ilegíveis, de tão corroídos. Todo o fulgor de belos dias, esquecidos como se nunca tivessem existido. Todo o amor que dediquei... não terá valia quando os dias se aproximarem de seu ocaso.

     Os grandes desafios da vida, os grandes amores, abraços, beijos, os idílios de romances nunca consagrados, as tragédias que tanto nos infligiram dores incomensuráveis, e ainda mais os pequeníssimos detalhes, os olhares e pestanejos, uma breve expressão de angústia, ou outra, de rejúbilo; tudo será esquecido daqui a alguns milhares, ou mesmo dezenas, de séculos. Ou ainda menos. Eu, por exemplo, desconheço a história da trajetória de vida de meu bisavô, de como ele conheceu minha bisavó, de como se firmou o desejo de construir nossa família em seus íntimos; uma história que surgiu e feneceu sem que ninguém tomasse notas. E de seu pai, então? A única coisa que restou é a certeza de que houve uma história, talvez bonita, talvez triste, em cada geração. Nada mais.

     A esperança que nos resta é a de que alguém, ou alguma coisa, esteja observando todos os eventos e nossas relações. E nunca se esquecendo. Só assim poderemos viver e morrer tranquilos, certos de que seremos lembrados, de que valeram alguma coisa os esforços que empreendemos, de que todas as alegrias que vivemos continuarão sendo alegres.

     Digo isso por mim, mas devo não ser o único.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O acesso bloqueado ao terraço

     Era o décimo segundo andar. A refeição não fora das melhores, mas havia batata em bolinhas verdadeira e inesperadamente esféricas, e um bife acebolado um pouco menos duro que o normal. Sentei-me e ouvi Melissa's Garden, e ia começar a ouvir Generator – esta música vem me trazendo boas lembranças (de uma época em que não a conhecia, entretanto) quando fui convidado a tomar lugar a uma mesa próxima, com alguns colegas. Instantes antes, de soslaio, vi quem viria me convidar se aproximando e, como seu trajeto parecia ter não outro destino que não a mim, parei a música um momento antes do cutucar em meu ombro.
     Aceitei o convite, embora, além de não apenas querer ouvir a música, também pretendia sair sorrateiramente e procurar o canto menos movimentado de todo aquele prédio para ler assim que terminasse a refeição.
     O que, se eu fosse supersticioso, seria árdua tarefa. Todos os seis andares de loja a parte acessível para clientes eram inadequados; sempre haveria alguém para passar pelo canto mais isolado, pelo sofá mais esfarrapado que eu escolhesse para ou perguntar onde ficava o banheiro de clientes, ou onde estava o gerente, ou se sentar para conversar. Havia a sala de almoxarifado do meu setor, mas era tão movimentada quanto a loja, e ainda pior: qualquer um que entrasse certamente diria alguma coisa, por mais que eu me esforçasse em parecer absorto enquanto leio e ouço música sentado a um canto, de forma a deixar visíveis os fios dos fones de ouvido e meu olhar concentrado e indesviável. Pior ainda era a sala de "leitura" do décimo primeiro, na qual conversavam aos brados os que lá dentro se sentavam para repousar. Enfim, sobravam-me os seguintes: o Shopping Light mas encontrar um banco agradável levava tanto tempo que consumia quase todo o restante do horário de almoço ; as escadas de incêndio do lado dos elevadores mas, a menos que ficasse circunvagando pelos degraus, as luzes automáticas se apagariam rapidamente, e não havia janelas ; as escadas de incêndio do outro lado mas, embora houvesse janelas por lá para iluminar, era um lugar de grande movimento, com funcionários subindo e descendo andares correndo ; havia as escadas de incêndio paralelas a essas, acessíveis por portas laterais em cada andar e, embora eu costumasse andar por ali com tranquilidade, por mais que digam que são assombradas, possuem o mesmo problema das escadas do outro lado da loja: não têm janelas. Por fim, há uma sucessão de escadas deste último lado que vão até o décimo quarto andar; e até lá, sim, ninguém vai. Pois o décimo terceiro encerra um estoque de produtos fora de linha e defeituosos, sendo visitado apenas em raras ocasiões. E o décimo quarto... bem, os elevadores só vão até o de baixo, portanto, nem se menciona a existência daquele.
     Passei minutos a mais que o planejado, sem música ou leitura, em confabulações conspirativas à mesa com meus colegas. Por fim os deixei, pois terminara antes minha refeição. Decidido a dedicar os dez últimos minutos de meu intervalo a Stephen King, pedi licença e me esgueirei para fora do refeitório e em direção ao décimo quarto andar. Cansando um pouco os joelhos por sempre subir num ímpeto pulante, alcancei o final daquelas escadas, onde poucos haviam pisado. Lá, encontrei um deleite: um acesso ao terraço. Só que minha felicidade não era completa, pois ainda que avistasse o horizonte cheio de picos das torres da cidade através de um portão enferrujado de barras de ferro, este se encontrava trancado e, embora o cadeado se encontrasse em péssimo estado, embora fosse fácil o quebrar e sair dali para o terraço e estar acima de toda aquela cidade, eu não o faria. Não, ainda não; por mais um triz, talvez. Contentei-me, agora esquecido do livro que carregava, em olhar por através da grade do portão o céu de nuvens curtas e frágeis que se apresentava sobre grandes hotéis e edifícios comerciais; e toda aquela cena, de onde eu a via, naquele silêncio  só quebrado pelo ruído turbulento, mas distante, quase obliterado, da casa de máquinas dos elevadores, que operava nas proximidades , fazia-me sentir como se fosse o último dos homens dali, último sobrevivente de uma cidade devastada e sem vida, à exceção de pássaros que sobrevoavam ao acaso e chilreavam nos ermos.
     O tempo que passei contemplando aquela paisagem não se podia contar por quaisquer meios ou símbolos; e como que sonhei, pego numa quimera, que estivesse mesmo no auge da exaustão de toda uma outra vida; e senti todo o seu peso, todo o tédio pós-apocalíptico de ser o eterno observador solitário de uma paisagem esplendorosa e, ao mesmo tempo, sombria. Não soube, e talvez queira mesmo ainda não saber, qual vida preferir. Não sei se me prefiro imaginando mundos paralelos de tragédias mil ou se seria melhor narrando o ocaso da civilização em primeira mão.
     Com pesar, forcei-me para fora daquele transe sublime. A hora de passar o crachá urgia. Com um leve espanto, constatei que, se estivesse mesmo na vida que imaginara há pouco, assim que me voltasse da vista através da grade para as escadas, percebendo quão sombrio era aquele lugar, teria descido alguns lances aos pulos fugindo de fantasmas nos quais talvez tivesse passado a acreditar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Diálogo com a Voz

     - Estou com uma vontade desesperadora, maníaca, assassina de dar o murro mais forte da minha vida neste teclado.
     - Faça.
     - Algo me impede.
     - O quê?
     - Falta de dinheiro para comprar um novo. E mais coisas. Medo inconsciente de me ferir, medo das consequências, da impressão que vai causar. E outras pessoas precisam do teclado. E eu preciso dele agora. Para escrever.
     - Escrever o quê?
     - Sobre o fiasco que sou. Sobre como sinto que meus óculos sempre estão tortos e que não moram em minha vizinhança as pessoas que eu quero. Sinto-me mal, completamente enojado de mim, por me render à necessidade de escrever cada pensamento. Sinto-me mal por não reconhecer inúmeros erros que cometo. Mas continuo.
     - Por quê?
     - Algo me impele.
     - Que algo?
     - Milhares de pensamentos bem elaborados. Miríades deles todos os dias. Infinitas teorias que ninguém nunca sonhou. Elas circunvagam em minha mente, me levam à loucura. Mas à loucura comedida. Cada centímetro meu me odeia por isso. Cada centímetro meu quer rasgar o próximo em milímetros, mas se contém.
     - E sua mãe agora aparece para te dizer sobre uma caixa de plástico. Seus pensamentos se desviam sozinhos, por nenhuma influência externa, mas recairá na caixa de plástico a culpa pela sua distração sobre o que escreve agora.
     - Sim, e, neste instante, eu odeio a caixa de plástico e ponho nela a culpa. Gosto muito de minha mãe e de outras pessoas, mas hoje não.
     - Hoje você está completamente nervoso e mal imagina que absurdos cometeria se as circunstâncias fossem outras. Se fossem só um mínimo diferentes.
     - Quase chego a desejar que esse mínimo de diferença fosse o que me levasse a ser um torcedor fanático e irresponsável de algum time de futebol, que fosse o que me lançaria em brigas de bar e de rua. Mas... sei como sou. Se fossem outras as circunstâncias, eu estaria desejando viver numa realidade à distância de um mínimo de diferença nas circunstâncias, desejando viver nestas em que vivo. Quereria transformar meus delitos físicos em impressos.
     - O que te desequilibra tanto, afinal?
     - Não sei, devem ser muitas coisas. Sinto que me faltam calos nas mãos, uma cicatriz transversal em meu rosto. Sinto que me falta algum domínio sobre qualquer coisa. Sinto que me falta alguém. E tenho dores de cabeça cada vez mais frequentes. Uma agora, inclusive. Ouso acreditar que é pelo ato de pensar exaustivamente, profundamente, hiperbolicamente, sobre tudo. Até a mim pareço presunçoso, entretanto, ao tecer um comentário desses.
     - E falta tanto ainda para que você exponha todos os seus temores e angústias! Faltam-lhe as palavras. Elas te odeiam, elas de você fogem, seu vocabulário sempre será forçado, você se destruirá em autocrítica. Você não nasceu para isso. Você é ótimo em não ser nada. Em estar envolto por mil portas de possibilidades e se manter indeciso. Para sempre.
     - Sempre temi que fosse isso. Acredito ter entrado por uma dessas portas, mas sei que a seguro aberta com o calcanhar. Vejo as perspectivas. Vejo o que há na nova sala da porta que abri, e fico tentado pelas outras da sala anterior, mesmo as desconhecendo. Gozo um mínimo do máximo que poderia obter se soltasse a porta, e tenho a segurança de ainda poder voltar atrás. Sou completamente ridículo.
     - Você é.
     - Este meu pescoço que não estala como eu queria! E meu peito; sinto ainda aquela dor.
     - Não acha que te fará mal continuar como é? É uma grande irresponsabilidade seu descuidado consigo porque há pessoas que, por algum motivo inexplicável, vieram a gostar de você. Aliás, como conseguiu? Quem imaginaria que faria amigos e amores neste mundo?
     - Isso começou a ocorrer antes que eu pensasse sobre o assunto. Talvez eu tentasse evitar, se soubesse antecipadamente. Eles surgiram! E me agradam, e me dizem que os agrado.
     - Nunca desconfiou de que possam ser robôs programados para te aturar?
     - Algumas vezes, confesso, sim. Um resquício de dúvida ainda arde. Espero que meu próximo momento, a próxima fase de minha vida, seja no qual vou compreender que tudo isto, todos estes pensamentos ignominiosos que formulo, não passou de uma leve crise. Não, leve não; moderada, talvez... ou até intensa. Não sei, pode ser que amanhã alguma outra catástrofe ainda piore tudo.
     - E como se sente sabendo que ficará um tanto mais calmo quando revelar este documento, pelo qual confabulamos, nas páginas virtuais que tanto abomina?
     - Pois é, sinto-me e continuarei me sentindo mal. Tanto quanto como quando começamos. Talvez ainda mais. E a dor de cabeça está piorando. Não sei até onde o corpo aguenta. Tem gente que diz que problemas emocionais acabam gerando os de saúde.
     - Por que não toma um remédio?
     - Não quero me render. Não, pelo menos a alguma coisa não; que seja uma dor de cabeça, pelo menos a de hoje. Não, já me rendi a tanto, por motivos tão banais. Eu não quero mais me render. Não quero mais renunciar. Mas, você sabe...
     - Sei. Sei que você só é heroico através deste texto. Só é líder de sua vida enquanto em frente ao monitor do computador ou debruçado sobre um papel em branco.
     - Só pode ser uma maldição, uma sina.
     - Espero que você encontre outros com o mesmo problema.
     - De que adianta! “O mesmo problema”, você diz! Como se, mesmo sob infortúnio similar, outro indivíduo estivesse se sentindo mal da mesma forma! Como se a complexidade de meu raciocínio, moldada por anos de inúmeras experiências totalmente distintas às de quaisquer outros seres, por mais que possam eles parecer vítimas das mesmas circunstâncias, pudesse ser medida por parâmetros científicos, por algum tipo de estudo absolutamente segregado e restritivo ao qual embutirão o sufixo “logia” ou pelas deduções de algum patife metido a intelectual!
     - Nunca poderá se provar qual o pior dos delírios. Crê ser o seu?
     - Não. Ainda não. Ainda sou muito contido. Ainda me falta aquele mínimo, ainda me falta estar do outro lado.
     - “Take me to the other side”, não é?
     - Este não é o momento para músicas. Pelo menos não para essa.
     - Você entra em conflito com sua própria filosofia. Não era de musicalidade que queria rechear suas obras?
     - Esta não é obra minha.
     - Não?
     - Não estava falando de nosso diálogo, caso tenha entendido isso do último comentário.
     - Não me cabe acompanhar a linha de raciocínio que sugere, então.
     - Por que não?
     - Sou eu quem faço as perguntas, lembre-se.
     - Pois não mais as faz.
     - Tem certeza?
     - ... Você ainda é mais forte que eu. Pensei em como inverter os papéis, mas não pude. Ainda sou incapaz.
     - Você é patético. Muitos já me derrubaram e dominaram.
     - Você desconhece o vulcão submerso que ainda vai te desestruturar e destronar completamente. E esses que te venceram não terão vencido como vencerei.
     - E você acredita ser esse vulcão. Menos que isso, aliás: torce para que seja.
     - Esta conversa tomou maus rumos. Eu estava invocado; agora, além disso, estou confuso.
     - Seu coração é arrítmico.
     - Sim, às vezes o sinto acelerando um pouco, descompassando. Mas é uma sensação irreal; é reflexo de minha inconstância psicológica.
     - Algum dia, quando liberar toda a vontade de quebrar teclados que reprime e agrega, você vai cometer algum erro terrível.
     - Não sei se temo ou se anseio por este dia.
     - Parece até que essa sua dor de cabeça é algum pensamento que se congestionou e quer irromper de sua estagnação com a mais avassaladora das razões.
     - Sim, é ele. É o derradeiro pensamento, o apogeu de minha filosofia. Estarei o aguardando até o ocaso de meus dias.
     - Que valha a pena da espera.
     - Acabo de revisar este texto.
     - Consultou o dicionário?
     - Sim.
     - Quantas vezes?
     - Uma meia dúzia. Talvez, uma inteira.
     - Errou alguma palavra?
     - Uma vez coloquei um “conquanto” indevidamente. E, noutra, apliquei a palavra “incutir” quando o certo era “imbutir”. Por uma letra! Errei pela seguinte do alfabeto. Valer-me-ia nove pontos num tiro de arco e flecha.
     - Se fosse como disse, seriam duas letras. O “n” virou um “m” antes do “b”. Mas o correto mesmo é “embutir”. Três letras.
     - Sete pontos, então. Obrigado. Já fui lá arrumar.
     - Alterou muita coisa no texto, com a revisão?
     - Não muitas.
     - Mudou alguma fala minha?
     - Acho que sim, mas não excluí nenhum pensamento. Mudei mais as minhas, mesmo. Aquela da sala com as várias portas, por exemplo. Deixei menos ridícula. Tanto quanto possível.
     - Deve ter sido difícil. Aquela analogia foi simplória ao extremo.
     - Ainda acho que foi necessária.
     - De qualquer forma, fez um bom texto. As pessoas vão gostar.
     - Sim, vão. Geralmente gostam. Eu não as entendo.
     - Será que você fará novos amigos com isto?
     - Amigos, exatamente, não sei. Queria mesmo era que alguém em especial lesse.
     - Acha que vai?
     - Pare de me forçar a usar constantemente a expressão que mais repeti durante todo o diálogo. “Não sei”.
     - Por que você quer que a pessoa em questão leia?
     - Não sei.
     - Previsível.
     - Ardiloso.
     - A dor de cabeça, ela persiste?
     - Sim, mas se amenizou.
     - Você ainda precisa revisar a parte que veio vindo depois daquela em que disse que revisou o texto.
     - Acabo de o fazer. Uma única consulta ao dicionário, desta feita.
     - Qual palavra?
     - “Analogia”. E ainda tenho dúvidas.
     - Logo numa frase minha?
     - Desculpe-me.
     - Sem ressentimentos. E é aqui que nos despedimos, não?
     - Sim, antes que se exija nova revisão.
     - E só de pensar que tudo isto foi consequência da atitude daquele motorista de ônibus que encrencou contigo...
     - É. E deve ter sido por consequência da eliminação do Brasil da Copa, aquela atitude.
     - O mundo gira por motivos estranhos e escusos.
     - E um deles é você. Adeus.
     - Ah! Agora você me pegou! Gostei!
     -
     - Ei.
     -
     - Ei, você ainda está aí?
     -
     - Foi-se! Deixou-me sozinho! Como pôde? Tratante!
     - Calma, fui apenas fazer uma última revisão. Só alterei dois ou três pronomes, agora. Sabe que não resisto. Agora, tchau.
     - Tchau.

domingo, 26 de setembro de 2010

Súbito descontrole

     Não é possível. Não pode ser possível que eu tenha que passar metade do meu dia num inferno de trabalho, fazendo serviço triplicado, sem uma única pausa para alguns minutos de descanso além do horário de almoço, para então chegar em casa tarde, sem poder praticar minha música porque posso incomodar os vizinhos. Tenho, seja como for, que ficar ouvindo miríades de coisas que não me interessam ouvir quando chego cansado e querendo momentos para introspecção – e, se fosse só ouvir, tudo bem; mas, tenho “obrigação” de pensar a respeito, de ter ideias para planos que não são meus. Não tenho tempo nem para pensar nos meus próprios ideais! Cada partícula de inspiração me é tirada para finalidades diversas e alheias; e o que ganho? Um cisto no pulso, para me impedir de tocar guitarra. Pesadelos – pode parecer ridículo, mas ocorreram – com clientes taciturnos me olhando feio através do breu de algum aposento da imaginação onírica e me empurrando suas fichas para que eu os atenda de uma única vez, e se desrespeitando uns aos outros e exigindo minha mediação em seus conflitos egoístas.
     Não consigo ler meus livros. Todo tempo que consigo para tal fim, nunca me encontro sozinho – só se eu fosse para lugares distantes, o que, para uma solução cotidiana, imediata, é impraticável. Escrever algo substancial, neste estado, então, quase nem cogito; meus textos estão criando aranhas. Só consigo escrever isto neste átimo de descontrole porque só assim consigo me acalmar. Queria mesmo era quebrar a louça e o armário e gritar palavrões impressionantes.
     Mas, não posso. É mais de uma da madrugada. E, ora, o Felipe? Não, o Felipe nunca perde o controle. E se sente culpado até mesmo por ficar uma hora inteira bufando, em um raríssimo ataque de nervos, se espreguiçando e se contraindo e abraçando os móveis da cozinha. Sente-se culpado por ter chegado a este ponto, sente-se culpado por não conseguir dar atenção às pessoas de quem gosta, e também se sente culpado por ter dado liberdade demais para que pessoas de quem não gosta exijam sua atenção.
     Fico planejando dar um basta, mas também me sentiria culpado.
     Este é um relato em tempo real. Estou tremendo. Mas, mais calmo. Vim me deitar. Quando começou, há uma hora, estava num misto de tédio e aborrecimento tão profundos que não havia nada que eu pudesse fazer que não me irritasse mais. Comer, ler, escrever, dormir, ouvir música; nada. Ficar parado e odiando todo o teor da existência era a única forma de não implodir. Mas, aí veio a obrigação de me movimentar, de pegar meus óculos do chão, de comer. Foi então que fui à cozinha e repuxei a camiseta para esticá-la pelo rosto e cobri-lo. Estava frio, e fiquei com o torso a descoberto por um bom tempo antes de percebê-lo.
     Fiquei pensando. Como me desgasta esta cidade imunda, cheia de animais, que se dizem homens, nojentos. Sobre como coisinhas lindas e cheias de afeto atribuído são execráveis nestas horas, tais quais um monte de fitinhas coloridas que tenho numa caixinha, um boné, uma xícara com uma careta desenhada etc. Queria pôr fogo nisso tudo, quebrar, estraçalhar. Mas, e o afeto? Por que atribuímos valores sentimentais às coisas, que nos impedem de destruí-las?
     Fiquei pensando. Sobre como queria estar em outro lugar, com determinada pessoa, em outro século – distante, num tempo bem passado, quando ainda boa parte do mundo era um mistério e a cartografia era um ofício de novidades constantes.
     Fiquei pensando. Como, de qual maneira ainda posso querer estudar, se sem isso já estou assim? Onde haveria tempo necessário para todas as minhas opções e obrigações?
     Fiquei, além disso tudo, pensando sobre a significância de meu desespero. Todo dia, quando vou trabalhar, vejo pessoas que talvez não se lembrem de seus próprios nomes andando descalças pelas ruas imundas do centro. Quando penso nelas, sinto-me ainda mais culpado por ficar angustiado com meus nobres problemas. Imagino moralistas me dizendo “Você tem sorte de poder trabalhar, mesmo que se desgaste nisso!”, “Sorte sua ter um móvel dentro de uma cozinha também sua para ter vontade de esmurrá-lo”. Mas, dentro de meu próprio contexto, tenho, sim, direito de me angustiar.
     Agora, estou mais calmo. Amanhã, arrumarei este texto todo e publicarei. Agora, vou dormir. Deixei coisas a fazer. Mas não me importo nem de relembrar quais são. Amanhã, amanhã. Hoje, já estourei. Exauri-me. Já terei dormido, acordado e revisado o texto no próximo parágrafo.
     O que de fato aconteceu; o eu das linhas acima é parte de um bloco de espaço-tempo que já passou. O texto já não contém todas as partes originais, como também possui trechos novos, adicionados pelo eu presente. Estou sob meu domínio novamente. Mas, nada mudou. Tive alguns segundos para tocar minha música depois que cheguei, hoje. O pulso, aliás, ainda dói. Hoje, pelo menos, não houve muitos conflitos na loja.
     Só não perco a razão pois forço-me a crer que algum dia estarei melhor.
     Vou ver se escrevo sobre os mistérios do mar, agora. Abraços.

Teorias dialogadas

     - ... Quer dizer que você acredita mesmo em um paraíso?
     - Sim; é onde, depois de nossa vida honesta pela Terra, viveremos para sempre em alegria.
     - Você tem alguma ideia do que significa, de fato, “para sempre”? Não acha que, algum dia, mesmo que esse paraíso exista, vai acabar?
     - O Reino dos Céus é eterno.
     - E o que você vai fazer durante toda uma eternidade lá? Tenho certeza de que você nunca assimilou o conceito de “eternidade”.
     - Não há necessidade de se cogitar os afazeres celestes da eternidade; simplesmente existiremos em paz divina, na presença de nossos queridos que já partiram e de outros, bons, enquanto ruirá o mundo terreno e as almas pecaminosas danarão eternamente, enquanto desfrutaremos do Paraíso, nas profundezas hediondas do Inferno.
     - Sei. Mas, como será a rotina paradisíaca? Vocês, que pretendem ir para lá a qualquer custo, vão apenas ficar olhando uns para as caras dos outros e ficar felizes com cada presença anônima aprovada para entrar em tal Reino? Será um antro de todas as emoções puras, honestas e positivas? Sobre o que conversarão? Qual será o assunto cotidiano? O baixo firmamento repleto de tenras nuvens? O sempiterno aroma de flores recém-desabrochadas, a singeleza de paisagens rurais e a vivacidade dos ingênuos animais que por ventura por lá estiverem? Dou alguns anos para não se ter mais sobre o que se conversar, não ter mais distrações. Tudo vai virar um grande tédio. E volto naquilo: mesmo o Paraíso não terá um desfecho repentino – assim como teve um começo inexplicável, o universo – mesmo em seu Deus? 
    - Você não entende. Deus é a razão. Deus, é inexplicável, e isso explica quaisquer inícios e termos. Deus é a origem, o fim e o recomeço. Deus é a unidade que abriga todas as propriedades do cosmo. Quanto à “rotina”, não pense no Paraíso como uma cópia rural da vida na Terra. Lá, estaremos distantes das preocupações; dentre elas, a que você chama de “rotina”. Viveremos num fluxo que nos impelirá distraidamente pelos deleites dos sentimentos bons. Não será um mundo físico e, destarte, corruptível. Estaremos distantes do alcance de qualquer maldade, seja exterior ou de nosso próprio interior.
     - Quando estiver por lá, nunca irão – como haverá bastante tempo para se pensar – conjeturar sobre o que os aguarda além das fronteiras do Paraíso? E o Tempo, que um dia virá para destruir a Memória? Acham que estarão seguros do final do processo que não se sabe como, nem quando – e nem mesmo se –, se iniciou, que possibilita a existência da consciência, que é o deslocamento do espaço pelo tempo? Tem certeza de que não nascerá discórdia do tédio de tantos milhares de séculos de “sentimentos bons”?
     - A percepção do tempo será diferente. Não se contarão em anos, dias, horas, como se faz aqui. Viajaremos dentro do tempo, e não através dele. E o tempo não findará. O universo não encontrará um final.
     - Se você considera, então, que não haverá ocaso para o cosmo, dará na mesma qualquer percepção do tempo a passar. Como nunca vai acabar, em algum momento o peso do acúmulo dos eventos e dos sentimentos os enfastiará, e vocês estarão eternamente presos à felicidade do Paraíso. E isto é abominável: estar preso a uma vontade, que não mais é sua, de forma inescapável.
     - Está insinuando que algum dia “enjoaremos” da presença tão mais próxima, certeira e constante de Deus? Você acha abominável viver em alegria eterna? Ora! Vocês!..., vocês são incompreensíveis. Buscam, durante a vida inteira, provar coisas tão absurdas quanto parecem ser as nossas a vocês. O que me aflige é que o que querem provar é a negação absoluta. Querem negar que exista um Mistério ancestral e infinito, sendo que nós o respiramos constantemente – não há quem não sinta a tangibilidade inextricável da existência como um todo! Querem negar tudo tenha um propósito, o que é, contraditoriamente, praticamente comprovado por suas próprias teorias – não foram vocês mesmos quem calcularam que a existência de vida, ainda mais inteligente, tão somente é possível sob circunstâncias tão específicas que se consiste um evento da mais extrema raridade?
     - Concordo; entretanto, como qualquer teoria, teísta ou ateísta, que é conjeturada – que, a partir do momento em que nasce, não se consegue provar ser verdadeira nem falsa –, surgiu, ao mesmo tempo dessa que diz sobre a raridade da vida, a hipótese dos multiversos, e de que estamos no único, ou um dos únicos, dentre infinitos outros que falharam em conceber vida. E você me dirá “ora, o que te faz pensar que teve a sorte de estar exatamente no universo certo, sendo que em todos os outros não há consciência para se sentir?”, ao que eu responderei “Por isso mesmo; a consciência, só existindo sob as condições raras em que nos encontramos, só consegue alcançar a si mesma se, obviamente, existir em algum lugar”. Só se pode existir, e saber disso, onde há essa possibilidade. Alguém tem que estar em algum lugar para se pensar sobre qualquer coisa e acabar chegando onde estamos. E o lugar só pode ser onde há a possibilidade de consciência, é claro. Estamos aqui para provar que não estamos alhures. E outra: se, aceitando a hipótese dos multiversos, ainda assim não houvesse em nenhum deles a mais singela forma de vida e consciência, se todos os versos do cosmo fracassassem em conceber a vida e atribuí-la, em algum momento, consciência de si própria e do decurso do tempo, seria como se tudo jamais tivesse existido, nem tentado existir. Não haveria alguma coisa, algum alguém para sentir o tempo passar, para sentir sua inexorabilidade. O cosmo precisa de nós para existir. Só existe através de nós. Teria sido um descaso consigo se não nos houvesse criado, para que, destarte, se sentisse sua existência. O cosmo – a menos que seja ele mesmo algo vivo e consciente, e minhas teorias não descartam essa possibilidade – existiria sem o tempo, explodiria e se encolheria novamente e voltaria ao vazio primordial sem que nada além de trocas químicas invisíveis ocorressem, sem qualquer motivo maior, mas apenas um conjunto de ações e reações arbitrárias. Se quiser, pode considerar isso uma forma de vida. Talvez o universo seja uma consciência colossal, cujas ressonâncias dos pensamentos sejam o que nos faz acreditar em deuses e ciências.
     - Chega um momento em que se deve escolher entre analisar a bênção da vida de forma branda, aceitando que possa haver uma presença de consciência pairando em cada recanto do mundo físico que não apenas a de Deus, mas de qualquer reação química, ou só aceitar a existência de vida ao que nossos olhos enxergam, o que nos pode fazer parecer muito arrogantes, quase como detentores de uma percepção aguda, perfeita, incontestável. É paradoxalmente terrível o mundo das ideias, que nos flagela com o açoite da prepotência sob qualquer tentativa de julgar, comparando, o certo e o errado, a vida e sua ausência. Veja, compreendo todas as suas teorias. Percebo que você entende a sutileza entre cada uma das crenças, afinal. Isto que estamos tendo não é uma discussão, um debate nocivo. Acredito, agora, fora de intrigas existenciais e hipotéticas, que estamos criando um agradável e construtivo laço de amizade.
     - Sim, acho que estamos. Mas, tantas teorias me cansaram a mente e até os músculos do rosto, com o esforço da concentração. Sinto tantas ideias tão entrelaçadas que prefiro deixá-las para analisar posteriormente – como se deixa para tentar soltar um embaraçado de fios de costura, onde qualquer um que for puxado erroneamente acarreta num nó quase indesatável, quando se tem as vistas descansadas, para se escolher os certos a puxar.
     - Ah, sim, também sinto o mesmo. Olha, lá vem. Você vai até qual estação?
     - Até a final.
     - Eu desço na quinta, daqui. Olha, é um daqueles trens novos! São um barato. Vamos, tem um banco para dois ali, desocupado.
     - Sim, vamos. Eu sempre vejo os trens novos da outra linha. Estes desta são raros!
     - Ah, é? Comigo é o contrário.
     - Mas, considerando o fluxo de usuários e do itinerário usual de cada um, é mais comum ver os da linha que eu disse.
     - Só se você considerar que...

(e discordaram alegremente por mais cinco estações naquele dia, e em outros; então, se tornaram e continuaram grandes amigos até que o Mistério os tomou da vida sobre a Terra e os levou para longe da Memória e para mais perto do Tempo, onde pudessem provar – ou não – suas conjeturas um ao outro)

Coisas diversas

     Estou para falar sobre coisas diversas.
     Estou muito irritado. Torci para que alguém de cara feia me irritasse um pouco além do normal hoje, depois de determinado momento. Só para ver até onde conseguiria me segurar para não esbravejar, ou descolar uma briga estúpida.
     Sabem, estive pensando sobre pessoas. Bem, cada dia mais se afastam de minha mentes as incólumes percepções que de uma tinha. Perdem o brilho incomum e se tornam vulgares com uma facilidade tão maçante, as pessoas, as coisas! O que mais intriga é lembrar de como ainda há pouco eu ainda sustentaria em ideologia sua imagem repleta de uma graça resplandecente, uma leveza sublime; mas, hoje, ela toma a forma banal do grupo geral de pessoas meramente “interessantes”. Não omitirei que há uma vibração no fundo de minha alma que a guarda em toda a sua beleza mais apaixonante – aquela primeira beleza, que permanece fora de todo o tempo, de toda palavra, de qualquer ponderação –; agora, entretanto, parece apenas um resquício ainda grave, ainda vivo do passado, mas prestes a desafinar, a desbotar. E, olhe, de outra poderia dizer que é alguém que se deve deixar antes que se queira demais, mas quero mesmo até parecer presunçoso e orgulhoso enquanto puder acreditar em toda a força da afinidade. Sou eufórico com cada pequeno sucesso – embora qualquer deslize me desmoralize gravemente –, e sou melhor neles que nos grandes. Apraz a mim acompanhar o desenvolvimento do afeto, a evolução do desejo; é uma cascata borbulhante de emoção no coração a cada sentimento recíproco, a cada ideia correspondida, a cada pensamento antecipado.
     Cheguei a uma pequena conclusão, talvez improvável, inexata, mas interessante, hoje: o se ama os detalhes – consequentemente, o passado, pois os detalhes de que falo são fatos, não aleatoriedades ainda para surgir – ou o continuum, a experiência em decurso. Há os que prestigiam o passado, os locais, suas histórias, e os que apreciam a mudança, o dinamismo, o que se torna novo. Não se pode amar os dois, verdadeiramente, ao mesmo tempo. Não se pode amar as vielas históricas de sua cidade quando se ama o progresso que as quer reformar. Nem a facilidade de um laptop quando não se consegue se acostumar com um teclado tão miúdo e com a ponta do dedo como mouse. Não sei dizer se um ou outro é mais ou menos condecorável, válido; sei que faço parte, acho, dos que gostam dos detalhes.
     E, digam, não acham que falta alguma coisa muito grande na configuração do universo, algo que nos permita vazar reflexões inefáveis e toda a ideologia do pensamento? Sinto-me muito afogado nas coisas que penso. Literatura, por si só, não me parece que será sempre suficiente; quis me expressar por música, mas ela também, sozinha, não atinge todos os objetivos. As duas juntas, como tento misturar, também ainda não são completas. Talvez a única solução possível seja a empatia total entre todos os indivíduos, o que, num primeiro momento, seria uma avalanche de informação e satisfação, mas, num segundo, a unificação de todas as ideias e pensamentos. Seríamos uma unidade, seríamos deus, não existiria nenhuma necessidade espiritual que nossa unidade não suprisse. Seria uma questão de escolha: continuar como estamos ou sanar todas as dúvidas e satisfazer todos as vontades da alma por um certo tempo... pelo preço do fim do progresso científico e tecnológico da humanidade e, depois desse certo tempo, o eterno enfado.

A obrigação dos professores

     Não é obrigação apenas de professores de Português saber falar e escrever bem em nossa língua nativa. É de todos os seus falantes.

     - Mas por que eu preciso saber Português direito se trabalho com [cargo aleatório]? E se estudo [curso aleatório]?
     - Geralmente, para quem faz esse tipo de pergunta com a idade que você está, já não adianta resposta alguma. É provável que, exatamente pelo motivo de ter me perguntado algo assim, não a entenda. Entretanto, não sou de deixar de lado as poucas esperanças da erudição coletiva para com todos os seus colaboradores; então, vou te explicar. Você, como todo ser humano, deve ter domínio sobre sua língua nativa por vários motivos. Em princípio, porque a racionalidade vem da capacidade de comunicação, interação e formulação de pensamentos. O simples ato de pensar exige, para as mais complexas formulações, que levam à verdadeira e sacrossanta racionalidade humana, a habilidade de ligar e correlacionar símbolos – ou seja, os componentes de nossos sistemas alfanuméricos. São os grupos de símbolos – as palavras – que concretizam toda a abstração, interna e externa, em que vivemos, e creia-me: tudo o que existe é abstrato. Mas precisamos nomeá-lo. Precisamos nomear o máximo de coisas possíveis para que, em termos comuns – e não em gestos e desenhos subjetivos – possamos nos comunicar a respeito delas. Discordar. Teorizar. Concordar. Concluir. Somos capazes de tudo isso quase tão somente por conta da linguagem. E só por ela somos nós que temos verdadeira consciência sobre o universo. Não que os outros animais percam muito com isso; mesmo o conhecimento divino não leva a nada, porque o mistério original é maior e se encontra além de todas as expectativas de todas as ciências e religiões.
     Depois, em qualquer carreira que for, você precisará, em algum momento – ou, o que é mais certo, em vários – interagir com outras pessoas, pois o trabalho só existe e é necessário porque somos uma sociedade. Seja qual for a posição hierárquica que assumir em qualquer empresa, e mesmo se trabalhar por conta própria, você terá que se comunicar com clientes e superiores, ou subalternos. Em todos os casos, um comunicado, uma declaração, um aviso, o que for, mal-escrito é horrível. Não transmitirá segurança, nem será devidamente respeitado pelos outros.
     Ainda além, posso dizer que você não vive plenamente se não domina a linguagem. Já estamos lançados em um lugar suficientemente misterioso e, se pensarmos bem, indescritível. Já é difícil, com todo o vocabulário que temos à disposição, traduzir nossa interpretação dos sentidos para o mundo. Por tantas vezes você fica sem saber como dizer o que sente que, para não ficar constantemente angustiada, vai bloqueando essa necessidade. Você vai bloquear cada vez mais as possibilidades de definir – e, assim, de poder interagir melhor com os outros – seu íntimo, atrofiando sua vontade, sua capacidade, seu ser. Você irá sumir, será como tantos que somem diariamente da história da humanidade sem deixar rastros, será ainda mais irrelevante que um ser sem consciência, que nasce, vive, se reproduz e morre, deixando apenas a certeza da continuidade da espécie. Não que isso não seja importante, e o é, deveras; mas, nos foi dada a raríssima oportunidade da racionalidade, e melhor, a capacidade de aprimorá-la. Temos um tempo, como civilização, tão pequeno para tentar entender alguma coisa – e, mesmo que já tenhamos chegado ao ponto em que se sabe que nada se pode verdadeiramente saber, continuamos resolutos – e você e mais tantos outros como você têm coragem de passar uma vida inteira sem sequer tentar entender melhor o mundo através da linguagem? Saber que isso ocorre com alta frequência é repulsivo, blasfemo!
     - Nossa!, como você se acha.
     - ... Você fica aí, com sua cara cansada e seu olhar raso, barrento, pensando no motivo pelo qual está ouvindo a tudo que digo, e tentando encontrar palavras para rebater. Você tem a ideia de uma grande frase, de um argumento convincente, mas não tem palavras para expressá-la. Então você diz algo como “cuide da sua vida”, ou “que frescura”, e se contenta! Além, ainda tenho que ouvir que estou “com inveja”! Ainda tenho que aceitar esta crendice estimuladora de que todas as pessoas são únicas, que você é cheia de personalidade! Ah!, me poupe disso! Você e mais cem mil imbecis são absolutamente iguais! E há outras centenas de milhares em profundo estado de coma espiritual auto-induzido. É angustiante; fico imaginando: tanto progresso intelectual que poderíamos ter atingido se não fosse pelos fracos e preguiçosos como você!
     Agora, vou encerrar esta conversa, e não quero ouvir uma única palavra irritante saindo dessa sua boca. Não quero ver a menor expressão de descaso na sua cara amorfa. Nem um risinho de escárnio. Quero mesmo é que você esqueça de tudo que eu falei, pois constato que isso que você tem só pode ser uma doença incurável. E transmitida por contato prolongado. Não quero mais nem te ver, se puder.
     - Não vai mais me ver mesmo, porque enquanto você fica pensando nessas suas coisinhas cultas, eu vou estudar algo importante de verdade, que o mundo precisa hoje em dia, e não essa sua filosofia que não leva a lugar algum. Esse monte de palavrinhas bonitas, eu sou prática, não preciso disso, não tem mais necessidade disso. Você fala assim só porque sabe que eu não sei um monte de coisa que você falou. Mas, duvido que você saiba preencher uma ficha de Controle de Circulação de Chave.
     -Ah!, que me importa essa porcaria de ficha! Eu disse pra ficar quieta!
     - A boca é minha, fico quieta se eu quiser.

     E foi assim que, naquele dia, uma pessoa foi morta e outra foi presa.

Unfarewelling

     Achei que seria eu quem não fosse conseguir passar dessa. Achei que nunca conseguiria sair deste problema. Ora, nem nunca fora um problema também seu, aliás. Seria muito insensato de minha parte exigir que você ficasse num impasse comigo. Agora: passei por uma turbulência terrível, fiquei atordoado, mas consegui seguir; foi tão sutil a mudança, foi tão raro o acorde que me guiou! E, agora, você vem e me diz sobre amor? Quem, depois de tudo, você imagina ser - ou continuar sendo, talvez - para se jogar de volta na minha incrível nova vida?
     Não acha que me deve algum tipo de respeito? Assim como eu respeitei suas escolhas, como acatei seus descasos, como suspirei sua inércia? Eu aproveitei apaixonadamente, euforicamente, completamente uma oportunidade maravilhosa que me surgiu, eu me abracei a ela com todo o meu ser, com todo um ardor ainda maior que o que achava infinito e que era para você, e veja! Não direi que te esqueci, mas você se tornou apenas uma faísca no meio do sol que ajudou a criar!
     Agora você vem e me diz que é uma nova fase, diz que não enxergava com clareza, que estaremos melhor juntos? Só não sou rude com você pelo que representou para mim! Pelo que ainda representa e sempre representará, aliás, e você sabe muito bem disso! Só porque te amei com tanta devoção que hoje sou tão livre e feliz amando outra pessoa!
     Mas o pior é que você me abala! Vou ter calafrios, vou suar pensando em por que este tipo de coisa acontece comigo. Por que você surgiu pela primeira vez? Se bem que foi bom, pela cadeia de eventos que acabou me trazendo até onde vim. Por que você voltou, então? Não ficou tudo certo? Eu quis tirar você dos temas centrais da minha vida por tantas vezes, mas não há meio! Queria te deixar apenas em um recanto bonito da memória, mas você sempre paira, sempre circula, sempre volta à minha mente!
     Por favor, considere tudo pelo que passei. Se tem um pouco de apreço por mim, deixe-me sem você. Estou certo de que consegue superar sua crise, como superei a minha.
     Te amo. Adeus.

Os lindos desfechos românticos

     Não se pode mais escrever algo grandioso. As pessoas esperam sempre desfechos lindos e simplistas, que possam ser apreendidos com o menor dos esforços pelas suas cabecinhas preguiçosas. Nem para enredos objetivamente dissecados e explicitados de novelas que duram meses rodeando assuntos simples dão uma chance! Há mil revistas semanais explicando para as madames de forma ainda mais simplória tudo que não têm interesse de tentar compreender, indicando as ligações que nem ousam por si próprias fazer!
     Não pode ser!
     Não! Que não seja o fim das grandes histórias, cujos heróis perturbados, oscilando entre a responsabilidade de seus destinos e o apego pela vida, se sacrificam, sem volta, pelos seus objetivos! Pois tantos são ressuscitados depois! Que atitude medíocre, de tantos criadores, permitir sempre a ridícula, absurda e forçada felicidade completa de suas personagens ao final de cada romance!
     Não há tragédia real no mundo que não seja reparável, então? Escrever é dar vazão aos sonhos, mas... por que nunca permitir à arte uma renovação em seu potencial emocionante? Por que nunca destruir quaisquer expectativas de quem lê, ouve, assiste? E, mesmo quando se tenta criar um enredo mais cruel para as personagens, sempre há tempo, e por isto todos esperam, para a consumação de pelo menos um lindo beijo apaixonado antes do apocalipse, antes que o casal nunca mais se encontre. Por que não o desespero da absoluta perda física? Da insatisfação eterna, do completo erro; por que não a manifestação chocante de um ódio surreal de alguém por si mesmo por ter dado chance ao mais abjeto fracasso?
     Para onde levaram e trancafiaram a beleza da verdadeira tragédia? É reconfortante a história que termina sem perdas significativas. Entretanto, sempre procurei alguma que me fizesse emocionar verdadeiramente, lá no íntimo. Por todos os esforços terem sido em vão, queria chorar de angústia. É um tipo de emoção que não se encontra mais descrito. Talvez mais real e comum que se imagina.
     Matarei mais algumas personagens minhas.

Sobre maiúsculas e minúsculas

     Alguém tente me dizer sobre o que não se imagina que outrem possa sentir como sinto. Para mim, e é dispensável qualquer estudo que prove o contrário, não se ama ninguém como amo alguém. Pelas galerias de minhas recordações, há inumeráveis sorrisos de amor em retratos vívidos, e eu caminho pelos corredores dos salões de minha paixão a olhar cada olhar de um castanho claro e divino que se imprime em mil tonalidades em suas íris que contêm todo o amplexo de sentimentos fugidios nos quais naufrago sem me molhar, pois fogem de meu toque por centímetros.
     É uma questão de abandono. E dedicação. Vejo ao longe, ainda que às vezes bem pálido, quase indistinguível, a raiz das minhas motivações para tudo. É um só sonho, um só desejo, que me faz buscar todos os meios para alcançá-lo. Isso faz com que os meios se confundam com "outros sonhos". Os meios são tudo que buscamos aperfeiçoar: alguma forma de expressão artística, altas patentes em empresas, vigor físico, etc.. Tudo não passa de meios para se atingir o objetivo maior, o grande sonho - vamos torná-lo graficamente especial adicionando maiúsculas: O Grande Sonho.
     O Grande Sonho. Ele surge a qualquer momento e nunca mais vai embora. Se algum dia se acreditou ter O Grande Sonho presente, mas depois dele se abriu mão, não era O Grande sonho; era só um grande sonho. Penso que, embora esteja escrevendo sobre algo tão incrível, talvez o que eu tome por O Grande Sonho na minha vida seja, na verdade, só um grande sonho. Não posso afirmar que sei que é ou não; eu estaria sendo obtuso, e tenho apreço pela incerteza. Mas, pelo menos por agora, a mim me parece que Meu Grande Sonho é o definitivo.
     E por ele eu me dedico às atividades que me agradam e vivo meus "meios" disfarçados de outros sonhos, sempre à espera do dia em que a melhor das chances soprará sua deixa em meu ouvido, e serei um misto indissociável de técnica e impulso, de controle e receio, de precisão e titubeios e, em um só momento, em uníssono, se todos os diminutos planos derem certo, se abraçarão Dois Grandes Sonhos.
     Meu Grande Sonho é um momento. Pela minha mente passam cinematograficamente detalhes espetaculares da ocasião, eu vejo os olhos e os sorrisos, ouço os acordes, sinto os perfumes e os cabelos livres nos lados dos rostos, há também o delicioso frio que nos invade a partir do coração em momentos emocionantes, mas ainda mais forte, sinto as dores das angústias fugindo da certeza, e haverá também o luar, pois será durante a noite, e estrelas longínquas, que talvez sustentem outras vidas a contemplar o brilho mínimo e unidimensional de nosso astro e a realizar Seus Grandes Sonhos e a imaginar se há vidas realizando Seus Grandes Sonhos sustentadas por este pontinho de luz enquanto pensam a mesma coisa sobre eles e daí para sempre neste ciclo. Meu Grande Sonho é lindo em prosa, verso, acorde, tinta e, é claro, possui todo o encanto do mistério existencial.
     Depois dele, quero uma vida de profundo deleite, sem mil roteiros por dia, e todas as grandes realizações somente possíveis após o sucesso d’O Grande Sonho.
     Depois, vem O Fim, e o começo d'A Grande Memória.

O conceito de liberdade

é, adoravelmente, uma síntese de motivações e realizações banais. Vejam o meu maior exemplo; é patético: meu cabelo comprido. E a barba, geralmente. Claro, há muitos outros pormenores, mas isto se sobressai. Deve ser o de muitos homens. Não acredito, entretanto, que o de muitas mulheres seja de seus cabelos curtos. A liberdade vem, segundo minha linha de pensamento, em conjunto de algum tipo de cultivo, físico ou emocional. Não sugiro com isso, entretanto, que acredito que devam deixar crescer a barba. Aliás, muito menos quero generalizar o conceito sacrossanto e individual de liberdade. Exponho minha simplória alegria - o cabelo comprido - para que ninguém se sinta tolo por se sentir mais feliz usando calça xadrez e camisa listrada, ou por gostar de cantar alto sua música favorita, ou coisas consideradas mais "baixas" que, por pudor alheio, não ilustrarei, embora eu creia que, enquanto não afetarem o conceito de liberdade de outrem, são tão válidos quanto qualquer outro.

Abandone a sanidade

     Há cinco níveis, abrangentes, perceptíveis, para a concepção de uma história.
     O primeiro é o básico, que conta uma história verídica, uma biografia, um relato de uma de tantas guerras que nosso mundo assolaram.
     O segundo ocorre quando se cria uma história fictícia dentro de nosso Universo. Um futuro próximo alternativo, um personagem inventado mas perfeitamente normal, como qualquer um de nós, se é que somos todos perfeitamente normais, algum conto romântico platônico contemporâneo.
     O terceiro é quando se cria uma fantasia, um Universo fictício, com seres inexistentes, mitologia própria, relações diferentes entre seus habitantes e a natureza, ou as forças da natureza, um quê de magia, demônios e deuses estranhos, complexos, vingativos e/ou amistosos, regras físicas, químicas e matemáticas levemente alteradas, para dar os contornos necessários para a trama.
     O quarto é quando se mistura este novo Universo ao nosso, partindo do pressuposto de que estes estavam bem separados. Por meio de alguma magia exclusa, alguma porta dimensional, ou seja lá o que for, os dois Universos entram em contato, e deste contato saem faíscas, e humanos céticos fogem de ciclopes de lá, e cientistas loucos de cá promovem experiências bizarras com sátiros e unicórnios.
     O quinto é quando se coloca um dentro do outro, e dentro de outro, e numa ideia incrível tudo se engloba, de forma infinitamente abrangente. Não mais se sabe qual mundo surgiu de qual, ou qual tem domínio sobre qual, e quantos outros Universos dentro desta confluência podem nascer ou se fazer visíveis, sendo que qualquer novo mundo que surja pode ser visto de forma totalmente independente, brigando ele mesmo pelo domínio dos outros, como um deus que cria outro deus, que acaba criando outro deus, e este, por sua vez, sem perceber, cria o criador de seu criador, num paradoxo inenarrável.
     E sabe-se lá quantas voltas isto deu, ou quantas vai dar, se termina ou não, meu Deus! Quem foi que te criei? Há um complemento para tudo, ainda para surgir, que falta para que todas as histórias e Histórias possam por fim se unir numa corrente de eventos totalmente entrelaçada, sem pontas soltas, mas tampouco visíveis, decerto inexistentes. É como se houvesse um propósito indecifrável para todas as ideias que já foram escritas, e que ainda serão. Como se estivéssemos dando corda em todas as facetas deste Universo, e nossas histórias dando corda em outros versos intangíveis, e suas histórias também, todos simultaneamente, até que em determinado momento estalaremos a corda, chegando ao tão esperado momento, em que Tudo começará a rodar, como o carrinho dispara assim que o soltamos no chão, ávido para existir, cumprir seu propósito, ou o propósito de quem dá corda.
     O que nos leva ao início. Pois por qual superfície este carrinho andará? Não se pode alcançar o final desta incerteza. Algo misterioso sempre aparecerá por trás de qualquer teoria complexa e profunda. E, por trás deste Algo, Outra Coisa ainda existe. E depois. E depois. E depois, e ainda antes, e para sempre.
     Estamos presos. Não só nós. Os mundos que criamos estão presos. O carrinho está preso. O plano por onde ele correrá está preso. O Algo está preso. E a Outra Coisa. E tudo, e Tudo. Cada um preso dentro de algum lugar; e em cada lugar se acredita que o que está além conhece todos os segredos e detém todas as chaves. Talvez o que está além conheça as respostas para o Universo que está a seu alcance, sob seu provável domínio. Mas se perde como habitante de seu plano em busca de uma resposta maior.
     Estamos presos.